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Bitcoin vive fase de transição e coloca em xeque tese do ‘ouro digital’ | Criptomoedas

Bitcoin vive fase de transição e coloca em xeque tese do ‘ouro digital’ | Criptomoedas

Nos últimos 12 meses, o Bitcoin acumulou quedas relevantes e oscilações bem mais intensas do que as registradas pelo S&P 500, pelo Nasdaq e pelo ouro — este último, tradicional porto seguro em momentos de incerteza. O comportamento aponta que a primeira e principal representante do mercado de criptoativos atravessa uma fase de transição narrativa: nem “ouro digital”, nem “parente” das ações de tecnologia.

Desde fevereiro de 2025, o Bitcoin acumulou queda de aproximadamente 7%, saindo da faixa de US$ 84 mil para cerca de US$ 79 mil no fim do mês passado, não antes de marcar nova máxima histórica, de US$ 126 mil, em outubro.

No mesmo período, o S&P 500 avançou cerca de 16%, o Nasdaq subiu perto de 20% e o ouro disparou mais de 60%, consolidando a trajetória de valorização, com novos recordes de preço.

Desde o início do período analisado, o Bitcoin alternou meses de alta expressiva, como abril (+14,2%) e maio (+11,1%), com recuos acentuados, a exemplo de novembro (-17,5%) e janeiro último (-10%). A amplitude chama atenção: enquanto a cripto oscilou entre -17,5% e +14,2% em variações mensais, S&P 500 e Nasdaq permaneceram, na maior parte do tempo, dentro de uma faixa mais estreita, entre aproximadamente -3% e +4% ao mês (veja gráfico).

A diferença também aparece nos momentos de estresse. Entre o pico de outubro (US$ 126 mil) e o fechamento de janeiro (US$ 79 mil), o Bitcoin acumulou queda de quase 40%, movimento típico de ativos muito sensíveis à liquidez global. No mesmo intervalo, os principais índices acionários americanos registraram oscilações bem mais moderadas.

Enquanto isso, o ouro apresentou trajetória mais consistente de valorização ao longo do período — impulsionado pelo ambiente de incerteza política e fiscal nos Estados Unidos. Em um cenário marcado por tensões geopolíticas, ruídos fiscais e pressões públicas do presidente Donald Trump sobre o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), o metal reforçou seu papel tradicional de reserva de valor.

O Bitcoin, por sua vez, não apresentou desempenho consistente de proteção. Nos meses de maior aversão a risco e de expectativa de juros mais elevados, amargou desvalorizações significativas, reagindo de forma mais próxima a ativos dependentes de fluxo de capital e apetite por risco.

Ao mesmo tempo, no entanto, a correlação com os principais índices acionários também não foi linear. Houve meses de alinhamento com S&P 500 e Nasdaq, mas também episódios claros de descasamento. Isso indica que o ativo não se comporta simplesmente como uma “ação de tecnologia”, conforme chegaram a sugerir analistas de instituições financeiras tradicionais como Franklin Templeton e Standard Chartered.

O que se lê dos dados é que o Bitcoin, aos 17 anos de existência, como grande parte dos adolescentes, está em busca de uma identidade. A tese de “ouro digital” — que pressupõe proteção em momentos de estresse e baixa correlação com ativos de risco — não se confirmou neste intervalo. Por outro lado, a criptomoeda também não se consolidou como mero reflexo do setor de tecnologia.

Mais do que uma ruptura de seus fundamentos originais, os próximos períodos sugerem “uma reacomodação de narrativa”, conforme apontam alguns analistas do próprio segmento cripto. “Os investidores, principalmente institucionais, estão em uma fase de decisão sobre qual categoria de ativo o Bitcoin deve ser encaixado”, observa Rony Szuster, analista-chefe do Mercado Bitcoin. “Enquanto não houver consenso entre esses players, o BTC vai correlacionar ora com reservas de valor, ora com ativos de risco.”

À medida que o mercado institucional amplia participação e que o debate macroeconômico ganha mais peso, o Bitcoin tem testado diferentes funções dentro do portfólio global de investimentos.



Valor Econômico

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