As reiteradas vezes em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) diz ao pai que a manutenção do apoio do governo americano ao bolsonarismo está condicionada a uma anistia ampla e irrestrita, sugere que o deputado vendeu, à Casa Branca, um terreno na lua: as medidas contra o Brasil seriam capazes de colocar o único aliado incondicional de Donald Trump na Presidência, a própria família.
Dois dias antes de anunciar o tarifaço, Trump publica mensagem acusando a “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro e defendendo sua candidatura à Presidência da República. Eduardo Bolsonaro diz que uma “anistia light”, ou seja, que não incluísse seu pai, seria a última ajuda do presidente americano: “Eles não irão mais ajudar”. As manifestações constam no relatório da Polícia Federal, no inquérito em que pai e filho são indiciados por suspeita de obstrução do julgamento da ação sobre tentativa de golpe de Estado.
Na mesma mensagem, ele insiste em convencer o pai a pressionar o Congresso pela anistia: “Neste cenário você não teria mais amparo dos EUA, o que conseguimos a duras penas aqui, bem como estaria igualmente condenado no final de agosto”.
Dias antes, o pai manifestara preocupação com o alcance das medidas americanas sobre os ministros do Supremo Tribunal Federal: “Tenho conversado com alguns do STF. Todos, ou quase todos, demonstram preocupação com sanções”. O filho reitera que o apoio americano é a última saída que resta a Bolsonaro: “Tire do cálculo o apoio dos EUA, qual estratégia você tem para atingir qual objetivo? É simples”.
No dia seguinte ao tarifaço, o deputado pede uma mensagem do pai em agradecimento a Trump pela medida demonstrando preocupação com o humor do presidente americano: “Aqui é tudo muito melindroso, qualquer coisinha afeta”. Eduardo Bolsonaro deixa claro que a gratidão do pai a Trump é parte do jogo que mantém com os assessores do presidente americano que fazem a ponte para a família Bolsonaro: “Eu quero postergar este bom momento de agora, mas se o nosso cara vai encontrar o O1 [Trump] sem nenhum tweet seu, te adianto que isto não será bem recebido”.
Mais adiante, ao contestar a ideia do pai de dar uma entrevista, ele diz que iria à Casa Branca no dia seguinte e que o pai tomasse cuidado com o que iria falar para, novamente, não melindrar seus interlocutores: “Se você disser algo sobre os EUA que não se encaixar com o que estamos fazendo aqui, pode enterrar algumas ações”.
Eduardo Bolsonaro diz que o ex-presidente não deve se preocupar com o impacto sobre o país porque ele pode reverter as medidas se voltar ao poder, mas insiste que o mais importante é aproveitar a onda para obter os dividendos políticos domésticos enquanto há tempo. E, mais uma vez, diz que o vento pode mudar se o roteiro não seguir o que ele sugere: “Na situação de hoje, você nem precisa se preocupar com cadeia, você não será preso. Mas tenho receio que por aqui as coisas mudem. Mesmo dentro da Casa Branca tem gente falando para o O1 [Trump]: ‘Ok, Brasil já foi. Vamos para a próxima”.
No bombardeio contra as tentativas do governador Tarcísio de Freitas de buscar uma interlocução com o governo americano, o deputado revela que, ao chegar aos EUA, encontrou o governo americano contaminado pela ideia de que Tarcisio seria tão aliado de Trump quanto o pai: “Aqui nos EUA tivemos que driblar a ideia plantada aqui pelos aliados dele, de que “Tarcisio=Bolsonaro”, uma clara mensagem de que os EUA não precisariam entrar nesta briga, pois com TF (Tarcisio) ou você, Trump teria um aliado na Presidência do Brasil em 2027”.
O deputado diz ainda que Tarcísio não vai atuar pela anistia de Bolsonaro e que só resolve o problema do mercado em encontrar um alternativa para 2026. “Se o sistema enxergar no Tarcísio uma possibilidade de solução, eles não vão fazer o que estão pressionados a fazer. E pode ter certeza, uma “solução Tarcísio” passa longe de resolver o problema, vai apenas resolver a vida do pessoal da Faria Lima”.
Ao reclamar dos elogios do seu pai a Tarcísio e das críticas à sua “imaturidade”, Eduardo Bolsonaro deixa claro que isso prejudicaria sua influência sobre a Casa Branca, sugerindo que o espaço que lhe foi fraqueado está condicionado à sua condição de intermediário de seu pai em sua peleja para voltar ao poder: “Se o imaturo do seu filho de 40 anos não puder encontrar com os caras aqui, porque você me joga pra baixo, quem vai se f.. é você. E vai decretar o resto da minha vida nesta p.. aqui”.
A entrevista do ministro Alexandre de Moraes à Reuters dessa quarta, sugere que os temores de Eduardo Bolsonaro sobre a virada de maré nos EUA eram fundados. Na entrevista, ele sugere que houve relutância em relação às medidas em função das divisões internas no governo americano e que estaria havendo hoje uma abertura de canal com o Departamento de Estado e com a secretaria do Tesouro: “Houve uma relutância na Secretaria de Estado e uma grande relutância na secretaria do Tesouro. Então, a partir disso, com as informações mais corretas, eu acredito que ambos os departamentos vão fazer chegar ao presidente [Donald Trump] com essa finalidade”.