Meus diletos, há momentos em que a realidade deixa de ser um fato para se tornar um espanto. Dizem que o futuro é um horizonte que se move conforme caminhamos, mas o que encontrei nas notícias recentes não foi um horizonte: foi uma bofetada de modernidade, desferida com a luva de seda da eficiência oriental.
A notícia veio de Changping, na China, e carrega o nome de uma gigante que ainda tropeça na língua de muitos brasileiros. Antes de prosseguirmos, façamos as pazes com a fonética: a Xiaomi não é “X-a-o-mí”, nem “Zi-ao-mi”. Pronuncie com a suavidade de quem sopra uma brisa: “Shau-mí”. Guarde o nome, pois o que ela acaba de inaugurar não é apenas uma fábrica; é um manifesto silencioso sobre o fim da era do suor.
Imagine um colossal pavilhão de 81 mil metros quadrados. Agora, apague a luz. Tudo. O breu total. Ali, onde antes ouviríamos o burburinho de operários, o tilintar de marmitas e o ruído humano da exaustão, impera agora um silêncio algorítmico. A nova Smart Factory da Xiaomi opera no escuro absoluto. E por que precisaria de luz? Máquinas não possuem retinas; elas possuem sensores. Robôs não precisam de fotossíntese nem de vitamina D; precisam de dados.
É a indústria sem “viva alma”. Um exército de braços mecânicos e inteligências artificiais que não conhece o cansaço, não pede aumento e, o mais assustador, não para para tomar um café. São 24 horas por dia, sete dias por semana, em um balé frenético e invisível. O investimento de 300 milhões de dólares parece uma cifra astronômica, até que a matemática do futuro nos atinge o peito: a fábrica produz 10 milhões de smartphones por ano.
Façamos a conta, meus caros, e tentem manter o fôlego. Enquanto você termina de ler esta frase, um telefone acaba de nascer. Tic-tac. Mais um. A fábrica de Changping cospe um aparelho por segundo. Um por segundo! É uma velocidade que desafia a nossa percepção biológica do tempo. Enquanto o mundo boceja, o dragão chinês, no seu retiro escuro, parta um novo mundo a cada batida de coração.
O resultado dessa metamorfose já se sente no chão de Pequim e arredores. O peso da indústria tradicional na China recuou sutilmente, de 30% para 29%, enquanto o setor de serviços saltou de 38% para 48%. Não se enganem: a produção não diminuiu; ela apenas se tornou tão eficiente que o esforço humano migrou para outras esferas — ou foi, simplesmente, dispensado do palco principal.
A cidade de Changping ergueu uma vitrine para o planeta, mas é uma vitrine que reflete um futuro que, para muitos, é assustador. É a vitória definitiva do código sobre o músculo. Estamos diante de um concorrente que não dorme, não pisca e, no silêncio da sua escuridão produtiva, redefine o que significa “trabalhar”.
O futuro não está chegando. Ele já se instalou, apagou as luzes e começou a produzir — e ele corre a um segundo por vez, enquanto nós, ainda atônitos, tentamos apenas aprender a pronunciar o seu nome.
