A Guatemala viveu no de semana uma das maiores crises durante o governo de Bernardo Arévalo. Pelo menos nove policiais morreram e vários outros ficaram feridos em ataques atribuídos pelas autoridades a gangues, após motins em diferentes prisões que tiveram de ser controlados pelas forças de segurança.
Arévalo considera que a jornada violenta tem matizes políticos e busca desestabilizar sua administração em um ano-chave para o país, no qual serão renovados os titulares do Ministério Público, da Corte de Constitucionalidade, da Controladoria-Geral do Estado e do Tribunal Supremo Eleitoral.
O que implica o estado de sítio
Diante da crise de segurança, o governo decretou um estado de sítio com vigência de 30 dias, que permitirá às autoridades deter pessoas suspeitas sem necessidade de autorização de um juiz, proibir o porte de armas de fogo, limitar ou impedir a realização de reuniões ao ar livre, manifestações sem autorização ou mesmo autorizadas caso ocorram com armas de fogo ou elementos de violência, entre outras medidas.
A ideia, segundo o governo, é garantir a tranquilidade da população, sem que as medidas afetem o desenvolvimento normal de suas atividades.
Nesta segunda-feira, as aulas foram suspensas e algumas instituições, como a Suprema Corte de Justiça, cancelaram as jornadas de trabalho por segurança de funcionários e usuários, segundo um comunicado.
Também como parte do estado de sítio, a polícia realizou várias operações de busca e apreensão e prendeu diversas pessoas, supostamente ligadas aos ataques. Em uma das operações, dois fuzis foram apreendidos.
O presidente Arévalo fez um apelo no domingo, em cadeia nacional, pela unidade da Guatemala para superar a crise e, nesta segunda-feira, durante as honras fúnebres dos policiais mortos no cumprimento do dever, afirmou que os responsáveis “não ficarão impunes” e que todo o esforço será feito para puni-los.
A origem da crise
A crise começou no sábado, com o amotinamento simultâneo de detentos em três prisões, que incluiu a tomada de agentes penitenciários como reféns para exigir o cumprimento de suas reivindicações, entre elas melhores condições nas cadeias, de acordo com as autoridades.
O Ministério do Interior informou que os motins foram orquestrados por membros da gangue Barrio 18 e por seu líder, Aldo Dupié Ochoa, conhecido como “El Lobo”, que buscava ser transferido para outra prisão e exigia melhor tratamento enquanto estivesse encarcerado.
“Como disse, não estou disposto, como ministro do Interior, a recuar, devolver privilégios nem conceder qualquer tipo de consideração para deter esta situação”, afirmou Marco Antonio Villeda, ministro do Interior, aos jornalistas neste domingo.
Após a tensão, as autoridades disseram que conseguiram retomar o controle das prisões.
O contexto político
O governo afirma estar convencido de que as ações do fim de semana, embora executadas por gangues, foram orquestradas por “estruturas políticas desestabilizadoras”.
“As torres de corrupção e impunidade que por décadas sustentaram o crime organizado estão caindo”, disse Arévalo na noite de domingo, em uma mensagem transmitida em cadeia nacional.
O ano de 2026 é crucial para a gestão de Arévalo, devido às já mencionadas renovações de cargos públicos em diversas áreas.
“O tema da segurança, infelizmente, tem sido visto como uma batalha político-eleitoral”, disse em entrevista à CNN Alejandro Balsells, analista e assessor da Secretaria-Geral da Presidência.
“Há pessoas que utilizam ou criam espaços de violência para vender alternativas eleitorais, e este ano é fundamental para o país; não é exceção”, acrescentou Balsells.
O presidente Arévalo considera que, com os motins e os ataques nas ruas contra agentes da polícia, “tentaram infundir terror e caos”, mas não tiveram êxito porque seu governo “não está disposto a fazer pactos com o crime organizado”.
“Este não é um tema de violência espontânea, não é uma reação de gangues desordenadas, mas responde a estruturas político-criminais”, assegurou Balsells.
O governo afirma que, durante o estado de sítio, tomará as medidas necessárias para impedir que grupos criminosos voltem a executar ações desse tipo, pois não permitirá que “a violência e a intimidação” influenciem suas políticas.