O Irã advertiu que sua campanha para restringir os mercados globais de energia poderá ser ampliada do Estreito de Ormuz para a estratégica rota do Mar Vermelho caso os ataques americanos continuem — uma ameaça que depende de seus aliados houthis no Iêmen.
Com o Estreito de Ormuz já comprometido pela guerra, o Mar Vermelho tornou-se uma alternativa crucial para as exportações de petróleo e outros produtos do Golfo. Uma interrupção significativa no estreito de Bab el-Mandeb aumentaria o risco de as duas principais rotas de exportação de petróleo da região serem bloqueadas simultaneamente, pressionando os preços globais da commodity.
O bloqueio parcial de Ormuz imposto pelo Irã após os ataques de Israel e dos Estados Unidos em 28 de fevereiro interrompeu a maior parte das exportações de petróleo e de outros produtos do Golfo, elevando os preços e provocando um choque energético global.
Em resposta, a Arábia Saudita desviou mais de 70% de suas exportações diárias habituais de petróleo bruto para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho.
Segundo dados da Kpler e da Signal Ocean, os embarques a partir de Yanbu atingiram média de 4 milhões de barris por dia nas últimas semanas, ante cerca de 973 mil barris diários no mesmo período do ano passado.
O volume total de derivados e petróleo que transitou por Bab el-Mandeb chegou a 7,4 milhões de barris por dia em junho, o equivalente a cerca de 7% da produção mundial de petróleo, segundo a Kpler. No mesmo mês do ano passado, esse volume era de 4,2 milhões de barris diários.
Essa rota tem sido uma tábua de salvação para o mercado de energia, ajudando a conter os preços globais do petróleo. Na semana passada, a Reuters informou que a Arábia Saudita avalia ampliar seu oleoduto até a costa do Mar Vermelho. Qualquer interrupção prolongada provocada pelos houthis na navegação pelo Mar Vermelho, incluindo possíveis ataques a navios ou portos, representaria um problema significativo.
Após o ataque do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 e a ofensiva militar israelense em Gaza, o grupo passou a atacar Israel e embarcações no Mar Vermelho, alegando agir em apoio aos palestinos.
As ofensivas provocaram forte interrupção no transporte marítimo global, levando empresas como Maersk e Hapag-Lloyd a desviar seus navios pela rota mais longa e mais cara ao redor da África.
Uma missão liderada pelos Estados Unidos para restabelecer a liberdade de navegação no Mar Vermelho realizou repetidos ataques contra alvos houthis e uma campanha defensiva que interceptou centenas de drones e mísseis.
Mesmo assim, alguns ataques do grupo continuaram até o verão do ano passado e só cessaram completamente após o cessar-fogo em Gaza, em outubro.
No mês passado, os houthis anunciaram que proibiriam navios ligados a Israel de navegar pelo Mar Vermelho depois que Israel retomou ataques militares contra o Irã. A ameaça, porém, não foi colocada em prática, e Maersk e Hapag-Lloyd voltaram a utilizar parte das rotas pelo Mar Vermelho que haviam abandonado durante os ataques do grupo, informou a Maersk na semana passada.
Enquanto o Hezbollah e as milícias xiitas iraquianas aderiram rapidamente ao conflito com foguetes e drones após os primeiros ataques de Estados Unidos e Israel contra o Irã, os houthis mantiveram uma postura relativamente discreta.
O líder do grupo, Abdul Malik al-Houthi, declarou em 5 de março: “Nossos dedos estão no gatilho a qualquer momento, caso os acontecimentos assim exijam.”
Comandantes iranianos têm repetidamente advertido que os houthis podem entrar na guerra. Em 1º de junho, o comandante da Força Quds da Guarda Revolucionária, Esmaeil Qaani, afirmou que o grupo poderia estrangular a navegação no Mar Vermelho.
Apesar disso, os houthis limitaram suas ações a alguns ataques com mísseis e drones contra Israel no fim de março e início de abril.
Analistas avaliam que o grupo pode ter preferido preservar a ameaça de fechar o Mar Vermelho como instrumento para uma escalada futura ou, simplesmente, evitado entrar na guerra para não encerrar a longa trégua que mantinha com a Arábia Saudita.