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Ad Nihilum Reductio

Confesso ao leitor amigo que, em minha veterana ingenuidade, supunha que Pindorama já houvesse esgotado seu vasto repertório de assombros. Ledo engano de quem subestima a capacidade criativa dos nossos donos. Pois não é que hoje, lá nas distantes e etéreas plagas do Planalto dos Goyazes, a realidade tratou de me aplicar mais uma lição de cinismo?
Deu-se o passamento de mais uma daquelas comissões investigativas. Não por morte natural, fruto da exaustão dos fatos, mas por asfixia cronometrada. O Princeps Senatus daquela Wonderland do cerrado, com a frieza de um legista burocrata, não autorizou nem um segundo além do badalar final do relógio. A ordem era cessar tudo.
Do outro lado da rua – naquela calçada onde os mortais não pisam sem reverência –, no Olimpo dos Seres Supremos, contavam-se os grãos da ampulheta com indisfarçável ansiedade. O tormento daquela existência inquisitória precisava findar, afinal, a ousadia havia chegado ao ponto de roçar os mantos sagrados de alguns de seus inquilinos.
Durante o breve transcorrer daquele Quaestiones Perpetuae, o Olimpo não se fez de rogado: enviou raios, trovões e liminares para lembrar quem de fato manda no tabuleiro. Atravancaram, desautorizaram, complicaram. Por que facilitar o esclarecimento se a névoa é o habitat natural do nosso corporativismo?
Um romântico incurável talvez lembrasse que tais comissões, na teoria, teriam raízes no SPQR – Senatus Populusque Romanus. Mas em Wonderland, convenhamos, o “Populusque” (o povo) é apenas um detalhe decorativo na fachada. O rito real segue outra máxima, cravada na pedra dos acordos de bastidor: Sic scriptum est, sic actum est. Assim está combinado, assim será feito.
Mas eis que surge o imponderável. A proverbial mosca na sopa de letrinhas do poder. O então questor-relator, num surto de bravura cívica (ou de suprema inconsciência do perigo), ousou em seu texto final solicitar o indiciamento não de um, mas de três membros do Olimpo!
Que audácia inominável! Teria o nobre par sofrido um apagão da regra de ouro da boa vizinhança naquelas quadras? Refiro-me ao dogma sagrado, o pilar da nossa “harmonia institucional”: Nos eos non vexamus, et illi nos non vexant — nós (do lado de cá da rua) não os incomodamos, e eles (do lado de lá) não nos incomodam (demasiadamente).
A reação do sistema foi de uma agilidade taumatúrgica, digna de um Qui populo servit de manual. O Princeps Senatus operou um milagre da logística de plenário. Organizou-se uma “dança das cadeiras” de última hora, com a precisão de um balé Bolshoi, para garantir que, ao se contarem “democraticamente” os votos, o relatório indigesto fosse sepultado.
O resultado foi cirúrgico. Rejeitado o texto do relator, não houve tempo, vontade política ou decoro para apresentar uma peça alternativa. Fecharam-se as cortinas, apagaram-se as tochas.
Resta o epitáfio para a lápide fria na necrópole dos arquivos de Wonderland: “Jaz aqui uma investigação que ninguém queria que nascesse, que viveu de teimosia a contragosto dos poderosos, e morreu sem deixar herdeiros, resultado ou legado”. Um retumbante Tempus Perditum.
Assim, as excelências Alexander Moralius, Gelimarus Menendius e Didacus Tofolius viram o risco de seus indiciamentos retornar ao remanso do esquecimento. E o Princeps Senatus Davidus Alcolumbrius, com o sorriso de quem sabe manejar as sombras, garantiu a Concordia paxque inter potestates — a paz dos cemitérios morais entre as potências da República.
Ave Caesar! Os que vão morrer de tédio te saudamos.

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