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Com fartura de terras e de mão de obra, Encruzilhada do Sul quer ser a nova Serra Gaúcha

Com fartura de terras e de mão de obra, Encruzilhada do Sul quer ser a nova Serra Gaúcha

Em janeiro, Encruzilhada do Sul virou notícia. No município gaúcho, a 172 quilômetros de Porto Alegre, descobriu-se a maior trufa já encontrada no Brasil — um baita fungo com 200 gramas, do tamanho da palma de uma mão de adulto, que rapidamente foi vendido ao restaurante paulistano Tuju, biestrelado pelo Guia Michelin, por R$ 20 mil. Ou seja: R$ 10 mil o quilo.

A joia comestível foi desenterrada da propriedade da Pecanera Brasil, produtora de noz-pecã. A fazenda pertence à família de Jodimar Zaffari, diretor do Grupo Zaffari, que reúne 37 supermercados e 10 shopping centers. De 2015 para cá, foram plantadas 20 mil árvores em 150 hectares.

Não tem sido difícil achar compradores para as nozes — os primeiros lotes foram exportados para Ásia e Oriente Médio. Mas as trufas que brotaram junto às raízes, Zaffari confessa ao Neofeed, foram uma bela surpresa.“É hora de deixar de ser hobby. Já compramos dois cães da raça Lagotto Romagnolo, treinados para caçar trufas”.

O empresário diz que escolheu Encruzilhada do Sul em função da insolação, perfeita para a fruticultura, e da amplitude térmica, que rende frutos mais aromáticos.

Essas condições climáticas de sonho, somadas ao relevo pouco acidentado, que não cria entraves para a mecanização, estão no discurso de boa parte dos agroempreendedores que, como os Zaffari, chegaram em bando na última década. E com uma vantagem extra — terra farta e barata.

A primeira a apostar na região conhecida como Serra do Sudeste foi a Chandon. O enólogo Philippe Mével conta que, em 1999, a empresa precisava expandir a produção de espumantes, mas já faltavam terrenos disponíveis na Serra Gaúcha. Depois de muito circular pelo estado, ele encontrou Encruzilhada do Sul – vêm de lá as uvas Chardonnay que dão origem ao espumante Névoa das Encantadas.

No vácuo, chegaram à cidade os irmãos Gustavo, Francisco e Diego Bertolini, fundadores da vinícola Manus. “Era uma região de pastos, tudo muito precário. O valor da terra era muito baixo e, quando a Chandon apostou, fomos junto”, Gustavo diz ao Neofeed.

Passados 26 anos, Encruzilhada do Sul contabiliza 560 hectares de vinhedos e 1,4 mil hectares de olivais. Depois da Chandon e dos Bertolini, vieram vitivinicultores consagrados, como Valduga e Lídio Carraro, e outras vinícolas-boutique.

Ao contrário da Serra Gaúcha, cujo terroir se consolidou nos espumantes, a Serra do Sudeste também se destaca nos vinhos tranquilos de alta gama.

O Pedras da Quinta Rare Blend, a R$ 459, é um corte de quatro vinificações de Tannat, de três safras, que passam por quatro diferentes barricas. Em 2024, foi medalha de ouro no Brazil Wine Challenge. “Focamos em exclusividade. De alguns vinhos, saem só 300 garrafas, o que equivale a uma barrica”, diz o sócio da Pedras da Quinta, Diogo Durigon, em conversa com o NeoFeed.

Entre os olivicultores, destaca-se a Sabiá, produtora de um dos azeites mais premiados do país, que inaugurou por ali um lagar de R$ 25 milhões. A estrutura grandiosa, cercada por 113 hectares de oliveiras, está em pleno funcionamento e começa a receber visitantes em abril, assim que terminar a colheita.

Em paralelo, os proprietários Bia Pereira e Bob Vieira da Costa estão dedicados aos 5,5 hectares de vinhedos da Cave Sabiá — o espumante da marca chega ao mercado agora, em fevereiro.

Um elemento importante faz os produtores rirem de orelha a orelha: apesar das cambalhotas climáticas, as chuvas na Serra do Sudeste seguem constantes ao longo do ano, sem períodos de seca ou de solo encharcado demais.

O sobe e desce dos termômetros, então, faz a alegria dos vinhedos e dos olivais. As máximas do verão podem beirar os 40ºC, mas as noites são sempre frescas, em torno dos 15ºC.

De acordo com Gustavo Bertolini, outra riqueza se esconde no subsolo. “Em parceria com a Embrapa Uva e Vinho, descobrimos 16 solos, um bem diferente do outro”, o viticultor lembra ao NeoFeed.

A descoberta virou um manancial criativo para os irmãos Bertolini, que envazam de 10 mil a 15 mil garrafas anuais. “Estamos vinificando as uvas de cada talhão, cruzando o tipo de solo, a safra e a data da colheita, em um trabalho pioneiro de leveduras autóctones. Já isolamos 50.”

Porém, o feito que realmente colocou Encruzilhada do Sul no mapa foi a descoberta de uma trufa de 200 gramas nas terras da Pecanera Brasil. O produto foi vendido por R$ 20 mil

A primeira vinícola a apostar na região conhecida como Serra do Sudeste foi a Chandon

Com a abertura do caminho, a Manus, dos irmãos irmãos Gustavo, Francisco e Diego Bertolini, também chegou à cidade

Aos poucos, vitivinicultores consagrados como Vadulga começaram a ocupar os baratos terrenos da região

Com os esforços, vieram os resultados. O vinho Pedras da Quinta Rare Blend, de R$ 459, foi medalha de ouro no Brazil Wine Challenge em 2024, um orgulho para Diogo Durigon, sócio do negócio

Por lá, os olivicultores também conquistaram o seu espaço, com destaque para a Sabiá, que produz até espumantes na região

O turismo em torno dos vinhos, dos azeites e das trufas, no entanto, não evolui na mesma velocidade.

A Manus está construindo uma vinícola, com inauguração prevista para 2027 – o projeto da arquiteta Marta Perin terá quatro suítes de luxo com vista para os vinhedos. Os donos da Sabiá também pretendem construir um hotel, mas o projeto, por enquanto, está só no campo das ideias, sem prazo definido.

Sem hotéis ou pousadas no padrão exigido por esse perfil de visitante, a cidade só entrou no radar dos próprios gaúchos, por enquanto. “Cerca de 70% dos nossos visitantes são moradores de cidades ao redor”, diz Eduardo Valduga, enólogo e herdeiro da Casa Valduga, única a ter uma loja junto aos vinhedos.

Todos os anos, Valduga abre os portões da fazenda em fevereiro para a festa da vindima, que comemora a colheita. A deste ano aconteceu no dia 7 e, pela primeira vez, teve a participação de outros produtores.

“Não cobrei nada das outras vinícolas, para que a gente crie o conceito de união. Precisamos fazer, em Encruzilhada do Sul, o mesmo que fizemos na Serra Gaúcha. O município precisa assumir essas culturas como atividades de turismo, aplicar verbas, se associar ao governo do estado para melhorar a infraestrutura e atrair investidores”, defende Eduardo Valduga ao NeoFeed.

Fundada este ano, a nova Associação dos Produtores do Terroir de Encruzilhada do Sul (Aprotees) ataca em outra frente: obter o reconhecimento da Denominação de Origem. “A Embrapa nos sugeriu tentar um registo de Indicação de Procedência, que é mais amplo e abrangeria toda a Serra do Sudeste, mas decidimos ir direto para o D.O. Encruzilhada do Sul, que tem mais força como percepção de valor”, Gustavo Bertolini disse ao NeoFeed.

Benito Paschoal, prefeito da cidade desde 2021, admite que as novas culturas agrícolas estão transformando o município – no primeiro trimestre do ano, época em que as colheitas de uvas e de azeitonas coincidem, o município chega ao pleno emprego.

Ele se mostra disposto a colaborar. “Ajudamos os investidores com a infraestrutura: terraplanagem, agilidade nas licenças e até empréstimo de máquinas da prefeitura, sem custo para uso de até quatro horas”, ele afirma ao NeoFeed.

Um hotel de categoria business, segundo o prefeito, está em construção na cidade, e projetos de novas pousadas estão em andamento. “Por enquanto, as vinícolas estão só plantando aqui, mas aposto que logo vão começar a vinificar também, porque ainda temos a mão de obra que a Serra Gaúcha não tem mais.”



Ceará Agora e Diário do Nordeste

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