
Há uma pressa no ar, meus caros, que não é apenas a dos relógios. É uma urgência da carne, uma sofreguidão de se tornar outro, de esculpir-se não com o tempo e a paciência do cinzel, mas com a violência química do imediato. Vivemos tempos estranhos, onde a felicidade parece ter sido reduzida a um número na balança ou a uma medida de fita métrica.
Escrevo-lhes hoje não como juiz, mas como um compadre que, debruçado na janela da vida, vê passar o cortejo da vaidade e sente um calafrio na espinha.
Falemos das tais canetas. Ah, a ciência… Bendita seja ela quando estende a mão ao homem caído. É preciso tirar o chapéu e fazer a reverência: para o enfermo, para aquele cujo corpo sucumbe ao peso da obesidade mórbida ou à cruz do diabetes, essas substâncias — os agonistas que a medicina nos deu — são, sim, um milagre. Quando há um médico, um verdadeiro guardião de Hipócrates ao lado, guiando a dose e o destino, isso é saúde. É a vida retomando seu curso.
Mas o que me traz a esta lauda não é a cura; é a quimera.
O problema, leitor amigo, é quando a medicina despe seu jaleco branco para vestir a fantasia de cosmético. É o modismo que me assusta. É ver a moça sã, o rapaz forte, buscarem na farmácia (ou no mercado negro das esquinas digitais) a solução para uma angústia que não é física, mas de alma. Querem caber num molde. Querem a silhueta de um povo que não é o nosso, negando a herança de nossas avós, a estrutura de nossa ossatura, a nossa própria geografia humana.
E nessa febre de “secar”, nessa ditadura cruel do corpo perfeito, ignora-se o grito dos órgãos.
Fala-se da magreza que chega galopante, mas pouco se diz do preço que o corpo cobra no escuro. Os estudos de 2025 já não sussurram, eles gritam: o estômago que paralisa, o pâncreas que inflama em protesto, o intestino que trava. E agora, uma sombra ainda mais densa: o risco de que a luz dos olhos se apague. A neuropatia óptica, esse nome frio para uma tragédia quente, rondando aqueles que brincam de Deus com a própria biologia.
Eu lhes pergunto, com a sinceridade de quem declama um verso triste: vale a pena trocar a luz do olhar pela medida da cintura? Haverá beleza no mundo que justifique não poder mais vê-la?
Tenho visto gente sã adoecer por escolha. Tenho visto a juventude tombar em academias, corações parando subitamente porque foram exigidos além do que a natureza desenhou. Conheço “gordinhos” cujos exames são um poema de saúde, e conheço magros de passarela que são, por dentro, ruínas de desnutrição e tristeza química.
Não quero, com estas linhas, tolher a liberdade de ninguém. Mas peço, como quem pede um favor a um amigo: parem. Respirem. Pensem.
O exercício é bom, é o júbilo do movimento. A comida é a celebração da terra. Mas a agulha, quando usada apenas para alimentar o espelho, é um risco que não compensa a glória efêmera de um verão.
Que saibamos ser elegantes de outra forma: a elegância de se aceitar, de cuidar da saúde real e não da saúde de vitrine. Que a gente não precise perder a visão para, finalmente, enxergar o que importa.