Os juros futuros encerraram o pregão desta sexta-feira (10) sem firmarem uma direção única nas duas extremidades da estrutura a termo da curva.
As taxas de curto prazo anotaram forte alta por conta dos números do IPCA de março, que surpreenderam até mesmo a parcela do mercado mais preocupada com os efeitos do choque do petróleo na inflação brasileira. Por outro lado, o ambiente favorável à busca por risco beneficiou ativos locais e repercutiu na ponta longa da curva, cujos juros futuros cederam.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 teve alta firme de 13,925%, do ajuste de ontem, para 14,06%; a do DI de janeiro de 2028 saltou de 13,39% a 13,54%; a do DI de janeiro de 2029 subiu de 13,30% para 13,38% e a do DI de janeiro de 2031 anotou queda de 13,475% a 13,42%.
Embora os resultados do IPCA tenham dado o tom do pregão de hoje na renda fixa doméstica, os vértices de mais longo prazo da curva a termo se beneficiaram de um ambiente bastante favorável a ativos brasileiros, algo que foi observado, principalmente, nos mercados de câmbio e ações. A taxa do contrato de DI de janeiro de 2033, por exemplo, teve forte queda de 13,60% a 13,49%, ao passo em que a do DI de janeiro de 2035 recuou de 13,625% a 13,475%.
O achatamento da estrutura a termo da curva de juros perdurou durante toda a sessão, mas, durante a tarde, o movimento se desenhava de forma mais negativa, com as taxas longas apagando a queda e as curtas acelerando a alta. Segundo participantes do mercado, alguns operadores adotaram estratégias mais defensivas antes das negociações entre Estados Unidos, Israel e Irã que devem ocorrer no fim de semana, a fim de se proteger depois de um forte alívio dos juros futuros nesta semana, quando as taxas chegaram a queimar cerca de 60 pontos-base (0,6 ponto percentual) de prêmios acrescidos desde o início da guerra no Oriente Médio.
Outro fator constante na dinâmica dos juros futuros, hoje, foi a forte pressão exercida pelo IPCA de março nas taxas de curto prazo, que chegaram a saltar 20 pontos-base (0,2 ponto percentual) no pior momento da sessão. O avanço de 0,88% do IPCA no mês passado não apenas superou com folga a mediana das estimativas coletadas pelo Valor Data de 0,76%, como também ficou acima do teto das projeções (0,82%).
Em relatório, o chefe de economia para Brasil e estratégia para América Latina do Bank of America (BofA), David Beker, avalia que o choque do petróleo deve gerar um impacto no IPCA não apenas no curto prazo, como também por meio de efeitos de segunda ordem mais amplos, em especial por meio de preços de alimentos, algo que já impactou os números de março.
“O principal meio de transporte de mercadorias no Brasil é o rodoviário. Portanto, preços mais altos do diesel geram um efeito cascata sobre os preços das mercadorias por meio de custos de frete mais elevados. A incerteza em torno do cronograma da guerra e da inflação subjacente pode não impedir o Banco Central de realizar novos cortes, mas, provavelmente, reforçará uma abordagem cautelosa. Por enquanto, continuamos a esperar um corte de 0,25 ponto percentual em abril. Prevemos a Selic em 13,25% até o final de 2026 e em 12,50% até o final de 2027”, diz o relatório do BofA.
Com o movimento de hoje, a curva a termo passou a embutir uma Selic de 13,50% no fim do ano, o que representaria um ciclo de cortes de apenas 1,5 ponto percentual, já contando a redução de 0,25 ponto do mês passado. Além disso, a manutenção do ritmo atual de cortes se consolida como o cenário-base para a reunião de abril do Copom: no mercado de opções, os investidores precificam uma probabilidade de 68% para que esta seja a decisão do colegiado, contra apenas 15% de chance de uma redução mais agressiva da Selic, de 0,5 ponto percentual. Há, ainda, 14% de chance de que o BC sequer corte os juros no próximo dia 29.
De acordo com participantes do mercado, o IPCA de março deve levar a revisões nas estimativas de economistas e, desta forma, afetar os números do relatório Focus do Banco Central já na próxima segunda-feira. O ASA, por exemplo, já revisou a sua estimativa nesta sexta-feira e, agora, espera um IPCA de 5,00% em 2026, ante 4,6% da projeção anterior.
“A combinação de um choque externo de custos com uma dinâmica interna de serviços ainda pressionada é o cenário menos favorável para a convergência da inflação à meta”, alerta o economista Leonardo Costa, do ASA.
No mercado, as medidas de inflação implícita ― obtidas por meio da diferença dos juros prefixados e dos juros reais das NTN-B -― voltaram a subir depois do alívio observado no restante da semana. A inflação implícita extraída da NTN-B com vencimento em maio de 2027, por exemplo, fechou em 5,52%, após encerrar o pregão da véspera em 5,42%.