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Resiliência e liderança multicultural: reflexões sobre a gestão de conflitos na MUST University

Liderança multicultural e gestão de conflitos na MUST University, representadas por uma equipe diversa reunida em ambiente acadêmico internacional.

Liderar uma universidade multicultural me ensinou coisas que não estão só nos livros de administração ou liderança. Ao lidar com pessoas de vários países, idiomas, gerações e trajetórias, vejo que algo óbvio para alguns pode não ser para outros.

Por Giulianna Carbonari

Na MUST University, uma instituição americana que atua em vários países e oferece programas de mestrado e doutorado em português ou espanhol, isso faz parte da rotina. O contato com diferentes culturas traz benefícios, mas pede cuidado, paciência e disposição para entender o outro.

Tenho pensado em como os conflitos aparecem nas organizações e em como nós, líderes, lidamos com eles. Discordar nem sempre significa que alguém não está comprometido. Muitas vezes, o problema vem da comunicação, de expectativas que não ficaram claras ou de interpretações diferentes sobre uma decisão.

Essas reflexões me levaram a conectar a resiliência à liderança multicultural. Entendo que ser resiliente não é suportar tudo, evitar conflitos ou concordar sempre. É desenvolver equilíbrio emocional e profissional para enfrentar situações difíceis sem perder a capacidade de ouvir, analisar e decidir. (meu grande desafio diário!) Neste artigo, trago reflexões sobre a diversidade cultural na e experiência de liderar uma instituição internacional, considerando os desafios que surgem quando diferentes formas de pensar (e se comunicar) precisam conviver em uma mesma organização.

Resiliência e conflitos nas relações profissionais

A palavra resiliência costuma se referir à capacidade de superar dificuldades. Quando pensamos nas relações humanas, principalmente no trabalho, acho que esse termo ganha um sentido mais amplo.

Bordone e Salinas (2025), no livro Resiliência em tempos de conflito, falam sobre como é importante aprender a lidar com desacordos com persistência e equilíbrio. Isso mostra que os conflitos não precisam sempre acabar com as relações. A forma como lidamos com eles pode mudar as decisões e a confiança entre as pessoas.

Vejo essa reflexão como algo importante para quem está à frente de uma equipe. Quando surge uma discordância, costumamos querer resolver logo. Só que agir rápido nem sempre é a melhor escolha.

Também acho importante diferenciar resiliência de permissividade. Um líder não pode deixar de aplicar políticas ou cobrar responsabilidades só para evitar situações desconfortáveis. Algumas decisões precisam ser tomadas mesmo que causem insatisfação.

Na minha experiência, vejo que a maneira de comunicar uma decisão pode influenciar tanto quanto a própria decisão. Uma orientação adequada, se não for clara ou não levar em conta o contexto, pode causar resistência e sensação de injustiça.

Isso não quer dizer que todas as reações sejam justificáveis. Isso só mostra que as relações humanas são mais complexas do que pensamos.

Multiculturalidade e gestão de conflitos

Quando falamos em multiculturalidade, normalmente pensamos em pessoas de diferentes nacionalidades trabalhando juntas. Mas essa diversidade vai além do idioma ou da origem geográfica.

Ela aparece na forma como cada um entende a autoridade, expressa opiniões, interpreta orientações e reage a dificuldades.

Stahl et al. (2010), em uma meta-análise sobre equipes multiculturais, identificaram que a diversidade cultural pode contribuir para a criatividade, mas também está associada a conflitos relacionados às tarefas e a dificuldades de integração social. Esses resultados mostram que reunir pessoas de diferentes culturas não garante, por si só, relações profissionais mais produtivas.

Na MUST University, isso acontece todo dia. Trabalhamos com profissionais de vários países e precisamos ajustar diferentes jeitos de se comunicar às políticas e procedimentos que todos devem seguir. Um ponto importante é como cada um entende o silêncio. Em algumas culturas ou ambientes de trabalho, ficar em silêncio numa reunião mostra respeito à autoridade. Em outras, as pessoas veem isso como sinal de concordância. Às vezes, a pessoa só não se sente à vontade para discordar.

Se o líder não prestar atenção a essas possibilidades, pode interpretar errado o comportamento da equipe.

Claro, nem todos os conflitos vêm das diferenças culturais. Há problemas ligados à falta de clareza, à divisão de responsabilidades, às expectativas profissionais e às decisões da organização. Por isso, é importante evitar julgamentos imediatos e buscar compreender melhor as situações antes de tomar decisões.

