Meus caros leitores, dizem que o Sol é a única riqueza democrática, pois banha com o mesmo ardor o teto do palácio e a telha do barraco. Mas aqui em Pindorama, essa terra onde a lógica costuma tirar férias coletivas, até o Astro Rei acabou recebendo um carnê da Receita Federal.
Vejam a situação, digna de um enredo surrealista. Vivemos num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, onde a energia solar cai do céu de graça, abundante como conversa de político em época de eleição. Seria o cenário perfeito para sermos a Arábia Saudita da energia limpa, não fosse um pequeno detalhe: o ímpeto arrecadatório da nossa burocracia.
Desde 2015, tínhamos um programa de incentivos que funcionava bem. As placas solares chegavam, os telhados brilhavam e a conta de luz diminuía. Mas, como em Pindorama a alegria de pobre dura pouco — e a de quem tenta empreender dura menos ainda —, decidiram que a brincadeira tinha que acabar. Resolveram taxar o sol.
A alíquota de importação dos painéis fotovoltaicos — lembrando que 99% deles vêm da China, pois aqui não fabricamos nem palito de dente tecnológico em escala competitiva — começou lá atrás tímida, entre 10% e 12%. Mas agora, chegamos ao glorioso ano de 2026, e a meta se cumpriu: estaremos pagando o módico, singelo e cristão percentual de 25% sobre o equipamento, que ultrapassar a as “enormes” cotas estabelecidas.
E qual é a justificativa oficial? Ah, meus diletos, aqui entra a ironia fina. Dizem os representantes da indústria nacional (leia-se: quem ganha com a reserva de mercado) que a medida visa “proteger a produção local”.
Ora, façam-me o favor! Dez anos de incentivo e não criamos uma indústria robusta, e agora vamos criá-la na canetada, taxando o importado? Isso tem o velho e conhecido sabor de chuchu de discurso corporativista. Parece mais que tem gente — talvez aquele “delicado” lobby das distribuidoras de energia, que adoram ver o cão chupando manga, mas detestam ver o consumidor independente — querendo garantir que o vivente continue refém do boleto mensal.
Em vez de reduzir a carga tributária para quem quer produzir aqui, Pindorama escolhe a via mais fácil: encarecer quem vem de fora. É a velha máxima de que, de onde menos se espera, é dali que sai mais imposto mesmo.
O resultado prático? A Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar) já avisava e agora vemos o risco se concretizar: R$ 97 bilhões em investimentos podem subir no telhado (e não descer em forma de energia). São 25 gigawatts de potência que podem virar fumaça.
E o toque final de sarcasmo reside justamente no “legado”. Depois de toda a pompa e circunstância da COP-30, onde Pindorama subiu ao palco para jurar amores à sustentabilidade, eis a nossa verdadeira contribuição prática no pós-evento: dificultar a energia limpa.
Foi uma pantomima performática para inglês ver. No palco, o discurso verde; nos bastidores, a caneta vermelha da tributação. Essa, meus amigos, foi a nossa contribuição “master” para o planeta: mostrar como se inviabiliza o futuro.
Pindorama não tem jeito. O problema não é o sol, nem a terra. O problema é que, por aqui, sempre que surge uma luz no fim do túnel, corre-se para taxar a lâmpada e vender a escuridão.
