O presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu entrevista coletiva na tarde desta quinta-feira, em Washington, logo após reunião bilateral seguida de almoço com o presidente americano, Donald Trump. O encontro foi classificado como muito produtivo e positivo por Lula e pelos ministros que o acompanharam na conversa.
Antes de responder às perguntas dos jornalistas na capital americana, Lula disse que a conversa não evitou assuntos complexos, pelo contrário, segundo ele, “eles resolveram discutir assuntos que pareciam tabus”. Entretanto, Pix e classificação de facções criminosas brasileiras como terrorismo não foram abordados.
“Fiz a reunião, estou feliz. Volto ao Brasil mais otimista. Acho que o presidente Trump também ficou otimista e espero que as coisas comecem a avançar”, disse.
Lula também ressaltou que o Brasil está aberto a construir parcerias internacionais com diferentes países, sem restrições geopolíticas, em referência a terras raras.
“A única coisa que ele (Trump) precisa saber é o seguinte: o Brasil está disposto a construir parcerias onde eles quiserem construir parceria. Não há veto aos Estados Unidos, como também não há veto à China, à França, à Índia ou à Alemanha”, afirmou o presidente.
O presidente brasileiro disse que ao contrário do que aconteceu no passado, com minerais como ouro e prata, por exemplo, desta vez o Brasil terá um comportamento diferente.
“Não queremos ser meros exportadores de minerais”, disse e completou: “queremos que o Brasil seja o grande ganhador”, em referência ao beneficiamento e refino de minerais críticos no Brasil.
Segundo o presidente Lula, durante a conversa ele falou a Trump sobre a importância dos Estados Unidos voltarem a “ter interesse nas coisas do Brasil”. De acordo com Lula, ele falou a Trump que tanto Estados Unidos como a União Europeia deixaram de perceber a importância da América Latina, citando como exemplo a falta de interesse de empresas dos EUA em licitações de obras públicas no Brasil. No entanto, nesse contexto global conturbado, o brasileiro defendeu os acordos comerciais fechados recentemente pelo Brasil. Na avaliação dele, acordos multilaterais são um antídoto às políticas unilaterais colocadas em práticas pelo governo de Trump, como as taxações.
Em relação às tarifas, o presidente Lula disse que reforçaram o caráter superavitário dos EUA na balança comercial com o Brasil. Além disso, buscaram esclarecer que a média de tarifas do Brasil é de 2,7% para os produtos dos EUA, embora o representante de comércio americano, Jameson Greer tenha apontando percentuais maiores. Diante disso, ficou acertado que as equipes dos governo Lula e Trump irão trabalhar por mais 30 dias para avançar nas negociações sobre tarifas sobre produtos brasileiros que entram nos EUA.
Em relação às facções criminosas brasileiras, Lula disse que o tema não foi discutido no encontro. No entanto, o presidente brasileiro disse que o combate ao crime organizado foi debatido e destacou que o Brasil tem expertise no assunto e sugeriu que essa seja uma ação conjunta entre diversas nações não cabendo a um ou outro país fazer isso isoladamente.
“Muitas vezes os Estados Unidos falavam em combater o crime organizado e a questão das drogas tentando ter base militar dentro dos outros países. Quando, na verdade, para você fazer com que os outros países deixem de plantar ou fabricar aquilo que a gente chama de droga, é preciso que a gente crie alternativa econômica para esses países. Como você vai fazer um país deixar de produzir “coca” se você não oferece uma alternativa de algum produto para que alguém possa plantar e ganhar dinheiro? Nós temos que incentivar o plantio de outras coisas e ser um dos compradores para que as pessoas possam sobreviver”, disse o presidente brasileiro, que completou: “Eu disse para ele (Trump) que nós (Brasil) estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América do Sul, com todos os países da América Latina e, quiçá, com todos os países do mundo para criar um grupo forte de combate ao crime organizado. Não é a hegemonia de um país ou de outro querer combater o crime organizado. É uma coisa que tem que ser compartilhada com todos e o Brasil tem expertise”.
O assunto também foi abordado pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que destacou ações de cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado e defendeu a ampliação de ações conjuntas entre os países para melhorar os resultado obtido até o momento. Segundo ele, na área aduaneira, a troca de dados entre maio de 2025 e abril de 2026 resultou na apreensão de meia tonelada de armas e uma tonelada de drogas sintéticas provenientes dos EUA.
Lula disse ainda que fez questão de entregar por escrito, em inglês, todos os temas tratados durante o encontro, para garantir o entendimento.
De acordo com Lula, não houve discussão sobre Pix com o presidente Trump, meio de pagamento que está sob investigação pelo governo americano sob suposto prejuízo competitivo às empresas americanas, como operadoras de cartão de crédito.
“Ele não tocou no assunto do Pix, eu também não toquei. Até porque eu espero que um dia ele venha a fazer um Pix, até porque muitas empresas americanas já fazem”, disse Lula.
Sobre eventual intervenção do presidente americano nas eleições brasileiras, Lula disse acreditar que Trump irá se “comportar como presidente dos Estados Unidos, deixando que os brasileiros decidam”. E reforçou que ele, como presidente do Brasil, respeita Trump por ele ter sido eleito pelo povo dos Estados Unidos. O presidente disse ainda que os apoios eleitorais no Brasil não entram na pauta de suas conversas com nenhum presidente.
Sobre a guerra do Irã, Lula manteve seu tom crítico e disse acreditar no diálogo. O presidente do Brasil contou ter entregue uma cópia do acordo assinado pelo Irã em 2010, articulado por Brasil e Turquia à época, como uma demonstração ao presidente dos Estados Unidos que há possibilidade de resoluções com diálogo. Segundo Lula, Trump prometeu ler hoje à noite. Lula disse ainda que os custos das guerras são altos e que a diplomacia é o caminho.
“Nós não precisamos de guerra, o mundo precisa de paz”, disse.
Pelas imagens e pelos relatos de ministro do Brasil presentes ao encontro, foi uma conversa de fato produtiva e amigável. O presidente Lula reiterou diversas vezes a crescente aproximação com o presidente dos Estados Unidos e disse acreditar que Trump de fato parece “gostar” do Brasil. Em referência às imagens, Lula disse que estimulou Trump a sorrir e completou “O presidente Trump rindo é melhor que de cara feia”. O presidente disse ainda que o almoço foi muito agradável.
Em ano de Copa do Mundo sediada por Estados Unidos, México e Canadá, Lula disse que brincou com Trump dizendo a ele para não cancelar vistos de jogadores da Seleção Brasileira de Futebol.
Pelo lado dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump publicou em suas redes classificou as reunião como “muito boa” e não descartou novos encontro com o presidente Lula, a quem se referiu como “alguém muito dinâmico”.
Essa foi a sexta visita de Lula à Casa Branca desde que foi eleito pela primeira vez em 2002 e esse foi o terceiro encontro pessoal entre Lula e Trump. O presidente Lula retorna ao Brasil ainda nesta quinta-feira.