Quando o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, anunciou nesta semana o acordo provisório para encerrar a guerra com os Estados Unidos, ele declarou que seu país havia saído vitorioso. Para muitos iranianos, porém, não parece ser esse o sentimento.
Mais de três meses de ataques aéreos dos EUA e de Israel, além de um bloqueio aos portos iranianos, trouxeram novo sofrimento a uma população que já enfrentava anos de sanções econômicas.
Embora a guerra tenha terminado — ao menos por enquanto — os iranianos continuam controlando cuidadosamente seus gastos. Poucos dos apoiadores e opositores da República Islâmica ouvidos pela Reuters nesta semana disseram acreditar que tempos melhores estejam próximos.
Alguns acreditam que a insatisfação econômica possa desencadear novas ondas de protestos contra o governo. Outros esperam uma nova repressão semelhante à violenta resposta estatal durante a última onda de manifestações em massa, ocorrida em janeiro.
E, como qualquer acordo mais duradouro foi adiado para futuras negociações, há pouca certeza de que o entendimento destinado a encerrar a guerra sobreviverá ao verão.
“Eu acho que 99% das pessoas estão apenas tentando sobreviver, vivendo um dia de cada vez. Não acredito que alguém ainda tenha esperança. Não acho que ninguém consiga sequer imaginar como será o futuro”, disse Amir, de 34 anos, proprietário de uma empresa de produção de mídia em Isfahan, no centro do Irã.
A Reuters entrou em contato com iranianos por aplicativos de mensagens para que pudessem falar livremente, mas Amir e outros entrevistados não quiseram ser totalmente identificados por medo de represálias das autoridades. Alguns dos entrevistados em vídeo, em Teerã, concordaram em divulgar seus nomes completos.
“Dia após dia, a situação das pessoas e dos seus meios de subsistência piorou em vez de melhorar. Pergunte a qualquer um: quem diria que está satisfeito?”, afirmou Mehdi Sabahi, falando diante de um enorme retrato em homenagem ao falecido líder supremo do Irã, Ali Khamenei, morto no primeiro dia da guerra.
Essa visão pessimista não é compartilhada pelos apoiadores mais radicais do sistema político da República Islâmica, que retratam a guerra como uma vitória e a nação iraniana como desafiadora e unida, embora alguns deles afirmem que o Irã deveria ter exigido condições melhores.
“Não é que a gente esteja muito feliz com este documento que conseguimos. Nosso povo quer mais do que isso, e devemos reconhecer que estamos diante dessa opinião pública”, disse Saeed Ajorlou, diretor-geral do jornal diário Sobh-e No. “Não pensem que nosso povo está cansado ou que nossa postura seja de fadiga e rendição. Não. Nossa postura é de vitória”, acrescentou.
Um proprietário de café em Teerã, que afirmou não ser nem apoiador nem opositor do sistema teocrático iraniano, disse acreditar que tanto Israel quanto o presidente dos EUA, Donald Trump, desejariam bombardear o Irã novamente.
“Esse acordo que está sendo finalizado não me parece muito interessante. Não parece que vá durar muito tempo”, afirmou por aplicativo de mensagens.
Como a maioria das pessoas entrevistadas pela Reuters, ele sentiu intensamente a queda do padrão de vida e descreveu a redução dos gastos usando uma expressão persa cada vez mais comum: “Aprendemos a diminuir o tamanho da nossa mesa.”
“Tudo piorou e ficou exponencialmente mais caro”, disse uma estudante de 25 anos em Teerã, acrescentando que ela e seus amigos já não conseguem sequer pagar encontros em cafés.
Temores de nova repressão
A ansiedade em relação a uma nova repressão governamental é particularmente intensa nas regiões habitadas por minorias étnicas do Irã, onde a supressão de protestos anteriores frequentemente resultou no maior número de mortes.
Três homens que vivem no Curdistão iraniano, no oeste do país, disseram que a guerra não apenas os deixou mais pobres, mas também trouxe maior repressão e insegurança. “Deixar o regime neste estado aumenta o poder das instituições repressivas”, afirmou um dos homens, de 40 anos.
Ele acredita que os massacres ocorridos em janeiro devem desestimular novos protestos por algum tempo, mas que as dificuldades econômicas logo provocarão novas manifestações.
As discussões no início da guerra sobre uma possível tentativa dos EUA de incentivar uma revolta armada curda contra a República Islâmica agravaram ainda mais a situação na região, segundo outro entrevistado, um estudante de 25 anos.
“A guerra não fez nada além de criar mais problemas para os curdos”, disse ele. Pessoas que vivem fora das regiões de minorias étnicas também afirmaram que o conflito pode prejudicar as perspectivas de maior liberdade política.
Desde o início da guerra, a elite governante do Irã tem procurado dominar os espaços públicos, mobilizando apoiadores para realizar manifestações e cerimônias em homenagem aos líderes mortos.
Amir, o empresário de Isfahan, disse que essa presença constante serve como um lembrete de como o Estado interfere na vida cotidiana. “A República Islâmica não vai desaparecer tão cedo. Se antes eles já estavam enraizados, agora estão dez vezes mais. Qualquer esperança de reforma ou de mudança praticamente foi pela janela”, afirmou.