Ler o resumo da matéria
A China anunciou uma mudança em sua política econômica, estabelecendo uma meta de crescimento do PIB entre 4,5% e 5% para 2026, a menor em três décadas. O governo busca reequilibrar a economia, priorizando o mercado interno e investimentos em tecnologia de ponta, em vez de depender das exportações.
O 15º Plano Quinquenal delineia investimentos em inovação e indústrias emergentes, como computação quântica e inteligência artificial.
A decisão de reduzir a dependência das exportações é influenciada por tarifas americanas e um ambiente econômico interno desafiador, com baixa confiança do consumidor e estagnação salarial.
O governo também anunciou investimentos de 800 bilhões de yuans para estimular a economia interna e aumentará os gastos militares em 7%. A meta de crescimento se alinha ao objetivo de alcançar um PIB per capita de um “país desenvolvido de nível médio” até 2035.
* Resumo gerado por inteligência artificial e revisado pelos jornalistas do NeoFeed
A China anunciou uma guinada em sua política econômica na quinta-feira, 5 de março, ao estabelecer a meta de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 4,5% e 5% em 2026 – a menor em três décadas, excetuando o período da pandemia -, deixando de priorizar as exportações para lidar com a sobrecapacidade industrial e reequilibrar a economia, com estímulos aos gastos familiares e investimento em tecnologia de ponta.
O anúncio foi feito pelo primeiro-ministro Li Qiang, o segundo líder mais importante do país, durante reunião do parlamento nacional, na qual o governo chinês também delineou seu 15º Plano Quinquenal – o planejamento estratégico dos próximos cinco anos.
Como era amplamente esperado, Li prometeu investimentos em inovação, indústrias de alta tecnologia, pesquisa científica e um aumento “notável” – mas não especificado – no consumo das famílias como percentual da produção econômica.
“Precisamos aprimorar nossas próprias capacidades para lidar com os desafios externos”, discursou Li, acenando com alguma margem de manobra para conduzir a economia por um terreno geopolítico complexo – incluindo conflitos no Oriente Médio e a ameaça de maior pressão comercial por parte do presidente Donald Trump – enquanto continua a perseguir o objetivo estratégico do governo de autossuficiência tecnológica em relação ao Ocidente liderado pelos EUA.
O plano prevê o fomento de novos motores de crescimento econômico em indústrias emergentes como computação quântica, biofabricação, hidrogênio e energia de fusão, interfaces cérebro-computador, inteligência incorporada e redes móveis 6G. “Em meio à acirrada competição internacional, devemos vencer a iniciativa estratégica”, afirma o documento do plano quinquenal, no qual o termo “inteligência artificial” é citado mais de 50 vezes.
A difícil decisão de reajustar o vetor de crescimento cada vez mais dependente das exportações – a China registrou um superávit comercial recorde de US$ 1,2 trilhão no ano passado – seguramente levou em conta as tarifas americanas, que devem continuar a representar um obstáculo ao crescimento do PIB, como já ficou claro a partir do segundo semestre do ano passado.
Neste sentido, o governo deve ter concluído que um reequilíbrio significativo do modelo de crescimento da China seria difícil de alcançar em conjunto com seus objetivos de longa data de domínio tecnológico e industrial.
Nos últimos cinco anos, os governos americanos tentaram impedir o acesso chinês à tecnologia de ponta produzida no Ocidente, em especial na área de semicondutores. Essa estratégia da Casa Branca não impediu a ascensão da China em veículos elétricos, inteligência artificial, robótica e uma série de outras tecnologias avançadas.
Mas boa parte desse avanço ficou fora do alcance da população chinesa, impactada por uma economia doméstica contaminada por um ambiente deflacionário, no qual a superprodução e a demanda insuficiente estimularam uma competição predatória que corroeu os lucros.
Neste cenário, detectado desde a pandemia, a confiança do consumidor e das empresas despencaram, o crescimento salarial estagnou e o desemprego juvenil ficou próximo de níveis historicamente altos. A crise imobiliária, ainda persistente, apenas agravou o quadro.
Longo prazo
A mudança de estratégia, porém, não significa uma ruptura com o planejamento econômico centralizado e visando o longo prazo, marcas do regime comunista chinês.
Ao estabelecer a meta de crescimento do PIB entre 4,5% e 5%, o governo se aproxima do nível mínimo necessário para atingir um de seus principais objetivos políticos: alcançar o PIB per capita de um “país desenvolvido de nível médio” até 2035. Para atingir essa meta, o PIB chinês precisará crescer, em média, 4,17% ou mais na próxima década.
Entre as medidas anunciadas, o governo apresentou novas ferramentas para impulsionar investimentos no valor de 800 bilhões de yuans, o equivalente a US$ 116 bilhões, na economia interna. O país também reservou 100 bilhões de yuans para empréstimos a consumidores e empresas.
A meta de inflação ao consumidor de cerca de 2% para este ano permaneceu inalterada em relação a 2025. No ano passado, o índice de preços ao consumidor ficou estável, refletindo a demanda fraca em uma economia onde as famílias estão cada vez mais preocupadas com as perspectivas de emprego e o valor de suas casas.
Já o anúncio de que o governo chinês vai aumentar seus gastos militares em 7% este ano em relação ao ano passado, elevando o desembolso para cerca de US$ 277 bilhões — aproximadamente um terço dos gastos militares propostos pelo governo Trump para o ano fiscal de 2026 — chamou a atenção de analistas.
Os contínuos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e o ataque americano à Venezuela em janeiro podem ter aprofundado a desconfiança dos líderes chineses em relação à Casa Branca.
“Donald Trump pode pensar que está demonstrando força militar suficiente para intimidar a China”, disse Daniel Russel, ex-secretário de Estado adjunto para Assuntos do Leste Asiático e do Pacífico e hoje analista do Asia Society Policy Institute.
“Mas suas ações na Venezuela e no Irã provavelmente reforçarão a determinação do governo chinês em fortalecer sua capacidade de resistir aos EUA e estreitar seu alinhamento com a Rússia”, advertiu Russel.