
Meus prezados, aqui no nosso quintal, nestas plagas ensolaradas do meu velho Siará, a pressa parece ter se tornado a nova religião oficial. De janeiro a setembro de 2025, nas rodovias federais que cortam esta nossa antiga Província, foram emitidas 29 mil multas por excesso de velocidade. A maioria, claro, no nosso asfalto mais célebre, a BR-116.
Se a base de dados nos apresenta um total de noventa mil infrações, a matemática — essa ciência que não aceita suborno — nos diz que 32%, ou seja, uma em cada três multas, foi decorrência direta de algum vivente achar que é primo distante do Ayrton Senna ou que o carro popular possui asas ocultas.
O Artigo 218 do Código de Trânsito Brasileiro, com aquela frieza típica da lei, escalona a nossa imprudência. Temos a infração média (até 20% acima do limite), a grave (até 50%) e a gravíssima (acima de 50%), esta última reservada para quem realmente confundiu a rodovia com a pista de decolagem de Cumbica. E vejam que curioso: 76% dos apressadinhos estavam nas duas primeiras categorias. Ou seja, não é a pressa de quem foge de um vulcão; é a pressa cotidiana, aquela “gordurinha” no acelerador que não muda o horário de chegada, mas pode mudar o destino final.
Agora, queria muito que os diletos leitores não tomassem o que vem a seguir como falso moralismo. Quem partilha do meu cotidiano sabe — e até acha graça — da minha postura monástica ao volante.
Digníssimos, confesso: sou uma tartaruga convicta. Quando a via permite 60 km/h, trafego com a serenidade de quem passeia no parque, a 50 km/h. Se o limite cai para 50 km/h, reduzo para 45 ou 47 km/h, apreciando a paisagem. E numa rodovia federal, diante da placa de 80 km/h, mantenho o ponteiro nos 78 km/h, para o absoluto desespero de quem vai de carona comigo.
Vejo, pelo canto do olho, o passageiro ao lado com o pé direito inquieto, “roçando” num freio ou acelerador imaginário, suando frio diante da minha placidez. E é aí que indago, com a calma de um monge tibetano:
— Meu amigo, você já notou que as placas são para informar o limite, e não uma meta mínima a ser batida? Ou será que você acha que elas são cumulativas? Viu uma de 80 ali atrás e outra de 80 agora, achou que podia somar as duas e passar voando a 160?
Geralmente, a resposta é um resmungo: “Deixa de conversa e anda, Themotheo! O fulano vai chegar antes!”.
Ao que respondo com minha máxima inegociável:
— Bem, uma coisa eu tenho absoluta certeza: EU CHEGO. O nosso colega apressado… bem, sobre ele eu já não apostaria tanto.
Meus caros, caso tenha passado despercebido como uma nuvem singela no céu de brigadeiro, a delimitação de velocidade não é um número aleatório sorteado no bingo do DETRAN. Ela advém da análise do piso (e ninguém aqui ouse dizer que temos Autobahns alemãs), da geometria da curva e da sinalização.
Então, como entender que um vivente, em sã consciência, coloque a família a bordo — esposa, filhos, o cachorro — e decida testar a Teoria das Probabilidades a 140 km/h? Tudo isso para quê? Para chegar dez minutos antes?
Afinal, até que a geologia me prove o contrário, uma casa de campo, uma fazenda, uma praia ou a serra de Guaramiranga são imóveis. Elas não saem do lugar. Se a serra não foge, você, na velocidade permitida, certamente a encontrará lá, plácida e esperando.
Vamos resgatar aquela qualidade hoje quase extinta, chamada Bom Senso. A vida é um sopro, e não há compromisso na agenda que justifique transformá-la em estatística.
Acelera menos, macho. O destino te espera, mas a vida não aceita retorno.
O post Acelera, Macho! apareceu primeiro em O Estado CE.