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O Adeus ao Confidente de Fibra de Vidro

O Adeus ao Confidente de Fibra de Vidro

Hoje, peço licença para vestir o luto da saudade. Venho com aquele ar de quem olha para trás e vê um tempo que, sabemos, não volta mais — mas que teima em ser mais doce na memória do que essa montanha-russa de alopramentos digitais que vivemos hoje.Falo dele. Do gigante silencioso das esquinas. Do guardião das nossas vozes. Falo do Orelhão.Sim, meus caros. Aquele domo alaranjado ou azul, que parecia um capacete espacial pousado na calçada, vai nos deixar. Aqui nas plagas do Siará, foi decretado o seu fim oficial neste ano de 2026. Ele parte para o panteão das coisas extintas, levando consigo segredos que o WhatsApp jamais saberá guardar.Quem viveu os anos 70, 80 e 90 sabe do que falo. O orelhão era o símbolo máximo da liberdade urbana. Onde quer que o vivente estivesse, bastava encontrar aquela concha acústica de fibra de vidro para se conectar ao mundo. E se o bolso estivesse vazio de metal, a salvação residia na “budega” mais próxima, onde se comprava o passaporte para a conversa: a ficha telefônica.Ah, a ficha! Aquela moeda mágica, gravada com o nome sagrado da TELECEARÁ. Ter uma ou duas no bolso era tão essencial quanto o documento de identidade ou uma bala Soft. Ela nos concedia três minutos de eternidade. Três minutos para dizer “eu te amo”, para avisar “cheguei bem”, ou para marcar o encontro no cinema.Se a chamada fosse DDD, a conversa virava um exercício de agilidade e angústia. O vivente tinha que ter uma pilha de fichas na mão, alimentando a máquina faminta a cada “cloc-cloc” que ouvia, rezando para o assunto não acabar no meio da frase.Esse invento genial, com design de ovo criado pela arquiteta Chu Ming Silveira, chegou à nossa Marajaitiba em 1972. Reinou absoluto. Viu namoros começarem, viu negócios serem fechados, viu gente chorar de saudade e rir de bobagem. Ele era o confessionário laico da cidade.Mas o tempo, esse senhor implacável, trouxe em 1994 a semente do seu fim: a telefonia celular. Aos poucos, o orelhão foi ficando solitário. Vieram os cartões indutivos, aqueles com créditos, numa tentativa de modernizar o que já nascia velho diante do futuro móvel.Primeiro, matamos o telefone fixo, aquele que conferia status e ficava na sala de visitas, coberto com uma toalhinha de crochê. Afinal, como dizem os modernos: “quem liga para a casa se pode ligar para a pessoa?”. E agora, enterramos de vez o orelhão.Ele se vai, mas deixa sua silhueta gravada na retina de quem teve a sorte de viver a melhor década que a humanidade já produziu — a insuperável década de 80.Assistimos à mudança dos tempos, à troca dos ícones. A isso, damos o nome de viver. Dizemos adeus ao orelhão com a gratidão de quem se despede de um velho amigo que cumpriu sua missão.Fica a pergunta no ar, suspensa como uma ficha que não caiu: qual será a próxima invenção que nos fará dizer “não vivo sem”, apenas para, daqui a trinta anos, virar saudade numa crônica de jornal?Vá em paz, velho amigo de fibra. O silêncio da sua ausência será preenchido por nossas memórias.

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Estado do Ceará

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