
Meus caros, a memória é uma senhora caprichosa, muitas vezes curta em Pindorama, mas os arquivos, estes são implacáveis. Lembram-se de quando, em uma crônica não muito distante, sussurrei-lhes ao pé do ouvido que o velho metal amarelo seria o grande protagonista do tabuleiro? Pois bem. Há uma certa elegância melancólica em se ter razão, especialmente quando a previsão envolve o redesenho do poder mundial.
O que assistimos agora é a consumação daquele alerta. Os BRICS, esse clube que muitos insistiam em tratar como uma reunião de condomínio sem síndico, aceleraram o passo. A estratégia é clara, silenciosa e letal para o status quo: acumulação maciça de ouro e a redução gradual, porém constante, da dependência do dólar americano.
Não se trata mais de especulação. Com seus aliados estratégicos, o bloco já controla cerca de 50% da produção global do metal. É um movimento tectônico que afeta as reservas, o comércio internacional e faz tremer a arquitetura financeira global, até então desenhada à imagem e semelhança do Tio Sam. Oficialmente, eles detêm cerca de 20% das reservas globais, mas quem sabe ler as entrelinhas do mercado percebe que a influência real, somada à produção, é avassaladora.
A Rússia e a China, como maestros dessa orquestra, estão na vanguarda. Basta olhar para o retrovisor: em 2024, a China extraiu 380 toneladas de ouro, enquanto a Rússia respondeu por 340. Entre 2020 e 2024, num movimento coordenado que passou despercebido aos distraídos, os bancos centrais do bloco foram responsáveis por mais de 50% das compras globais de ouro.
E aqui, meus diletos, reside a ironia fina da história. Enquanto o mundo ocidental brincava de imprimir papel colorido lastreado em “confiança”, o Oriente voltava ao tangível.
Sabemos, é claro, que o dólar ainda posa como a prima donna das reservas mundiais. Sua supremacia não cairá numa terça-feira qualquer, nem haverá um confronto frontal — a diplomacia e a economia preferem a erosão à explosão. Mas os movimentos recentes indicam que o reinado absoluto da moeda americana está com os dias contados. Como os BRICS respondem por quase 30% do comércio global, cada decisão monetária conjunta do bloco é uma onda de choque que atravessa os oceanos.
A percepção serena, de quem vê o futuro chegando na esquina, é que em não mais que uma década o dólar deixará de ser o sol em torno do qual orbitam todas as economias. Isso colocará os Estados Unidos num patamar, digamos, mais humilde. E podem ter certeza: essa perspectiva tira o sono em Washington, causando não apenas insônia, mas uma “azia econômica” brutal.
Percebam a gravidade: estamos falando de um sistema que dura quase um século sendo desmantelado. A economia americana, a mais endividada do planeta, sustenta-se numa ficção construída na década de 70, quando o dólar deixou de ter lastro em ouro para ter lastro na “fé” de que os EUA honrariam suas dívidas. É um castelo de cartas majestoso, mas ainda assim, um castelo de cartas. Quando o mundo começa a preferir o ouro sólido à promessa de papel, a estrutura balança.
E por motivos mais que óbvios, quem detém a hegemonia comercial do mundo não entregará o cetro com um sorriso no rosto. A transição de poder nunca é um chá das cinco. Como dizemos na sabedoria popular de Pindorama: isso ainda vai render muito pano para manga.
Estejam atentos. O ouro mudou de cofre, e com ele, o eixo do mundo.