Donald Trump tem reiterado seu desejo de comprar a Groenlândia por considerar que essa seria a única forma de garantir a defesa dos Estados Unidos. A Dinamarca e a Groenlândia, entretanto, rejeitam a ideia e dizem que qualquer preocupação de Washington pode ser tratada dentro do acordo de defesa já existente.
A União Europeia, inclusive, tem escalado a crise com o governo norte-americano por ser contra a aquisição da ilha ártica. Nesta quarta-feira (21), o bloco suspendeu por tempo indeterminado a votação de um acordo comercial com os Estados Unidos. Além disso, o continente continua estudando outras medidas econômicas em relação às recentes falas de Trump, como as tarifas sobre € 93 bilhões (US$ 109 bilhões) em produtos americanos e a aplicação do chamado Instrumento Anti-coerção.
Qual o interesse dos EUA na Groenlândia?
O presidente Donald Trump afirmou que a ilha ártica, estrategicamente localizada e rica em minerais, é vital para a segurança dos Estados Unidos e que o país deve controlá-la para impedir que Rússia ou China a ocupem.
Em publicação na Truth Social na semana passada, Trump alegou que “os Estados Unidos precisam da Groenlândia por razões de Segurança Nacional”. Segundo ele, a ilha “é vital para o Domo Dourado que estamos construindo. A OTAN deveria liderar o caminho para que consigamos isso. SE NÃO O FIZERMOS, A RÚSSIA OU A CHINA O FARÃO — E ISSO NÃO VAI ACONTECER!”.
O líder republicano também apontou que, do ponto de vista militar, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) não seria uma força nem um fator de dissuasão eficaz “sem o vasto poder dos Estados Unidos” e que a aliança militar “se torna muito mais forte e eficaz com a Groenlândia nas mãos dos ESTADOS UNIDOS. Qualquer coisa diferente disso é inaceitável”.
A quem pertence a Groenlândia?
Desde 1814, a Groenlândia é um território autônomo que é parte da Dinamarca. O primeiro contato entre os dois países data de 1721, quando o Reino da Dinamarca e Noruega realizou uma expedição até a ilha.
Na separação do reino, a Dinamarca acabou ficando com a Groelândia, que se tornou uma colônia do país nórdico. Esse status permaneceu até 1953, quando foi promulgada a Constituição dinamarquesa, e a Groenlândia passou a ser parte do Reino da Dinamarca.
Entre 1979 e 2008, houve a instituição de um governo autônomo dinamarquês. A iniciativa permitiu que houvesse a transferência de competências e responsabilidades da Dinamarca para a Groenlândia, de modo que a ilha ganhasse maior independência.
A autonomia plena só começou a ser atingida, de fato, a partir de 2009, com a promulgação da Lei de Autogoverno da Groenlândia. A legislação foi imprescindível para que as utoridades da ilha assumissem funções administrativas, legislativas e financeiras.
Apesar de ainda ser parte integrante oficial da Dinamarca, a Groenlândia possui seu próprio parlamento e não faz parte da União Europeia, sendo apenas um estado associado do bloco. Desde a promulgação da Lei de Autogoverno, a Dinamarca resolve apenas assuntos de caráter externo da Groenlândia.
Groenlândia faz parte da OTAN?
Não. A maior ilha do mundo, porém, está sob o guarda-chuva de proteção da aliança militar. Isso porque o território pertence à Dinamarca, que é um país-membro da organização.
Não à toa, o secretário-geral da aliança, Mark Rutte, declarou na ultima segunda-feira (19) que a Otan continuará trabalhando com a Dinamarca e a Groenlândia na segurança da região do Ártico, após uma reunião com o ministro da Defesa dinamarquês e o ministro das Relações Exteriores da Groenlândia.
“Discutimos a importância do Ártico — incluindo a Groenlândia — para nossa segurança coletiva e como a Dinamarca está intensificando os investimentos em capacidades essenciais”, disse Rutte na plataforma de mídia social X.
Os países que têm forças militares no Ártico
Apesar de a tensão geopolítica sobre a Groenlândia ter tomado o noticiário nos últimos dias, pouco tem se falado sobre os países que mantêm forças militares no Ártico. Hoje, oito nações fazem parte desse grupo, que pode ser alcunhado de seleto. São elas: Rússia, Estados Unidos, Canadá, Dinamarca, Noruega, Suécia, Finlândia e Islândia.
Veja, a seguir, um panorama dos ativos militares de cada país:
Metade da massa terrestre do Ártico pertence à Rússia. Desde 2005, Moscou reabriu e modernizou dezenas de bases militares da era soviética, tanto em seu território continental ártico quanto nas ilhas ao longo da costa norte.
