Num ano que já começou tumultuado, e com eleições presidenciais e parlamentares na agenda global, como o consumo vai reagir às incertezas políticas? A inteligência artificial (IA) conseguirá dar um fôlego novo ao ambiente geral nessas horas e, realmente, aprimorar o momento da compra? Caso o cenário mostre desaceleração, as lojas físicas conseguirão sair dessa mais fortes?
A partir deste domingo (11), começa oficialmente a maior feira de varejo do mundo, a NRF 2026 Retail’s Big Show, em Nova York, cuja maior delegação estrangeira é a brasileira, com cerca de 2,5 mil inscritos neste ano — mesmo número do ano passado — de um total de 40 mil visitantes, com palco específico apenas para IA, pela primeira vez na história da edição. O intuito é tirar o debate no campo da teoria e colocar o tema dentro da rotina dos negócios.
Uma das sessões, no domingo, vai ter como mote o fato de 90% dos projetos de IA no varejo não darem certo ainda por não ganharem escala – mas aqueles que chegam lá têm retorno de US$ 3,50 para cada US$ 1 investido, segundo material da palestra. No mesmo dia, de forma inédita, John Furner, CEO do Walmart nos EUA, e Sundar Pichai, CEO da Alphabet, dona do Google, estarão juntos num palco para falar de IA. O Valor deve cobrir a feira pelo segundo ano seguido, com informações diárias no site e nas redes sociais do jornal.
Apesar da relevância deste tema, por conta da grade com 350 palestrantes — são sessões diversas e consecutivas a cada meia hora até o dia 13 — também entrará na pauta, com destaque, o futuro das cadeias de supermercados, as diferenças de hábitos entre gerações, e até empresas referência, como a Abercrombie & Fitch, abrirão detalhes de crises de imagens vividas recentemente.
A NRF, sigla de National Retail Federation, e que apelida o evento realizado desde 1911, é a maior federação de varejo do mundo.
Sobre inteligência artificial, as grandes varejistas de capital aberto têm se mexido em temas que vão da gestão de estoque no depósito, projeções de demanda e de pedidos à forma como um robô de IA “fala” com o comprador — inclusive, nesse grupo estão mais avançados projetos de redes brasileiras como C&A, Magazine Luiza e as estrangeiras Shopee, Temu e Amazon. Só que a grande massa segue ainda testando caminhos a passos curtos.
Com base nas diferentes caravanas, lideradas por consultorias, associações e universidades, estarão entre 250 a 350 empresas brasileiras de varejo, pagamentos, consultorias e tecnologia na NRF deste ano, segundo calculou o Valor. A Fundação Getúlio Vargas (FGV), a ESPM, as consultorias BTR-Varese e Gouvêa Ecosystem, Sebrae e a CNDL, de dirigentes lojistas, lideram algumas das delegações.
“IA deve ser o tema central da NRF, não só com aplicações mais práticas, mas principalmente mais eficazes”, diz Marcos Gouvêa, diretor geral da Gouvêa Ecosystem, há 40 anos frequentador da NRF. “Ninguém vai sair espetando agentes de inteligência artificial em tudo de uma vez, porque não é nada trivial, há questões de segurança, compliance e governança, só que veremos mais camadas de aplicações agora”, afirma Alberto Serrentino, sócio e fundador da Varese Retail, que será um dos brasileiros palestrantes (a empresa levará 60 CEOs para Nova York).
No entendimento de executivos e empresários brasileiros já presentes na feira — há eventos prévios nesta semana — o Brasil acelerou a implementação de ações de um ano para cá, mas ainda precisa avançar na gestão de softwares e hardwares, na arquitetura de dados, e na captação e gestão das informações que as varejistas já possuem de consumidores, algo central para que a IA rode de forma eficiente. Isso é crucial para criar um sistema de comunicação fácil e sem ruído com o cliente, pelos “prompts” (os sistemas da AI). por onde todo o processo de venda já começa a passar nas interações hoje.
“Eu diria que não estamos tão atrasados, especialmente pelas grandes redes líderes puxando esse movimento, mas se EUA é nota 7 em termos de avanços e aplicações, Brasil é nota 4,5 ou 5 e China está lá na frente, em 8,5, pela aceleração com que implementou suas estruturas [hardwares e softwares]”, disse Fabio Neto, Sócio da StartSe, que gere uma braço educacional com foco em tecnologia, e presente no evento.
Paralelo a isso, para colocar o tema da evolução das lojas físicas no debate, normalmente foco de polêmicas em edições passadas — houve quem prevesse o fim delas nas edições no início dos anos 2000, no “boom do digital”, erro até hoje lembrado pelos corredores da NRF — haverá apresentações envolvendo grupos associados na entidade, com forte peso político no varejo americano.
Nessa lista estão as redes de departamento Macy’s, Sack’s, o grupo LVMH, e a família controladora da Ralph Lauren, além dos grupos tradicionais do setor, como a Walmart, que deve abordar o tema da IA e a sua virada de mentalidade na última década, após ter perdido mercado para a Amazon anos atrás.
Deve ser gancho para se discutir expectativa de desempenho do varejo americano e global daqui para frente, que desacelerou após a pandemia, com a escalada da inflação ao consumidor e pressões em custos, e a mexida com a cadeia de venda e distribuição das empresas após o tarifaço de Donald Trump. É algo ainda não foi totalmente assimilado pelo setor na Ásia, e suas plataformas que vendem bilhões aos EUA
Sobre isso, Maurício Morgado, doutor em administração de empresas pela EAESP/FGV, e que lidera o grupo da FGV no evento, diz que o tom nos próximos dias deve ser da busca de eficiência operacional paralelo à IA, por conta do nível de incerteza global.
Dados da consultoria Deloitte mostram desaceleração das vendas entre as 250 maiores varejistas do mundo após 2021, e com pressão sobre as margens de lucro operacional, que na última meia década passaram por mais instabilidade, com um sobe e desce ano a ano.