O jornal era entregue todo dia cedo, atirado por cima do portão de ferro vazado que permitia qualquer um na rua enxergar nosso quintal e saltar, se quisesse. Não me lembro de correr para pegá-lo no chão, mas lembro que o “Jornal do Brasil” aparecia sobre a cabeceira da mesa da cozinha, ao lado da xícara do meu pai, ainda no café da manhã. Lembro também que eu esperava um pouco para roubar o “Caderno B”, o mais disputado em casa. Lá estava tudo que eu queria ler: as tirinhas, o horóscopo e a crônica do Verissimo.
Eu já tinha lido os contos dos irmãos Grimm e as fábulas de Esopo. Lia com frequência os gibis da Turma da Mônica, mas construí as bases do meu desejo de viver da palavra escrita usando as crônicas do Verissimo como tijolo. Verissimo me fazia rir — ainda que por motivos diferentes dos do meu pai. Verissimo era a prova de que ler podia ser algo muito prazeroso.
Era 1983. Criança ainda eu absorvia as aulas gratuitas daquela leitura diária. O absurdo provocando graça, os animais encarnando o comportamento humano, o inesperado fazendo rir. Só podia ter o dedo do Verissimo nas gracinhas do texto que saía de mim. Acredito que, sob influência dele, respondi “soluço” quando a professora perguntou, criança por criança, que doença contagiosa já tinha contraído. A menina que não podia acrescentar nada de útil à lista de cataporas e sarampos queria ser um pouco Verissima, por causa daquele escritor com quem nunca esteve, mas que integra a lista dos adultos que a criaram no caminho das letras.
O outro adulto foi o pai, cujo requinte com a escrita ficou registrado num texto que escrevi em maio de 1983, “Poema à girafa”. O papel mostra emendas em lápis dele. Papai fez sugestões para trocar “sebosa” por “sestrosa”, depois de dar uma gargalhada divertidíssima e perguntar: “Bebel, você sabe o que significa sebosa?”. Ele também sinalizou duas repetições. O verbo “parece” e a preposição “para” muito próximos um do outro. Ele gostou de eu ter escrito que a girafa podia ser modelo, que bastava botar cabelo, numa rima simples mas aceitável para uma escritora de dez anos. Eu hoje faria as mesmas sugestões para mim. Com mania de palavras difíceis, papai me abriu o admirável mundo dos dicionários e da busca pela palavra certa. Ou pelo menos mais adequada.
A outra adulta que me colocou no caminho da escrita foi minha mãe, minha leitora fiel. Eu tinha essa recordação afetiva, mas tudo ficou mais claro quando encontrei uma folha de papel dobrada, amarelada pelo tempo, guardada em caixas esquecidas. Para aquele papel, contei, aos dez anos (1983 foi um grande ano literário para mim, pelo visto), que um dos meus sonhos era ser jornalista. Afinal, “para ser jornalista”, escrevi, “tenho que fazer muita redação. E eu adoro fazer redação”. Além do mais, eu continuava, minha mãe lê minhas redações “umas 500 vezes”.
Ouvi a voz daquela menina satisfeita por trás da caligrafia infantil. O entusiasmo crescendo. A segurança seguindo. Eu tinha tudo o que uma escritora precisa: público-leitor. Mesmo que feito de uma pessoa só.
Quando encontrei aquele papel, no início de 2023, telefonei de imediato para dividir com minha mãe a descoberta. Não é que eu vivo de escrever redação até hoje? Eu disse. Parece que sim, mamãe comentou, rindo. Eu ainda não estava escrevendo “redações” semanais para o Valor. Só que ela tinha visto e lido o bastante já. Meus livros, minhas reportagens, minhas outras colunas. Aos 89 anos, mamãe teve certeza sobre o papel dela no meu amor pela escrita. Cinco dias depois dessa conversa, ela levou um tombo. E nossos encontros e telefonemas acabaram.
Gosto de imaginar que o jornal continua sendo jogado por cima de um portão celestial. Papai abre na minha coluna e se diverte, antes de passar para minha mãe ler 500 vezes.
Depois, comenta, “viu que sacanagem fizeram com o Verissimo? Morreu também”.
Ele aguarda a reação dela com um sorriso travesso no rosto. Mamãe ri como quem ouviu o marido dizer o palavrão mais horroroso do mundo, porque papai só usaria uma palavra feia bem longe dos quatro filhos.
Isabel Clemente é formada em Jornalismo pela PUC-Rio e mestre em Escrita Criativa pela Royal Holloway, University of London. E-mail: isabelclemente.writer@gmail.com