Primeiro vieram as fábricas, depois a comida e, por fim, as músicas pop tomaram conta. O entusiasmo pela Coreia do Sul no México vem sendo construído há anos e se transformou em um fenômeno de massa, que já levou a presidente Claudia Sheinbaum a dividir uma sacada com os astros do K-pop do BTS e fez com que torcedores visitantes da Copa do Mundo fossem recebidos com o coro: “Coreano, meu irmão, agora você é mexicano”.
Mas essa relação que tem florescido será colocada à prova em Guadalajara nesta quinta-feira, quando os dois países se enfrentarem em uma partida da fase de grupos.
“Coreanos e mexicanos são como irmãos e irmãs”, disse Annie, uma sul-coreana que veio da Califórnia para Guadalajara para assistir ao jogo.
O vínculo entre Coreia do Sul e México é um dos mais peculiares fenômenos de afinidade geocultural do mundo. Embora os dois países sejam separados pela língua, por 12 mil quilômetros e por um fuso horário de 15 horas, a influência sul-coreana ainda assim se enraizou por aqui.
“O K-pop é a porta de entrada, mas o resultado final é que muitos jovens acabam se interessando pela língua, pela educação e pela cultura”, disse Erika Garza, diretora de Estudos Asiáticos da Universidade Autônoma de Nuevo León.
Em nenhum lugar essa influência é mais evidente do que em Monterrey, potência industrial mexicana, onde a chegada da Kia e de outras grandes empresas sul-coreanas na última década trouxe um fluxo de milhares de sul-coreanos.
A estudante Yoona Jwa, de 19 anos, fez parte dessa onda quando sua família se mudou da Coreia do Sul para Monterrey por causa do trabalho de seu pai, quando ela tinha 8 anos. Sem falar o idioma nem conhecer a cultura mexicana, descobriu que uma das poucas coisas que inicialmente a ajudaram a se integrar foi jogar futebol.
Mas, mais recentemente, são os amigos mexicanos que estão aprendendo sobre sua cultura, e não o contrário.
“Uma vez eu estava dirigindo com meus amigos e eles estavam cantando uma música que eu não reconheci. Então percebi: eles estavam cantando em coreano!”, contou.
Sinais desse fenômeno cultural sul-coreano estão espalhados pelo centro de Monterrey, onde lojistas vendem recortes em tamanho real da boy band sul-coreana Stray Kids e almofadas com os rostos dos integrantes do BTS.
Do lado de fora de uma loja de K-pop, o mexicano Christopher Elizondo, de 18 anos, disse ter se tornado tão fã do ritmo e das coreografias da música sul-coreana que nem sabe mais para quem torcerá na partida desta quinta-feira pela Copa do Mundo.
Ele planeja assistir ao jogo em casa, onde o restante da família estará torcendo pelo México.
“Vai ser um pouco desconfortável”, disse.
Aliança também dentro de campo
Os destinos de México e Coreia do Sul em Copas do Mundo já se cruzaram antes. Em 2018, os dois países também dividiram um grupo. O México parecia caminhar para a eliminação após perder por 3 a 0 para a Suécia, mas foi salvo por uma vitória dramática da Coreia do Sul sobre a Alemanha nos minutos finais, resultado que classificou o El Tri para a fase eliminatória.
Torcedores eufóricos se reuniram em frente à embaixada sul-coreana na Cidade do México, onde o cônsul, vestindo uma camisa da seleção mexicana, saiu para cumprimentar a multidão. A cervejaria Cuauhtémoc Moctezuma, sediada em Monterrey, enviou um caminhão carregado de cerveja para a fábrica local da Kia em comemoração.
Desta vez, México e Coreia do Sul ocupam, respectivamente, a primeira e a segunda colocação do grupo, ambos com três pontos, antes da partida desta quinta-feira. O México espera que a torcida da casa jogue a seu favor, mesmo que haja muitos fãs de K-pop nas arquibancadas.
Yoona Jwa disse que, desde o início da Copa do Mundo, vem recebendo ainda mais carinho dos mexicanos, apesar de as duas seleções estarem prestes a se enfrentar. Durante a primeira partida em Monterrey, no domingo, ela foi erguida no ar na Fanfest; no começo desta semana, uma mulher deu tostadas gratuitamente à sua família em um mercado e desejou boa sorte para o jogo desta quinta-feira.
Mas o espírito competitivo está aumentando.
Na quarta-feira, em um restaurante coreano nos arredores de Monterrey, Kevin Kim, um sul-coreano radicado no Texas, almoçava com seu sócio mexicano, Humberto Osuna. Os dois trabalham no setor de tecnologia e eletrônicos e fazem negócios juntos há anos, disseram.
“Somos bons amigos”, afirmou Osuna.
Mas isso pode mudar depois do apito inicial, acrescentou.
“Depois disso, seremos inimigos.”
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