Os juros futuros caíram em ritmo acentuado no pregão desta terça-feira (27), véspera da decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, em uma sessão marcada não apenas pelo apetite global por risco, que beneficiou outros ativos brasileiros, como também pela expectativa mais otimista dos investidores acerca do ciclo de cortes da taxa Selic.
Uma junção de real mais apreciado, o IPCA-15 de janeiro visto como benigno e comentários de um ex-diretor do BC fizeram o mercado precificar um ciclo de flexibilização monetária mais intenso e, inclusive, colocar alguma dúvida sobre a decisão de amanhã do Copom, para a qual a ampla maioria espera manutenção da Selic em 15%.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito interfinanceiro (DI) com vencimento para janeiro de 2027 caiu de 13,68%, do ajuste anterior, para 13,575%; a do DI de janeiro de 2028 cedeu de 12,975% a 12,855%; a do DI de janeiro de 2029 foi de 12,99% para 12,85% e a do DI de janeiro de 2031 anotou forte queda de 13,305% a 13,145%.
Com o fechamento de hoje, os juros futuros completam o quinto pregão seguido em queda, em um movimento marcado também pelo achatamento da estrutura a termo da curva, à medida que os investidores não apenas precificam juros mais baixos adiante, como também decompõem parte do prêmio de risco embutido nas taxas de longo prazo.
Desde o início da sessão, o mercado de renda fixa apresentou uma tendência construtiva após o IPCA-15 de janeiro exibir alta de 0,20% na margem, ligeiramente abaixo do projetado. Além disso, parcela relevante dos economistas de mercado viram no indicador sinais de moderação de itens importantes para a política monetária do BC, como os preços do setor de serviços.
“O IPCA-15 de janeiro lega ao IPCA um avanço mais modesto em serviços (com deflação da passagem aérea), um qualitativo melhor no subjacente de serviços e uma inflação mais fraca de alimentos”, avalia Leonardo Costa, economista do ASA, que revisou a sua projeção para o IPCA cheio deste mês, de 0,33% para 0,30%.
A percepção de que o BC pode ter espaço para cortar os juros de forma mais agressiva este ano foi corroborada pelos comentários do estrategista-chefe da BTG Pactual Asset Management e ex-diretor de assuntos internacionais do BC, Tiago Berriel. Em entrevista ao Valor, ele disse ser “difícil” achar razões nos modelos macroeconômicos para que a autoridade monetária não corte a Selic já amanhã.
Com isso, o mercado passou a precificar um corte de 7,4 pontos-base (ou 0,074 ponto percentual) de redução da Selic para amanhã – o que, na prática, indica uma pequena chance de que o BC comece agora o ciclo de corte de juros. Além disso, para o fim de 2026, a curva de juros futuros embute uma Selic de 12,36% – abaixo, portanto, dos 12,50% que vinha precificando recentemente.
O mercado de opções, por sua vez, registrou um recuo da probabilidade de que a Selic permaneça em 15%, de 82,5% a 76%, variação grande para um único dia. Já a chance de que um corte de 0,25 ponto percentual aconteça subiu de 15,1% para 23%, ao passo em que a probabilidade de uma redução de 0,5 ponto oscilou de 2% para 1,8%.
Chama atenção, ainda, o volume de negociações no mercado de opções digitais: a opção de manutenção da Selic este mês teve quase 1,3 milhão de contratos negociados e superou o volume de todos os pontos individuais da curva de DIs, algo bastante incomum.
“Acaba fazendo algum preço, sim. O pessoal ouve bastante ele”, relata um operador de renda fixa ao comentar as falas do ex-diretor de assuntos internacionais do BC. Para um gestor de uma importante casa da Faria Lima, o IPCA-15 e a queda do dólar foram os principais catalisadores para o bom desempenho dos juros futuros hoje, mas as falas de Berriel também ajudaram, segundo ele.
Vale ressaltar, ainda, o recuo dos juros reais das NTN-Bs, títulos atrelados à inflação, mesmo em um dia de oferta robusta do Tesouro Nacional. A entidade emitiu 1,3 milhão de papéis, lote totalmente absorvido pelo mercado. No fim da tarde, a taxa da NTN-B com vencimento em maio de 2035 recuava de 7,64% para 7,58%.