Engolfado pela quebra do Banco Master, de quem comprou carteiras de crédito supostamente fraudadas, o Banco de Brasília (BRB) começa a tomar medidas de contenção da crise, cujo impacto ainda é incerto.
A nova administração, comandada por Nelson Antônio de Souza, sinalizou que vai reavaliar os planos de expansão nacional do BRB, planeja passar um pente fino em acordos publicitários e já desfez alguns negócios. A reversão da venda de 49% na financeira do grupo, por R$ 320 milhões, é o maior exemplo até agora.
Quando a operação Compliance Zero prendeu o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, e afastou o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em 18 de novembro, uma tempestade perfeita se abateu sobre a instituição do Distrito Federal, que se tornou peça central no escândalo. Naquele momento, o governador Ibaneis Rocha (MDB) chamou Souza, que já havia chefiado o Banco do Nordeste e a Caixa, além de ter presidido o conselho de administração do BRB, para assumir o banco.
A denúncia da Polícia Federal, segundo a qual R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito teriam sido fabricadas e cedidas pelo Master e compradas pelo BRB, tem o potencial de gerar perdas bilionárias para o banco distrital. O tamanho do buraco, porém, ainda é muito incerto. O número depende das investigações, das ações do Banco Central, e do trabalho da Kroll e do Machado Meyer, contratados pelo BRB para analisar o caso.
A instituição ainda não divulgou o balanço do terceiro trimestre de 2025. Dados do sistema IFData, do Banco Central, mostram que BRB teve lucro de R$ 184,6 milhões, queda de 34,2% ante o trimestre imediatamente anterior, mas um avanço de 114,6% na comparação com o mesmo período do ano passado. No acumulado dos três primeiros trimestres do ano, o resultado é de R$ 715 milhões, com expansão de 731,5% ante o mesmo período do ano anterior.
O patrimônio líquido estava em torno de R$ 4,8 bilhões.
Segundo o Valor apurou, o impacto da Compliance Zero não deve entrar como evento subsequente no balanço do terceiro trimestre. Ou seja, tenderia a ser contabilizado no quarto trimestre ou mesmo depois, a depender de quando as investigações forem encerradas.
Fontes do corpo técnico do BRB, formado por funcionários concursados, dizem que a situação atual é parecida com o que aconteceu na operação Circus Maximus, da PF, em 2019, quando foram presos diretores e ex-dirigentes do banco.
A questão central para o BRB será o impacto das investigações sobre a compra de R$ 12,2 bilhões em carteiras do Master. Conforme o Valor noticiou e posteriormente Costa disse ao Supremo Tribunal Federal, mais de R$ 10 bilhões das carteiras originais foram trocadas, após o banco distrital identificar problemas de documentação.
Nesse cálculo, ainda sobraram cerca de R$ 2,2 bilhões em créditos falsos para o BRB lidar — o que representa um impacto relevante para o porte da instituição.
O ex-CEO tem dito que o banco seguiu todos os ritos de compliance e auditoria na compra desses ativos e que nenhuma fraude por parte do Master foi comprovada até o momento.
Grande parte das carteiras de consignado do Master vem do Credcesta, que o empresário Augusto Lima — também preso na Compliance Zero — levou ao grupo quando se tornou sócio de Vorcaro. Entretanto, parte dos ativos comprados pelo BRB teria sido originada após a saída de Lima do grupo. Segundo a investigação da PF, algumas das cédulas de créditos bancários (CCBs) haviam sido adquiridas pelo Master e originadas pela empresa de correspondentes bancários Tirreno, fundada poucos meses antes por Henrique Peretto e André Maia. Estes também são fundadores da fintech Cartos e foram presos pela PF.
Uma fonte com conhecimento do assunto lembra que o Master originava muito pouco consignado, e por isso passou a comprar operações da Tirreno, que tinha quase 20 correspondentes bancários. Na visão desse interlocutor, é improvável que o BRB tomasse um risco deste tamanho sabendo que poderia haver problemas nas carteiras. O banco já comprava carteiras de outros bancos desde 2023 e esses são processos que passam por “diversas etapas de aprovação”, argumenta a fonte.
De acordo com essa pessoa, tais carteiras já geraram margem financeira para o BRB, o que reduz muito a chance de que a instituição tenha um prejuízo bilionário com esse caso.
Em comunicado no dia 24 de dezembro, o banco disse que haviam sido substituídos cerca de
R$ 10 bilhões em ativos comprados do Master e que “o Banco Central do Brasil foi devidamente comunicado e os indicadores prudenciais do BRB são monitorados pela autoridade monetária”.
Procurado, o BRB disse que, caso seja confirmado prejuízo, o governo do Distrito Federal já acenou com a possibilidade de aportar recursos. “O banco reforça que permanece sólido, operando normalmente e assegurando todos os serviços financeiros, incluindo crédito, investimentos e atendimento em canais digitais e presenciais. Além disso, informa que é credor na liquidação extrajudicial do Banco Master e que aprimorou seus controles internos, mantendo suas carteiras dentro dos padrões exigidos pelos órgãos reguladores e de controle”, afirmou em nota.
Como os bancos seguem o regime de competência, desde a data de assinatura do contrato de compra das carteiras elas já estão contabilizadas no balanço do BRB. Ou seja, só será feito algum tipo de deságio ou baixa se isso for orientado pela auditoria ou pelo regulador. Em outubro, segundo o IFData, o banco brasiliense tinha R$ 83,5 bilhões em ativos, sendo R$ 57,2 bilhões na carteira de crédito. O banco não enviou ao BC as informações sobre indicadores de capital, o que pode indicar que dependem das investigações. Em junho, o índice de Basileia era de 13,9%.
Logo após a Compliance Zero, a S&P rebaixou o rating do BRB e o manteve em observação negativa, indicando que novo corte era possível, já que não se sabia como a investigação poderia “afetar a reputação, as finanças, o financiamento e a liquidez do BRB”.
A Fitch também reduziu a nota do banco. “As questões de governança e as investigações sobre carteiras de crédito supostamente fraudulentas adquiridas do Master aumentaram substancialmente o risco de falha do BRB e revelaram graves deficiências nas práticas de supervisão e gestão de riscos”, disse a agência de classificação de risco.