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O mercado de ações japonês atingiu recordes após a vitória da primeira-ministra Sanae Takaichi, que garantiu uma supermaioria de dois terços na Câmara Baixa. O índice Nikkei 225 subiu 3,9%, refletindo a mudança na política econômica do país. Takaichi, a primeira mulher a ocupar o cargo, implementou um orçamento suplementar para aumentar gastos em defesa e tecnologia, prometendo cortes de impostos que podem custar US$ 30 bilhões anuais.
Sua vitória foi vista como um referendo sobre sua agenda econômica, que busca reverter a deflação. Apesar do endividamento elevado, a estabilidade financeira do Japão é mantida. A maioria no Parlamento pode permitir emendas constitucionais, incluindo mudanças no Artigo 9, que proíbe forças armadas.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
O mercado de ações do Japão registrou na segunda-feira, 9 de fevereiro, níveis recordes de alta após a vitória esmagadora da primeira-ministra Sanae Takaichi na véspera, em uma eleição geral antecipada que assegurou uma supermaioria de dois terços na Câmara Baixa, composta por 465 cadeiras, ao seu Partido Liberal Democrático (PLD).
O índice Nikkei 225 subiu 3,9% na segunda-feira, ultrapassando a marca de 57 mil pontos pela primeira vez, atingindo um novo recorde de fechamento. O índice Topix, mais abrangente, também disparou para uma marca inédita, obtendo 3,8 mil pontos.
A euforia do mercado reflete a guinada da política econômica deflacionária que vinha vigorando nos últimos anos no Japão e começou a ficar para trás quando Takaichi, de 64 anos, assumiu o cargo de primeira-ministra, em outubro – foi a primeira mulher a ocupar o posto.
Conservadora de viés populista e admiradora do presidente americano Donald Trump, Takaichi aprovou um orçamento suplementar recorde para colocar em ação programas agressivos de gastos governamentais. O pacote incluiu aumento de gastos militares e planos para impulsionar grandes investimentos estatais em inteligência artificial e fabricação de semicondutores para revitalizar a economia japonesa.
A reação positiva dos mercados nos seus primeiros dois meses estimulou Takaichi a dar um passo arriscado – convocar eleições antecipadas com apenas 110 dias no cargo para obter maioria na Câmara Baixa do Parlamento japonês, onde o PLD teve de recorrer a uma coalizão com o Partido da Inovação para aprovar suas medidas.
Nesse sentido, a eleição antecipada de domingo serviu, em parte, como um referendo sobre a aprovação pública da agenda econômica de Takaichi. Para influenciar os eleitores indecisos, a primeira-ministra ancorou sua campanha na promessa do corte de impostos sobre o consumo — uma medida que o Ministério das Finanças do Japão estima que poderia custar mais de US$ 30 bilhões anualmente.
A proposta fez com que, durante a campanha, os rendimentos dos títulos do governo de referência disparassem, à medida que os investidores questionavam a capacidade do governo de financiar a estratégia – a dívida pública do Japão é a maior entre os países ricos, equivalente a 237% do PIB. Um dos principais fatores que impulsionam o atual governo, porém, é o mercado de ações japonês, que ignorou a volatilidade observada no mercado de títulos.
O resultado positivo das urnas, embora esperado, superou as expectativas. A coalizão liderada pelo PLD conquistou 354 das 465 cadeiras da Câmara Baixa do Parlamento japonês, o maior resultado do partido desde 1955, quando iniciou sua hegemonia na política japonesa.
Isso garante ao governo de Takaichi uma maioria de mais de dois terços na Câmara Baixa e a capacidade de anular as decisões da Câmara Alta, onde o PLD é minoritário, para impor sua agenda.
Mudança proativa
A vitória decisiva do governo transmitiu a mensagem de que os eleitores estão dispostos a abraçar o que Takaichi chamou de “mudança proativa na política fiscal”.
