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Boca de urna aponta socialista e ultradireitista no segundo turno em Portugal | Mundo

Boca de urna aponta socialista e ultradireitista no segundo turno em Portugal | Mundo

A provável vitória de António José Seguro nas eleições presidenciais portuguesas pode coroar uma virada épica. Nas primeiras pesquisas, em agosto do ano passado, o socialista patinava nos dez pontos percentuais, enquanto Luís Marques Mendes (centro-direita), André Ventura (ultradireita) e o almirante Henrique Gouveia e Melo (independente) disputavam o primeiro lugar com o dobro das intenções de voto. No final da campanha, apenas o ultradireitista manteve o fôlego.

Seguro e Ventura deverão disputar o segundo turno no dia 8 de fevereiro. A boca de urna da Universidade Católica de Lisboa para a Rádio e Televisão Portuguesa (RTP) aponta que Seguro obteve de 30% a 35% dos votos, e Ventura, de 20% a 24%. Em terceiro lugar no levantamento aparece João Cotrim de Figueiredo, do partido Iniciativa Liberal, com 17% a 21%. A pesquisa ainda aponta Gouveia e Melo com de 11% a 14%, e Marques Mendes com de 8% a 11%.

O comparecimento dos portugueses às urnas, nas eleições mais equilibradas desde a redemocratização do país, foi o maior dos últimos vinte anos. Estimava-se uma taxa de abstenção de 35% a 40%. Nas eleições de 2021 mais da metade dos portugueses não saiu de casa para votar -o mundo vivia a pandemia da Covid 19.

A escolha dos portugueses deverá ser entre dois políticos que não poderiam ser mais diferentes. Seguro tem a fala pausada e radiofônica de um professor. Ventura é conhecido por terminar seus discursos aos gritos.

Na campanha eleitoral, os vídeos de Seguro mostravam o candidato jogando sinuca com integrantes da Juventude Socialista ou em tascas comendo bifanas -os sanduíches de carne temperada típicos de Portugal. Na antevéspera do pleito, o Instagram de Ventura mostrava o candidato socando o capô de um carro enquanto seus seguidores gritavam: “18 de janeiro! Ventura em primeiro!”

As trajetórias políticas na vida real dizem mais sobre ambos que os posts controlados das redes sociais. O momento definidor da carreira de Seguro se deu de 2011 a 2014, período em que foi líder da oposição à frente do Partido Socialista. Portugal vivia uma fase difícil. Colhido pela crise do Euro e com dívida e déficit insustentáveis, o país foi obrigado a pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional e a instituições da União Europeia. A contrapartida ao empréstimo foi um duro programa de austeridade.

O ajuste fiscal ficou a cargo do premiê Pedro Passos Coelho, do Partido Social Democrata, de centro-direita. Na oposição, Seguro criticava duramente o governo, mas ao mesmo tempo abria a porta para soluções de compromisso e orientava o partido a se abster nas votações sobre as medidas de austeridade.

Essa “oposição responsável” ajudou Portugal a recuperar a credibilidade financeira mais rapidamente que outros países europeus -o ajuste durou apenas três anos- mas a um preço alto: recessão econômica, desemprego em dois dígitos e êxodo de jovens.

Dentro do Partido Socialista, Seguro era pressionado a endurecer o discurso para surfar na impopularidade do governo de centro-direita. Enfrentou um duro confronto com António Costa pela liderança do partido -e perdeu.

O aguerrido Costa arrebatou o poder de Passos Coelho, governou Portugal durante nove anos e hoje é presidente do Conselho Europeu. Seguro completou seu mandato de deputado e, em 2015, trocou a política partidária pelo magistério na universidade.

A característica que fez Seguro fracassar no Parlamento se tornou um poderoso ativo na corrida presidencial. Desde o início da campanha, ele vendeu a imagem de moderado. Sobre o episódio da política de austeridade, disse em entrevista: “Eu me orgulho de ter sido responsável e ajudado o meu país”.

No dia de eleição, no comitê de Luís Marques Mendes, era dado como certo que muitos eleitores de centro-direita votaram em Seguro, abandonando o candidato apoiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro.

Esse voto útil moderado pode favorecer o socialista na rodada decisiva. Uma pesquisa realizada às vésperas da eleição mostrava que Seguro derrotaria Ventura por 49% a 29% num eventual segundo turno.

Em Portugal o presidente não governa. Atua como uma espécie de “poder moderador”, que pode aprovar ou vetar leis e dissolver o Parlamento em caso de impasse político. Presidentes anteriores, como Mário Soares (1986-1996), Jorge Sampaio (1996-2006), Aníbal Cavaco Silva (2006-2016) e Marcelo Rebelo de Sousa (2016-2026) eram veteranos já afastados da vida partidária.

André Ventura é o antípoda de Seguro não apenas no perfil, mas também na trajetória política. Se para o socialista a Presidência seria a coroação de uma longa carreira, para o ultradireitista seria um passo em seu grande objetivo: alterar a radicalmente a Constituição portuguesa. Dois dos eixos de sua reforma seriam sistema penitenciário e imigração. Penas mais duras no primeiro caso e restrições cada vez maiores no segundo, em linha com o discurso xenófobo que marcou toda a sua campanha eleitoral. Uma maior centralização do poder também está no seu horizonte.

Em entrevista à Rádio e Televisão Portuguesa (RTP), o ultradireitista disse que, caso seja eleito presidente, quer usar a “magistratura de influência” inerente ao cargo para trabalhar pela revisão constitucional. Ventura nunca escondeu que seu verdadeiro objetivo é se tornar primeiro-ministro -o chefe de governo teria muito mais poder que o chefe de Estado para fazer as mudanças que ele pretende.

Para triunfar em 8 de fevereiro, Ventura deverá romper uma tendência. Em um país com média de idade elevada, o eleitor preocupado com suas aposentadorias pode querer fugir de um candidato que promete mudanças radicais.

Ganhando ou perdendo, o presidente do Chega já realizou um feito. Se passar de fato para o segundo turno, terá conseguido sua votação mais alta numa campanha presidencial, o que inevitavelmente o credencia para novos voos no futuro.



Valor Econômico

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