Criada em 2019, a Tractian cresceu em ritmo acelerado ao transformar um problema recorrente da indústria — paradas inesperadas de máquinas — em um negócio de base tecnológica. A média empresa desenvolve sensores e software de manutenção preditiva, faturou mais de R$ 300 milhões no ano passado, exporta 40% da receita e atua em mais de 20 setores industriais.
Seus fundadores, os engenheiros da computação Gabriel Lameirinhas e Igor Marinelli, são filhos de profissionais responsáveis pela manutenção de equipamentos na indústria, um no setor de cimento e outro no de papel e celulose, e o terceiro sócio, Leonardo Vieira, tem um irmão também trabalhando no ramo industrial. Os três sentiram, na vida familiar, as consequências de imprevistos nas linhas de produção. “Não havia hora do jantar, ceia de Natal, aniversário. Se surgisse um problema, era preciso ir até lá e resolver, porque a produção não podia parar. Esse é um problema grande que existe na indústria e vimos aí uma oportunidade”, conta Lameirinhas.
Depois de formados, Lameirinhas e Marinelli obtiveram financiamento de R$ 15 milhões na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) para desenvolvimento de sensores preditivos capazes de evitar falhas e quebras inesperadas de máquinas. Hoje empregam 600 pessoas, 300 no Brasil, 200 nos Estados Unidos e 50 no México, países para onde já exportam. Este ano, as vendas externas representaram mais de 50% do faturamento.
A Tractian recebeu aporte de fundos no valor total de R$ 1 bilhão, incluindo a captação mais recente, no fim do ano passado, de US$ 120 milhões (R$ 700 milhões), liderada pela Sapphire Ventures, com participação de General Catalyst, Next47 e NGP Capital. Inaugurou recentemente um campus de 10 mil m2, com investimentos de R$ 60 milhões, em São Paulo, para ampliar pesquisas em busca de novas soluções de manutenção preditiva.
“Fizemos dinheiro com tecnologia. Quanto mais máquinas conseguimos monitorar mais a empresa cresce. Investir em pesquisa e desenvolvimento para nós é essencial. Nossa meta é dobrar o time de pesquisa. Montamos um laboratório porque a ideia é aumentar a capacidade das nossas soluções para vários outros tipos de máquinas. É um projeto de empresa de 100 anos”, diz Lameirinhas.
Os sensores da Tractian ganharam mercado identificando vibração e temperatura de equipamentos industriais fora do normal. Com os recursos da Finep, ampliaram a capacidade de prever problemas a partir de pesquisas que agregaram o ultrassom aos sensores. Hoje, conseguem verificar se uma máquina está mal lubrificada, mensurando mudanças no padrão de vibração e no padrão de ultrassom, que capta frequências elevadas possíveis de serem identificadas apenas com esse hardware específico.
“O ultrassom permite diagnosticar o problema bem antes de acontecer, mais padrões de falhas em uma gama maior de máquinas”, diz o empresário. O sensor também ficou mais resistente, possibilitando seu uso em outros tipos de indústrias, como a química que opera em ambientes mais corrosivos e agressivos. As maiores demandas vêm dos setores alimentício, da agroindústria, dos biocombustíveis, de óleo e gás, papel e celulose, cimento, mineração, do setor automotivo e da indústria de base. Entre seus clientes estão Bosch, CSN, Renault, Boticário, Danone e Embraer.
“Investimos muito na tecnologia dos dispositivos e na inteligência por trás deles. Todos esses dados são processados com inteligência artificial. Nosso segredo como empresa é fazer tanto o dispositivo, como o modelo de IA para identificar os padrões de falhas. Temos um time de mais de 200 engenheiros”, acrescenta Lameirinhas. Em 2024, a empresa foi considerada uma das 50 melhores startups de IA no mundo pela revista Forbes — foi a única companhia de fundadores brasileiros a entrar na lista.
Este ano, a Tractian iniciou parceria com universidades, como USP, Unicamp e UFMG, para desenvolver novos equipamentos. “O que fazemos não está nos livros. Precisamos de pesquisa”, diz.