Se por um lado o Brasil se tornou referência em termos de inclusão financeira, com 97% da população bancarizada, por outro mais da metade dos adultos está endividada, e 30% da renda das pessoas está comprometida com o crédito, segundo o Relatório de Cidadania Financeira do Banco Central (BC). Com base nesses dados, o Sicredi organizou o Fórum de Bem-Estar Financeiro, reunindo especialistas para ampliar o debate sobre o tema no país.
A iniciativa integra a Semana Nacional de Educação Financeira (Semana ENEF), realizada anualmente, e reforça o papel da instituição como protagonista na conscientização sobre a importância da educação econômica como caminho para a construção de uma relação mais equilibrada com as finanças pessoais.
— A inspiração para a realização do fórum veio do movimento cooperativo, que tem o propósito de impactar positivamente a comunidade. Acreditamos que grandes desafios são solucionados pela mobilização coletiva — afirmou Manfred Alfonso Dasenbrock, presidente da Central Sicredi PR/SP/RJ, na abertura do evento.
A proposta de transformar o bem-estar financeiro em uma pauta coletiva também foi destacada pelo diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi, César Gioda Bochi.
— Também sou do berço do cooperativismo, que tem como propósito fazer o melhor para o associado. Precisamos colocar o tema na mesa da sociedade, não só colaborando, mas instigando a reflexão e a busca por soluções conjuntas. É emblemático estarmos reunidos aqui, na Faria Lima, no centro financeiro do Brasil, para trazer luz a um problema que não é simples e cuja resolução também não será.
Para ele, o processo de inclusão deve ser, sim, comemorado, entretanto, o grande desafio é a qualidade do uso do crédito. Para contextualizar o cenário econômico atual, Luis Mansur, chefe do Departamento de Promoção da Cidadania Financeira do Banco Central do Brasil, apresentou números que evidenciam a dimensão do problema: hoje, 175 milhões de adultos possuem conta bancária, 130 milhões têm acesso ao crédito e 77% das famílias convivem com dívidas.
— Quando a população se endivida, a economia se torna mais vulnerável — afirmou.
Na ocasião, Mansur também lembrou da importância mundial que o tema bem-estar financeiro ganhou, após o Brasil levá-lo para o debate no âmbito do G20, principal fórum de cooperação econômica internacional, durante a presidência brasileira em 2024.
— Precisamos sair da discussão de como as pessoas usam serviços financeiros para como esses serviços mudam as suas vidas — disse.
EQUILÍBRIO E QUALIDADE DE VIDA
De acordo com o Sicredi, o bem-estar financeiro está relacionado à capacidade do cidadão de cumprir seus compromissos com o orçamento no presente, sentir segurança em relação ao futuro e ter autonomia para fazer escolhas que contribuam para a qualidade de vida.
Para os especialistas, o letramento é a ponte para alcançar esse equilíbrio.
— Educação financeira é a ferramenta que faz com que o dinheiro possa realizar uma verdadeira transformação social. E ela precisa ser feita a muitas mãos e muitas mentes — defendeu Dirlene Silva, CEO da DS Estratégias de Educação & Inteligência Financeira.
O cenário nacional, porém, vai na contramão dessa premissa. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) revelam que apenas 21% da população já participou de algum curso sobre educação financeira, 37% têm alguma reserva e 67,2% se sentem inseguras em relação ao futuro.
Para Dirlene, ainda existe um tabu em torno das conversas sobre dinheiro que precisa ser quebrado, e a informação é o caminho para isso.
— Quando aprendi economia na universidade, só se falava da questão racional, não se olhava o aspecto comportamental. Mas hoje atuo como uma economista de pessoas e está cada vez mais claro que a economia não é exata, é uma ciência social — lembrou.
A discussão também passa pelo desafio de encontrar medidas para assegurar o endividamento sustentável, capaz de viabilizar conquistas patrimoniais com planejamento e equilíbrio, como apontou Izabela Correa, diretora de Cidadania e Supervisão de Conduta do BC.
— Queremos construir uma relação saudável com o dinheiro, por isso, as alternativas de crédito devem ser adequadas às realidades individuais, com estratégias que dialoguem com o momento de vida de cada pessoa — explicou.
PANORAMA NACIONAL
| 175 milhões de adultos possuem conta bancária |
| 130 milhões têm acesso ao crédito |
| 77% das famílias convivem com dívidas |
Na avaliação de Isaac Sidney, presidente executivo da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o enfrentamento do problema exige um diagnóstico preciso para entender as principais causas do endividamento no país.
— A ideia não é um apontar de dedos, mas a realização de uma abordagem coordenada e responsável — afirmou.
Segundo ele, atualmente, o endividamento saudável responde por 80,4% do estoque de dívida das famílias, ao passo que 17% do crédito tem sido usado para consumo recorrente, comprometendo a renda.
Ainda, segundo o executivo, é importante avaliar se o crédito deixou de ser um instrumento de antecipação de despesas e virou um mecanismo de sobrevivência financeira.
— O foco está no estoque de endividamento problemático que corrói o orçamento e reduz a qualidade de vida. A ampliação da oferta é importante, porém de forma responsável — ponderou.
Uma das iniciativas que ajudam nessa caminhada é o Índice de Saúde Financeira do Brasileiro (I-SFB), desenhado pela Febraban em parceria com o Banco Central.
— Precisávamos de um termômetro, uma ferramenta simples que pudesse auxiliar o consumidor a obter o seu autodiagnóstico, afinal, não se gerencia aquilo que não se mede. O indicador oferece uma fotografia da saúde financeira individual e auxilia na escolha de estratégias — contou Amaury Oliva, diretor-executivo de Sustentabilidade, Cidadania Financeira, Relações com o Consumidor e Autorregulação da Febraban.
Ele também destacou a relevância do indicador para gerar insights às instituições e apoiar o desenvolvimento de produtos e soluções mais alinhados às necessidades dos clientes.
DINHEIRO COMPRA FELICIDADE?
Encerrando o fórum, Michael Norton, professor de administração de empresas na Harvard Business School, trouxe uma reflexão sobre a relação entre consumo e qualidade de vida. Em tom descontraído, brincou que, se o dinheiro não traz felicidade, você não o está gastando da maneira certa.
Durante a sua apresentação, o pesquisador compartilhou estudos e casos de ganhadores de loteria que, apesar do enriquecimento repentino, passaram a enfrentar tristeza e frustração após perderem vínculos afetivos, amizades e a convivência comunitária ao mudar de estilo de vida.
Para Norton, a forma como os recursos são utilizados e as escolhas de consumo têm impacto direto no bem-estar e nas relações sociais.