A manhã desta segunda-feira, 8 de junho, vai ser diferente para os mais de 8,4 milhões de clientes que acessam o site da Amazon diariamente. Aqueles que buscarem por televisão, geladeira ou tênis de corrida vão se deparar com produtos vendidos pelo Magalu – e entregues pela Magalog, a transportadora do grupo.
O acordo entre a rede varejista liderada por Frederico Trajano e a plataforma americana faz parte do novo ciclo estratégico do Magalu, que teve início neste ano e vai até 2031, e prevê acelerar a venda no e-commerce de bens duráveis por meio de novos canais.
“Hoje em dia o Brasil é um mercado no qual não existe uma plataforma dominante. Você tem várias com audiências significativas”, diz Trajano ao NeoFeed.
“O Brasil está se parecendo um pouco com a China, onde você tem TikTok Shop, AliExpress, Pinduoduo. Para nós, a ideia era começar a listar em outras plataformas também”, complementa o CEO do Magazine Luiza.
A união entre as duas marcas dá a dimensão do peso dessas gigantes no varejo nacional. De acordo com o BTG Pactual, a Amazon representa cerca de 20% do market share do e-commerce brasileiro — empatada com o próprio Magalu quando se exclui as plataformas asiáticas do cálculo.
Em 12 meses, o Magazine Luiza entrega um total geral de vendas em sua plataforma de, aproximadamente, R$ 63 bilhões, o que reforça o tamanho do seu estoque para operar fora de casa.
O movimento do Magalu reforça a tendência de redes varejistas tradicionais plugarem seus negócios em marketplaces. Em outubro de 2025, o Grupo Casas Bahia anunciou uma parceria com o Mercado Livre, disponibilizando eletrodomésticos, eletrônicos e móveis na plataforma.
No balanço do quarto trimestre de 2025, as vendas em marketplaces de terceiros respondiam por 45,5% do total do grupo. Em março deste ano, a rede liderada por Renato Franklin anunciou também a entrada na Amazon.
Esse acordo entre Amazon e Magalu leva em consideração a reciprocidade – uma palavra muito importante e que Trajano reforça que vai além da simples relação de seller e marketplace em parcerias desse tipo.
No caso da Amazon, a contrapartida mais imediata é logística. “Tudo que eu vender na Amazon, vou entregar com a minha logística. Ela tem uma audiência que eu não tenho, e eu tenho uma audiência que ela não tem”, diz Trajano.
Em um segundo momento, previsto para uma fase mais adiante do acordo, a Magalog passará a fazer entregas para a Amazon como um todo.
Trajano estima que cerca de três quartos das vendas que o Magalu fará na Amazon virão de consumidores que não visitam o ecossistema do grupo. Isso dá a indicação de que a rede varejista terá uma expansão de alcance, sem canibalização.
Há ainda outros itens no memorando de entendimento (MoU) que não podem ser tornados públicos neste momento.
A Magalog, aliás, está em franca expansão como negócio independente. Na call de resultados do primeiro trimestre deste ano, Trajano revelou que a receita da transportadora com clientes externos cresceu 30% em relação ao ano anterior.
Com os Correios em dificuldades, o Magalu vê uma janela para se tornar referência em logística de alto nível para terceiros. E com custo de entrega 60% a 70% mais barato do que alternativas do mercado.
Sem exclusividade
A Amazon é o movimento mais recente de uma sequência do Magalu que já incluiu AliExpress, Livelo e Itaú Shop. Só o marketplace do Itaú, diz Trajano, já se tornou um “negócio de bilhão por ano” – um dado que dimensiona o potencial do que vem pela frente com uma plataforma como a Amazon no Brasil.
Trajano reforça que não existe exclusividade com a Amazon nem com nenhum outro parceiro. Outros acordos semelhantes devem ser fechados daqui para a frente. “O foco é ampliar a dominância nas categorias em que somos líderes”, afirma o CEO.
A estratégia de listar o estoque 1P em plataformas parceiras é uma alavanca de crescimento de curtíssimo prazo – especialmente relevante em um momento em que o e-commerce próprio do Magalu enfrenta ventos contrários.
No primeiro trimestre de 2026, as vendas no canal digital caíram 11% e o marketplace recuou 14,3%, enquanto as lojas físicas cresceram 7%. O grupo optou conscientemente por não entrar na guerra de preços e frete grátis travada por concorrentes.
A estratégia do Magalu com parceiros externos é conseguir vender mais, em canais onde a margem de contribuição seja positiva, sem entrar em leilão de subsídios.
“Estamos conversando com outras plataformas para listar nosso 1P. Acreditamos que isso vai dar um ganho já de curtíssimo prazo. Fizemos análises profundas e robustas e entendemos que teremos grandes oportunidades ao listar nessas plataformas com bastante inteligência de pricing, mix e catálogo”, disse Trajano aos analistas do Morgan Stanley na call de resultados.
Canal próprio
Ao mesmo tempo em que distribui seu estoque para marketplaces generalistas, o Magalu está reposicionando seu próprio canal – uma parte do ciclo estratégico que o mercado ainda não viu com clareza.
O app e o site do Magalu vão migrar para um modelo chamado de “brand place”. Trajano explica que são menos produtos, mais curadoria, foco em marcas com as quais o grupo tem vantagem competitiva, tíquetes mais altos e promessa de experiência superior.
“O consumidor não confia em comprar alguns produtos em alguns sites de concorrentes por não ser a vocação deles, mas é a nossa”, disse o CEO.
Há, também, uma outra camada nesse reposicionamento: a inteligência artificial. O canal próprio é o laboratório da AI-commerce. Essa jornada de compra baseada em diálogo com o agentic commerce já traz resultados para o negócio.
O WhatsApp da Lu, lançado em dezembro de 2025 em parceria com a Meta, teve mais de 9 milhões de conversas geradas, conversão três vezes maior do que a do aplicativo tradicional, NPS de 85 e recorde de pedidos em abril.
“Vendemos quase 5.000 álbuns de figurinhas da Copa, 1.800 packs de cerveja, 1.500 fraldas e 1.100 panelas de pressão numa experiência totalmente agêntica, end to end, no WhatsApp”, detalhou Trajano na call. “Nenhum concorrente tem nada parecido, nem no Brasil e nem no mundo.”
Esse início do novo ciclo estratégico acontece em um momento desafiador para o grupo. No primeiro trimestre de 2026, o Magalu registrou prejuízo líquido ajustado de R$ 34 milhões, revertendo o lucro de R$ 11,2 milhões do mesmo período do ano anterior.
As despesas financeiras cresceram 16,5% na comparação anual, pressionadas pela taxa Selic. As ações MGLU3 recuaram mais de 8% após o resultado. Ainda assim, o grupo manteve a margem Ebitda em 7,8% – uma das maiores para um primeiro trimestre em sua história da companhia.
“Esse talvez seja o último trimestre em que temos uma comparação ainda desfavorável em relação ao CDI”, afirmou o CEO.
Com 1.245 lojas em praticamente todos os estados brasileiros, estoque capilarizado nacionalmente e marcas líderes em categorias como bens duráveis (Magazine Luiza), running e esporte (Netshoes), beleza (Época Cosméticos) e games (Kabum), o Magalu tem profundidade de catálogo e logística própria para operar fora de casa com eficiência.
“Somos o maior seller do Brasil em linha branca, linha marrom, móveis, esporte, games e beleza. E quer expandir essa liderança para onde quer que o consumidor esteja comprando”, disse Trajano.
A Amazon é a aposta mais nova dessa expansão. E o CEO do Magalu deixou claro que não será a última.