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O Crime Organizado, toma uns drinks no Bandeirantes

O Crime Organizado, toma uns drinks no Bandeirantes

Há quem diga que o crime, em sua essência, vive nas sombras, esgueirando-se pelos becos úmidos e fugindo da luz dos holofotes. Ledo engano. Em Pindorama, essa terra onde a realidade insiste em superar a mais febril ficção, o crime cansou-se dos bastidores. Lavou o rosto, perfumou-se, vestiu o linho mais alvo e decidiu que a clandestinidade é coisa do passado. Agora, o crime não apenas entra pela porta da frente; ele é convidado de honra, bebe o champanhe da casa e, se bobear, ainda critica a safra.
Tomemos, por exemplo, o caso que nos assalta a incredulidade nesta semana. Temos uma protagonista que faria qualquer reitor de universidade chorar de emoção. Uma moça de currículo invejável: Direito Penal, Constitucional, Ciência Forense, Perícia Criminal. Uma verdadeira polímata da Lei, uma enciclopédia viva dos códigos que regem nossa civilidade. Layla, a estudiosa. Layla, a aplicada.
Mas Pindorama, ah, Pindorama… Tu és a mãe gentil que afaga o lobo enquanto ele veste a pele do cordeiro.
O ápice desta ópera-bufa não ocorreu num covil secreto, mas sob os lustres do Palácio dos Bandeirantes, na sala de visitas do estado mais rico da nação. Ali, onde o discurso oficial prega o combate incessante às organizações criminosas, a nossa protagonista foi ungida Delegada de Polícia. E não foi só. Como o amor é lindo e não conhece fronteiras — nem mesmo as do Código Penal —, levou a tiracolo seu amado, o senhor “Dedel”.
Imaginem a cena, meus caros: de um lado, a pompa, a circunstância, o carimbo oficial do Estado; do outro, de mãos dadas com a nova autoridade, um cavalheiro apontado como prócer do Primeiro Comando da Capital e magnata do tráfico em Roraima. O Crime Organizado, vejam só, estava no convescote. Deve ter provado os canapés, cumprimentado as excelências e sorrido para as fotos. Fico a imaginar se, entre um brinde e outro, não trocaram cartões de visita.
A ironia nos esbofeteia com a força de um vendaval. Enquanto os gabinetes de inteligência gastam milhões em softwares e satélites, o inimigo entra no Palácio de braços dados com a lei, protegido pela cegueira seletiva de nossas triagens. Descobre-se, tardiamente, que a douta delegada, além de jurista, era empreendedora de panificação em Itaquera — um negócio fermentado, suspeita-se, com o dinheiro que a lei proíbe — e advogada de defesa de faccionados nas horas vagas. Uma versatilidade de fazer inveja.
A prisão veio, é verdade. O Ministério Público e o Gaeco agiram, a Justiça decretou o cárcere. Mas o gosto que fica na boca é de cinza e vinagre.
Fechem os olhos por um instante, se tiverem estômago. O que esse baile de máscaras nos diz sobre as entranhas de Pindorama? Se o crime consegue sentar-se à mesa do governador, o que o impede de pegar o martelo do Juiz? O que o impede de redigir a denúncia do Promotor?
Já não estamos falando de bandidos que pulam muros. Estamos falando de bandidos que constroem os muros, que desenham as fechaduras e que, suprema audácia, guardam as chaves. Imaginem o cidadão de bem, esse Sísifo tropical, buscando justiça num tribunal onde o meritíssimo senhor juiz pode ter, sob a toga, a tatuagem da facção. Não sei se rio da tragédia ou se choro da comédia.
O crime, meus amigos, é um animal político. E ambicioso. Ele já percebeu que assaltar banco dá muito trabalho e pouca garantia. O grande golpe, o verdadeiro heist do século, é assaltar as instituições por dentro, via concurso público, via diploma na parede, via posse solene com direito a hino nacional.
Se isso não lhes causa um calafrio na espinha ao pensarem no próximo sufrágio, nas urnas que se avizinham, então talvez Pindorama já tenha nos anestesiado por completo. O Crime não está mais à porta. Ele já entrou, sentou-se na cabeceira e, ao que parece, está achando o serviço de quarto um tanto demorado.



Estado do Ceará

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