“O resultado é extremamente favorável para as ações japonesas, particularmente nos setores de defesa e segurança econômica, já que a premiê Takaichi agora tem ampla flexibilidade para prosseguir com sua agenda econômica pró-crescimento e avançar com reformas estruturais”, disse David Chao, estrategista de mercado global para a Ásia-Pacífico da Invesco, gestora global de investimentos.
“Ao mesmo tempo, é provável que os rendimentos dos títulos do governo japonês de longo prazo enfrentem pressão de alta, uma vez que gastos fiscais mais proativos, com o objetivo de reaquecer a economia, podem aumentar os riscos fiscais e inflacionários”, acrescentou Chao.
No âmbito interno, o principal desafio de Takaichi será justamente acalmar as preocupações de parte do mercado financeiro de que seus planos de aumento de empréstimos e gastos não irão alimentar a inflação, ao mesmo tempo que busca lidar com a insatisfação dos eleitores em relação à estagnação do padrão de vida.
Nos últimos anos, o ciclo prolongado de estagnação deflacionária que assolou a economia japonesa começou a se inverter, mas as famílias têm tido dificuldades para arcar com o aumento dos custos de alguns itens básicos, como energia e alimentos frescos.
Em uma reviravolta positiva para Takaichi, a inflação que corroeu a popularidade de vários de seus antecessores finalmente mostra sinais de moderação. Economistas esperam que os preços ao consumidor em fevereiro caiam para cerca de 1% em relação ao ano anterior, pela primeira vez em quase quatro anos.
“A deflação perene do Japão pode finalmente estar diminuindo, à medida que os salários crescem em conjunto com uma dose saudável de inflação”, escreveu Bruce Kirk, estrategista-chefe de ações japonesas do Goldman Sachs Research, em uma nota recente. “Temos um ciclo virtuoso em andamento.”
O temor do aumento do endividamento, resultado de décadas de políticas fiscais expansionistas, envelhecimento populacional e baixa taxa de crescimento, também tem atenuantes. Apesar do endividamento ser elevado, o país mantém estabilidade financeira devido a fatores como grande parte da dívida ser detida pelo Banco do Japão (o BC japonês), o histórico de taxas de juros baixas e a forte credibilidade institucional e monetária do país asiático.
A dimensão da vitória de Takaichi, por outro lado, pode levá-la a protagonizar medidas polêmicas além da política econômica do país. O fato de ter obtido maioria acima de dois terços dará ao PLD oportunidade de emendar a Constituição japonesa – algo que jamais ocorreu desde o fim da Segunda Guerra.
A forma agressiva com a qual a atual primeira-ministra está lidando com a China abre brecha para aprovar não só aumento de gastos militares como alterar o famoso Artigo 9 da Constituição japonesa, que proíbe o Japão de ter forças armadas, ao estabelecer que o país renuncia à guerra como direito soberano.
Essa possibilidade ganhou peso após as trocas de farpas entre Takaichi e o governo chinês em novembro. Na época, ela afirmou que o Japão poderia ser arrastado para qualquer conflito militar relacionado a Taiwan, considerado pela China um território chinês a ser tomado pela força, se necessário.
A China reagiu com veemência, alegando que Taiwan é uma questão puramente interna. As represálias incluíram a restrição do acesso de empresas japonesas a minerais críticos e ímãs essenciais para a indústria. No entanto, Takaichi se recusou a retratar-se de suas declarações, afirmando que estava apenas expressando uma política japonesa de longa data.
O apoio popular à sua postura em relação à China foi visto como um dos trunfos na eleição antecipada. Takaichi deverá viajar a Washington para uma cúpula com o presidente Trump no próximo mês, onde, entre outras coisas, buscará garantias de que os EUA permanecem comprometidos com a segurança regional na Ásia. Os EUA têm cerca de 60 mil militares estacionados no Japão.
A aliança com os EUA é um reflexo do pragmatismo de Takaichi e do reconhecimento de que afrouxar os laços é impensável diante de uma China cada vez mais assertiva.
“O Japão não tem outra opção senão manter uma relação próxima com os EUA para garantir sua segurança”, afirmou Gerald Curtis, especialista em política japonesa da Universidade Columbia.