
Meus caros, sempre imaginei que a transgressão à lei exigisse um certo savoir-faire. A sétima arte nos condicionou a acreditar que, quando um vivente decide evadir-se das garras da justiça, o roteiro segue a linha dos grandes thrillers americanos: mapas espalhados na mesa, cronômetros sincronizados, rotas de fuga estudadas à exaustão e uma tensão digna de Missão Impossível.
Mas em Pindorama, ah, Pindorama… Aqui a realidade insiste em copiar a comédia pastelão. Nossos vilões não parecem inspirados em Hitchcock, mas sim nos Três Patetas, arrancando gargalhadas da plateia diante da total inépcia alocada no roteiro.
Vejam o que presenciamos no fim da semana passada. Eis que na calada da noite de Natal, enquanto os homens de boa vontade trinchavam o peru, o ex-Chefe da PRF (leia-se Polícia Rodoviária Federal, e não “Planejou, Rodou e Ficou”, embora a sigla agora pareça profética) decidiu protagonizar sua própria chanchada.
Num arroubo de liberdade, arrebentou o lacre da tornozeleira eletrônica — esse acessório tão em voga nas canelas do poder — e partiu. Mas vejam a sofisticação do “gênio do escape”: não fugiu num carro esporte com vidros fumê. Pegou seu caminhão, ração e, claro, seu fiel escudeiro, um Pitbull. Porque nada grita mais “discrição em fuga internacional” do que viajar com uma fera de quatro patas a tiracolo. O destino? Uma volta ao mundo via Paraguai, Panamá, até chegar a El Salvador. Um plano tão brilhante que parecia desenhado com giz de cera num guardanapo de bar.
Só que, meus diletos, o nosso Houdini do Agreste chegou à fronteira com o Paraguai munido de uma documentação que não era sua. Dizem as más línguas que a foto no documento tinha mais semelhança com um caminhão de gás do que com o fugitivo. E aqui, peço que controlem o riso, pois a elegância nos obriga: a “mente suprema” do escapismo portava um bilhete manuscrito alegando que, por conta de uma “doença grave”, ele não falava e nem escutava.
Ora, tenham a santa paciência! Tentar aplicar o golpe do “mudo de Taubaté” na polícia paraguaia — gente calejada, acostumada a perseguir criminosos de alta periculosidade e intelecto afiado — é de um otimismo comovente. Os oficiais vizinhos, ao se depararem com aquela piada ambulante, não pensaram duas vezes: “Venha cá, meu chapa!”. E lá se foi o ex-xerife das rodovias, preso não pela astúcia da Interpol, mas pela própria inépcia.
Nesta sexta-feira, dia 26 de dezembro, ele foi devolvido a Pindorama, conforme manda o manual de etiqueta para criminosos internacionais: devidamente algemado e, para minha estranheza, com um capuz sobre a cabeça. Fiquei cá com meus botões pensando se o dito capuz servia para preservar a imagem do fugitivo ou se era um ato de caridade das autoridades para que ele pudesse esconder a vergonha de um plano tão desastrado. Uma inteligência dessas, meus amigos, vai virar anedota até em roda de conversa de amebas.
Agora, o sujeito, que gozava do conforto da prisão domiciliar, vai cumprir a pena que lhe é devida no aprazível presídio federal. Uma mudança de ares, sem dúvida. E aqui deixo meu humilde conselho à administração penitenciária: se o condenado quiser trabalhar para remir a pena, pelo amor de Deus, procurem algo que não exija muito esforço cerebral. Deem-lhe uma enxada. Na capinagem, o risco de o plano dar errado é bem menor.
Ah! E a pergunta que não quer calar: o Pitbull conseguiu fugir? Será que, ao contrário do dono, o bicho teve êxito e já está curtindo a vida com amigos em El Salvador? Quem souber, informe.