A Rússia mantém alto grau de prontidão em seu local de testes nucleares em Novaya Zemlya, arquipélago no Ártico, embora não realize um teste com explosão nuclear desde 1990. Em outubro passado, o país governado por Vladimir Putin realizou um lançamento de teste do míssil de cruzeiro Burevestnik, de propulsão nuclear, a partir de Novaya Zemlya.
No Ártico europeu, a Península de Kola abriga cerca de dois terços da capacidade nuclear de segundo ataque da Rússia — ou seja, sua capacidade de responder a um ataque nuclear com armamento próprio —, segundo Mathieu Boulegue, pesquisador do Polar Institute do Wilson Center, em Washington.
A região também é sede da Frota do Norte da Rússia, com base em Severomorsk, que opera seis dos 12 submarinos nucleares do país, de acordo com dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS). Os outros seis são operados pela Frota do Pacífico, baseada em Vladivostok.
A única rota de acesso da Frota do Norte ao Atlântico Norte é pelo Mar de Barents, entre o arquipélago norueguês de Svalbard e a costa norte da Europa. Manter esse acesso livre é, portanto, essencial para Moscou.
Desde 1957, Estados Unidos e Canadá defendem conjuntamente seu território contra ameaças, incluindo mísseis nucleares, por meio do Comando de Defesa Aeroespacial da América do Norte (NORAD).
Segundo o IISS, os dois países estão modernizando o NORAD. O Canadá está adquirindo dois sistemas de radar além do horizonte que cobrem o Ártico e as aproximações polares, com o primeiro previsto para alcançar capacidade operacional inicial em 2028.
O presidente Trump demonstra interesse em desenvolver um novo sistema de defesa antimísseis, chamado Golden Dome, para o qual, segundo ele, a Groenlândia é fundamental.
Washington mantém a Base Espacial de Pituffik, no norte da Groenlândia, sob um acordo de defesa com a Dinamarca. Fora isso, a maior parte de suas forças no Ártico está distribuída por oito bases no Alasca, somando cerca de 22 mil militares, segundo o IISS e o Comando Norte dos EUA.
O Canadá possui cinco bases no Ártico, incluindo Alert, uma estação de inteligência de sinais na Ilha Ellesmere, que é o assentamento permanentemente habitado mais ao norte do mundo.
Ao sul do Círculo Polar Ártico, o Canadá opera uma base em Yellowknife, nos Territórios do Noroeste, que abriga um grupo de patrulha dos rangers e uma base aérea.
O país também está construindo uma instalação na Ilha de Baffin para reabastecer navios de patrulha oceânica — embora o projeto tenha sofrido vários atrasos. Os EUA, por sua vez, estão expandindo as instalações portuárias existentes em Nome, no Alasca, segundo o IISS.
O Comando Conjunto do Ártico da Dinamarca, com sede na capital da Groenlândia, Nuuk, conta com cerca de 150 militares e civis.
O comando também está presente na base aérea de Kangerlussuaq, além de quatro estações militares menores no leste e nordeste da Groenlândia. Há ainda um oficial de ligação em Pituffik.
A patrulha Sirius, que utiliza trenós puxados por cães — alvo de zombaria de Trump —, é uma unidade militar que realiza missões de reconhecimento de longo alcance nas condições extremas do nordeste da Groenlândia.
A Suécia não possui bases ao norte do Círculo Polar Ártico, mas mantém uma base aérea em Luleå, na costa norte do Golfo de Bótnia, e uma base do Exército com dois regimentos em Boden, cerca de 40 km para o interior.
A Finlândia possui uma base aérea em Rovaniemi, no Círculo Polar Ártico, e uma base da Brigada Jaeger mais ao norte, na Lapônia finlandesa.
Desde que ingressaram na Otan, os dois países vêm integrando suas forças armadas ao restante da aliança.
A Noruega atua como monitor da Otan em uma vasta área marítima de cerca de 2 milhões de quilômetros quadrados do Atlântico Norte, incluindo o Ártico.
Muitas de suas instalações militares ficam ao norte do Círculo Polar Ártico. O país possui quatro bases aéreas — incluindo uma para seus novos caças F-35 —, duas bases navais, uma série de bases do Exército e um centro de recepção para aliados da Otan em caso de reforço diante de um ataque.
A ilha do Atlântico Norte é membro da Otan, mas não possui forças armadas, apenas um serviço de guarda costeira.
O país recebe aeronaves de patrulha marítima P-8A Poseidon da Marinha dos EUA em regime de rodízio, baseadas na base aérea de Keflavík, próxima a Reykjavik.
Caças da Otan também fazem rotações periódicas em Keflavík para garantir a segurança do espaço aéreo islandês. Normalmente, os destacamentos duram de duas a três semanas, três vezes por ano.