
Prezados, preparem o espírito e reforcem o coador. A notícia chegou não como um boato, mas como uma sentença: o nosso sagrado cafezinho de cada dia vai decolar. E não é um voo de carreira; é um lançamento de foguete da SpaceX, direto para a estratosfera dos preços.
A causa? Uma tragédia com requintes de humor negro do outro lado do mundo. Acontece que o Vietnã, um dos grandes produtores do planeta, estava prestes a colher uma safra recorde do seu café robusta. Estava. No pretérito. Pois a Natureza, essa senhora que anda com um humor péssimo ultimamente, resolveu encenar uma vingança de roteiro bíblico e despachou para lá um dilúvio. Os cafezais, que esperavam o sol, receberam água até a metade do pescoço.
E qual a consequência imediata de uma lavoura submersa do outro lado do mundo? Ora, a alegria dos especuladores na bolsa de valores. Enquanto os grãos apodrecem na lama vietnamita, os gráficos em telas de Londres e Nova York sobem em verde-esperança. É a globalização em sua mais pura e cruel poesia.
Agora, a parte que nos toca. Com o principal fornecedor em estado de calamidade, para onde os olhos sedentos do planeta se voltam em busca de consolo? Sim, para nós. Pindorama, o eterno vice-campeão do café robusta, foi promovido a salvador da pátria cafeinada. Uma honra que, como todas as honras, virá com um preço. E quem vai pagá-lo somos nós, na gôndola do supermercado.
E para garantir que a nossa desgraça seja completa, a mesma fúria hídrica que afogou o café levou junto as lavouras de cacau. Sim, meus caros. Aquele chocolate, nosso calmante de emergência, o indutor de endorfinas que nos ajuda a suportar as notícias do dia a dia, também entrará para o clube dos artigos de luxo. Em breve, terá o preço de um tranquilizante tarja preta.
É, meus amigos, a conta do nosso descaso climático chegou. E ela não vem por e-mail. Vem no preço das pequenas alegrias, nos hábitos que definem a nossa cultura. O pagamento não é em dinheiro, é no sabor do nosso cotidiano, que vai se tornando, a cada desastre, um pouco mais amargo e muito mais caro.
A pergunta azeda que fica é: Qual será o próximo?