Ao mesmo tempo, acho fundamental que a multiculturalidade não sirva de desculpa para descumprir regras ou ter comportamentos inadequados. (trago fortemente comigo a cultura brasileira, e confesso que precisamos reaprender muito sobre esses comportamentos!)

A diversidade deve andar junto com a responsabilidade institucional. Respeitar as diferenças não quer dizer criar critérios diferentes para situações parecidas sem uma boa justificativa.

Liderar pessoas diferentes em uma mesma direção

Uma das maiores responsabilidades de quem lidera uma instituição multicultural é construir um ambiente em que as diferenças não se tornem barreiras permanentes.

Na MUST University, trabalhamos com profissionais de diferentes experiências acadêmicas, culturais e pessoais. Cada um traz conhecimentos, expectativas e jeitos próprios de ver o mundo. ( muita música e devaneios gastronômicos também!)

Essa convivência nem sempre será simples, e acredito que não precisamos esperar que seja.

O desafio é construir relações onde seja possível discordar sem desrespeitar, reconhecer dificuldades sem abandonar responsabilidades e tomar decisões sem esquecer das pessoas envolvidas.

Tenho procurado compreender que nem todo conflito precisa terminar com alguém vencendo e outro perdendo. Algumas situações exigem decisões institucionais que não agradarão a todos. Outras podem ser resolvidas com uma conversa mais clara, uma orientação ou o reconhecimento de uma falha.

O importante é evitar que cada discordância vire um conflito pessoal.

Também acredito que precisamos abandonar a ideia de que uma equipe bem liderada é aquela em que todos concordam permanentemente. Em uma instituição multicultural, a ausência de discordâncias pode, inclusive, indicar que algumas pessoas não se sentem suficientemente à vontade para expressar suas opiniões.

Isso não quer dizer incentivar conflitos desnecessários, mas entender que opiniões diferentes ajudam a tomar decisões mais conscientes.

A liderança precisa criar espaço para essas manifestações, sem perder de vista os objetivos institucionais.

Quando penso na resiliência na minha experiência, vejo que ela está ligada à capacidade de continuar aprendendo, mesmo em situações que causam desconforto no começo.

Não se trata de aceitar tudo nem de evitar decisões difíceis. Trata-se de reconhecer que as pessoas são diferentes e que a maneira como lidamos com essas diferenças pode fortalecer ou enfraquecer as relações profissionais.

“Liderar pessoas de diferentes culturas não significa fazer todos pensarem igual. Significa criar condições para que, mesmo pensando diferente, possamos seguir juntos na mesma direção”

Giulianna Carbonari Meneghello — Presidente da MUST University

Considerações finais

Liderar em um ambiente multicultural pede mais do que saber sobre culturas ou conviver com pessoas de outros países. É preciso aceitar que nossas experiências moldam como enxergamos o mundo e nos conectamos com os outros.

A resiliência, nesse contexto, ajuda a lidar com conflitos de forma mais equilibrada. Assim, emoções ou interpretações do momento não acabam decidindo tudo.

Minha experiência na MUST University me mostrou algo importante. As diferenças entre nós são uma das nossas maiores riquezas.

Mas vi que essa riqueza não leva direto à colaboração. A gente precisa criar confiança, combinar quem faz o quê e aceitar que nem sempre vai concordar.

Também precisamos aceitar que liderar exige tomar decisões difíceis, admitir erros e aprender o tempo todo.

Não penso que o líder deva acabar com todos os conflitos. Isso desconsidera como as pessoas se relacionam.

Acho que um dos maiores desafios é garantir que as pessoas possam mostrar suas diferenças com respeito e que os conflitos não prejudiquem a dignidade de ninguém nem os princípios da instituição.

A resiliência não elimina as dificuldades da liderança, mas pode mudar a forma como lidamos com elas.

No fim, ainda acredito que liderar pessoas de diferentes culturas não significa fazer todos pensarem igual. Significa criar condições para que, mesmo pensando diferente, possamos seguir juntos na mesma direção.


Giulianna Carbonari Meneghello

Cofounder da Anhanguera Educacional S.A., Presidente da MUST University, publicitária, especialista em marketing educacional, mestra em Tecnologias Educacionais e doutoranda em Liderança Educacional. Diretora de Relações Institucionais do Instituto Êxito e Conselheira da Câmara de Educação da Associação Comercial de São Paulo.


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