Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

O outono da vida e novas escolhas

Fonte Freepik

Helena Fraga

Existem dois momentos da vida que me tocam com uma força quase física, visceral: o outono e a Quaresma. Ambos possuem uma mística própria, uma cadência que me dá a exata dimensão de como a existência humana, por mais acelerada que seja, precisa de pausas estratégicas. É urgente que possamos perceber, no silêncio dessas transições, o que ainda nos serve e o que, por direito do tempo, não é mais nosso. Muitas vezes insistimos em carregar pesos mortos, como um motor que tenta rodar com o óleo vencido, ignorando os sinais de alerta que a própria vida acende no nosso painel interno.

As gavetas cheias de roupas que você não usa há décadas — aquelas peças que guardam um corpo ou uma versão sua que já não existe — são profundamente similares às teias de aranha da nossa fé. Uma fé que, por vezes, se torna enferrujada e burocrática, perdendo a capacidade de abrir o coração para o novo. Por uma dessas coincidências ricas de significado — e já discutimos que as coincidências não passam de planos de Deus ainda não compreendidos — no hemisfério sul, a mudança da estação permeia exatamente os dias de Quaresma. É um sinal sorrateiro da natureza e do divino. Não é um processo simples ou indolor deixar as folhas caírem. Ver-se despido de crenças que antes eram certezas e abandonar caminhos trilhados por anos causa um estranhamento profundo. É o conforto da mesmice que, embora nos aprisione, nos dá uma falsa sensação de segurança.

Toda mudança, contudo, carrega um coeficiente de dor. Por mais que a maturidade nos ensine a aceitar o ciclo do amarelar e do secar das folhas, o ato de rever o passado custa caro. Amá-lo, reconhecer sua importância na construção de quem somos hoje, mas finalmente permitir que ele siga seu fluxo para fora de nós, exige uma coragem que nem sempre temos ao acordar. Surgem as noites insones, os olhares que se perdem no horizonte de uma oficina ou de uma sala de estar, e as ideias que parecem flutuar, como se já não nos pertencessem mais. Mas é justamente nesse vácuo que, concomitantemente, surgem milhões de novas perspectivas. São novas formas de enxergar o mundo, uma claridade que nos aponta um caminho inédito. No entanto, o medo do desconhecido e a procrastinação, essa vilã silenciosa, vão nos empurrando para o “depois”, e o dia da grande transformação parece nunca chegar.

Nessa hora, como católica praticante e alguém que mergulha no tempo da Quaresma com reverência, surge um lampejo divino que traz ainda mais densidade à reflexão. Os caminhos de Deus são, ao mesmo tempo, inexplicáveis e assustadoramente reais. O Espírito Santo e a força da oração constante vão, aos poucos, acalmando a alma inquieta. Eles nos empurram para um novo modo de ser, uma forma renovada de enxergar as possibilidades e um ânimo que muitas vezes acreditamos ter perdido no meio da estrada. É óbvio que o temor permanece; entregar-se ao que a vida nos pede ainda causa angústia e até uma ponta de descrença em nossa própria capacidade de reinvenção. Mas a chama interna está viva, pulsante, e ela sabe que a jornada não pode estacionar.

Minha existência hoje está exatamente nesse ponto de mutação. Há um lado meu que grita por uma mudança radical de rumo, de fala e de escrita. Do outro lado, há o eu amedrontado, inquieto com as dúvidas perenes que o outono da vida traz sem pedir licença. A poesia em mim é latente, uma companheira que nunca me abandona, nem mesmo quando as mãos estão sujas de graxa. Os negócios e os carros ocupam dois terços da minha trajetória de vida; metade dela foi forjada no fogo alto de ser uma mãe atípica, aprendendo uma linguagem que não está nos manuais. E a totalidade dessa caminhada é sustentada pela fé católica.

Quando me olho no espelho, vejo um mapa detalhado: rugas que são troféus, alegrias que foram combustíveis e decepções que serviram de aprendizado. Vejo intensidade, amor e a estrutura da família. Sinto a pele que, embora mais seca, ainda guarda o viço de quem se renova a cada desafio. As orações feitas ao pé da cama alimentam sonhos que eu mantinha escondidos até de mim mesma, e a ânsia por esse “novo” me transforma em um rio dourado de possibilidades infinitas.

Passo noites em claro em um diálogo interno constante: preciso juntar tudo o que amo. Não sou uma metamorfose neurótica, instável; sou única, uma construção sólida com caminhos escolhidos e resultados planejados com rigor técnico. Entendi que virar a chave é, sim, um modo de recomeçar, mas a mudança real só se concretiza se a estrada for outra. O combustível que me move é o mesmo, e o meu carro ainda apresenta uma excelente quilometragem, mas não seria o momento de trocá-lo também? Tudo o que é novo, por mais que cause estranheza inicial, tende a ser mais potente e eficiente.

Encontro os maiores exemplos disso dentro da minha própria casa. Um veículo muito usado acaba se tornando um objeto de apego, um símbolo da nossa falta de desejo de mudar. Se minha idade fosse menor, será que as decisões seriam tomadas com mais velocidade? Ou será que, no fundo, elas já estão acontecendo sob o capô e eu apenas não processei ainda? Quantas dúvidas e quanta pseudo falta de coragem nos paralisam por um único e fútil motivo: o que os outros vão pensar?

Será que o julgamento alheio tem algum poder real sobre as nossas escolhas fundamentais? Será que agora, neste outono sagrado, em plena Quaresma e com uma bagagem de vida que transborda, não chegou finalmente a hora de radicalizar? Trocar o veículo, substituir o combustível, buscar uma rodovia nunca explorada. Sentir a brisa quente do dia e o choque da névoa fria da noite no rosto, libertar o espírito das amarras do passado e confiar, definitiva e plenamente, nos desígnios de Deus.

Uma nova Páscoa se aproxima, chegando de mansinho para trazer luz a todas as metas que tracei, mesmo aquelas que parecem disformes ou sem sentido imediato. Afinal, a perfeição não habita na nossa humanidade limitada, entretanto, a esperança é eterna: sempre existe um novo e glorioso amanhecer a cada Ressurreição.

Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *