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Drex sai de cena, mas deixa legado de inovações à porta dos brasileiros | Criptomoedas

Drex sai de cena, mas deixa legado de inovações à porta dos brasileiros | Criptomoedas

Os pilotos do Drex, o projeto do real digital abandonado recentemente pelo Banco Central, colocaram lado a lado bancos, cooperativas, empresas de tecnologia e infraestruturas do mercado. Foram feitos testes, em ambiente controlado, sobre como ativos, garantias e registros poderiam funcionar de forma digital e programável. E esse legado, dentro em breve, pode mudar a relação dos brasileiros com o dinheiro.

Apesar de cada grupo ter atuado em frentes distintas, a maior parte das iniciativas convergiu para um mesmo objetivo: entender como a tokenização poderia tornar operações mais rápidas, seguras e baratas para o usuário final — seja uma pessoa física financiando um bem, uma empresa buscando crédito ou um agente público lidando com registros essenciais.

Embora o Drex tenha mudado de rumo, aposentando a digitalização em tecnologia blockchain, os projetos desenvolvidos e testados pelos consórcios na plataforma digital plantaram a semente para novos produtos e serviços que se propõem a resolver a “dor” de muitos usuários.

Crédito mais barato, rápido e fácil

O Itaú se concentrou em um gargalo no mercado de crédito: ampliar as possibilidades de empréstimos com garantia. Os testes de contratos inteligentes (smart contracts) foram aplicados a uma operação de crédito com garantia em Certificado de Depósito Bancário (CDB) e Cédula de Crédito Bancário (CCB) tokenizados, explica Guto Antunes, chefe da Digital Assets do banco.

Antunes ressalta que a iniciativa trouxe “aprendizados regulatórios e tecnológicos” e ajudou a clarear desafios de privacidade e interoperabilidade. Em um cenário real, soluções desse tipo podem reduzir risco documental e acelerar a liberação dos recursos, beneficiando tanto quem precisa de um empréstimo pessoal quanto pequenas empresas que dependem de crédito ágil para operar.

O consórcio da Associação Brasileira de Bancos (ABBC) enfrentou uma dificuldade estrutural do setor: como garantir que bancos de portes distintos consigam operar de forma padronizada e eficiente no crédito digital.

Com 16 instituições financeiras associadas e duas parceiras de tecnologia (BIP e BBChain), o consórcio apostou na Cédula de Crédito Bancário tokenizada, no crédito com garantia em títulos públicos e na criação de uma arquitetura tecnológica (“nó as a service”) para permitir que participantes tivessem acesso igual às estruturas do piloto.

O grupo afirma que o projeto proporcionou “conhecimento necessário para a tokenização de ativos, independentemente do ambiente”. Para o cliente final, isso abre caminho para produtos de crédito mais rápidos e competitivos, independentemente do tamanho do banco com o qual se relaciona.

No consórcio liderado pelo Inter, o foco estava em resolver um entrave conhecido das empresas: o tempo e o custo para transformar recebíveis em crédito. Normalmente, entre a venda e a antecipação, há dias de espera, verificação manual, custos extras e pouca previsibilidade.

O grupo — que reuniu 7Comm e Chainlink — testou tokenização de recebíveis, liquidez automatizada e fluxos de comércio exterior, além de camadas de segurança com criptografia de última geração. Segundo Bruno Grossi, chefe de ativos digitais do banco, o piloto permitiu medir o potencial de “reduzir custos operacionais e aumentar a eficiência” nas operações de crédito. Na prática, essa digitalização busca encurtar os prazos e baratear a antecipação para empresas.

Já o consórcio MBPay buscou atacar a complexidade de operações que usam diversos tipos de garantia e ativos, especialmente no agronegócio e em operações com títulos públicos. O grupo e seus parceiros desenvolveram soluções que vão do crédito com garantia de títulos públicos à “piscina de liquidez”, semelhante a um fundo comum de recursos usado para facilitar compras e vendas automáticas de títulos , garantindo liquidez imediata.

Segundo o consórcio, o piloto permitiu “a demonstração dos benefícios que a tecnologia pode oferecer”, favorecendo agentes que já trabalham com tokenização. Para produtores rurais e empresas, isso tende a reduzir o custo da captação, agilizar financiamentos e trazer mais transparência às etapas de verificação.

Inclusão e serviços financeiros mais acessíveis

Para a Caixa, o desafio central era outro: como permitir pagamentos em regiões onde o celular não funciona? Em parceria com Elo e Microsoft, a instituição focou em transações offline, voltadas a áreas de baixa conectividade.

O grupo afirma que os experimentos tiveram como foco a “viabilidade técnica e social” da solução. Para o usuário final, isso atende uma demanda básica: conseguir pagar, receber e acessar serviços financeiros mesmo em locais sem sinal, ampliando a inclusão digital e reduzindo a dependência de infraestrutura de telecomunicações.

No cooperativismo, o consórcio SFCoop — que reúne Ailos, Cresol, Sicoob, Sicredi e Unicred — buscou enfrentar o desafio de modernizar serviços financeiros para milhões de brasileiros que dependem de instituições locais, mas querem soluções digitais tão eficientes quanto as dos grandes bancos.

O grupo de cooperativas estudou digitalização, automação de processos e inclusão financeira, explorando modelos aplicáveis a diferentes regiões. Segundo o consórcio, os aprendizados já vêm sendo incorporados internamente, com foco em soluções “seguras e sustentáveis”. Para o cooperado, isso significa acesso a produtos mais atuais sem perder o vínculo comunitário que define o modelo.

Compra e venda de bens móveis e imóveis

O BV buscou solucionar um problema cotidiano dos consumidores: a compra e venda de veículos usados entre pessoas físicas, que hoje envolve idas a cartórios, checagem de documentos, transferências manuais e etapas que podem levar dias.

Em parceria com a B3, o banco desenvolveu uma jornada completa com tokenização de documentos, gravames, CCB e do próprio automóvel. O fluxo, que no mundo real pode levar até cinco dias, foi concluído em aproximadamente três minutos. A instituição afirma ter conseguido testar “a jornada digital completa”, com ganhos de eficiência e redução de riscos operacionais. Para o consumidor, é a possibilidade de resolver toda a operação com menos burocracia, menos deslocamentos e menos custos.

No projeto do Banco do Brasil, a prioridade foi um dos processos mais pesados do sistema financeiro: a compra e venda de imóveis. Atualmente, o trâmite envolve registros fragmentados, pagamentos encadeados, risco de inconsistências e longos prazos.

O BB testou fluxos digitais envolvendo compra e venda, quitação automatizada de obrigações e integração com sistemas externos simulados, junto à Caixa, SFCoop e Operador Nacional do Sistema de Registro Eletrônico de Imóveis (ONR). A instituição afirma que o piloto ajudou a validar “novos modelos de negócio” e reforçou a visão de que a tokenização é “uma tendência irreversível”. Em um ambiente real, isso pode reduzir custos, diminuir erros e encurtar semanas de espera para famílias e empresas.

Apesar das diferenças entre os projetos do piloto do Drex, a maior parte dos consórcios se debruçou sobre obstáculos comuns: crédito lento, documentação pesada, risco operacional, processos custosos e falta de acesso digital.

Para o usuário final, as soluções testadas apontam para empréstimos mais rápidos, menos burocracia e processos que cabem no celular. Para empresas, significam financiamento mais acessível e barato. Para o setor público, criam bases para políticas mais eficientes e transparentes.

No conjunto, o piloto do Drex mostrou que a transição para uma economia mais digital não depende apenas da tecnologia escolhida, mas de como ela simplifica a vida das pessoas — e nisso, os consórcios deixaram um conjunto consistente de aprendizados.



Valor Econômico

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