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Nem Ciro, Cambises, Dário ou Xerxes Agora Acalmam as Coisas

Se houvesse um encantamento, uma fenda mística no tecido do tempo capaz de resgatar do pó da história as figuras que moldaram a antiguidade, talvez nem assim encontrássemos solução. Imaginem trazer de volta Ciro, o Grande; Cambises; Dário ou Xerxes. Figuras cujos nomes ecoam nos livros de história e na grandiosidade da sétima arte. Tenho para mim que, mesmo com a autoridade que os eternizou, eles olhariam para a Pérsia de hoje e, perplexos, embainhariam suas espadas, incapazes de pôr fim ao caos que lá habita.
O que assistimos no Irã transcende a política; é uma tragédia humana em ato contínuo.
Já se contam às centenas os mortos. A Guarda Revolucionária, esse braço armado que defende o status quo dos aiatolás com um fervor que mistura teologia e brutalidade, age com uma violência que pensávamos ter ficado nos livros sobre a Idade Média. A situação escalou a um ponto de não retorno.
Somos testemunhas de fragmentos de vídeos que chegam a nós quase por milagre, furando o bloqueio de um regime que cortou o sinal de internet do país inteiro por mais de 108 horas. Cento e oito horas de silêncio digital. Vejam a proporção: aqui em nossas plagas de Pindorama, trinta minutos sem conexão já são motivo para histeria coletiva, sintomas de abstinência e comoção nacional. Imaginem viver dias no escuro, isolado do mundo, enquanto o seu bairro arde.
O povo iraniano, exaurido por uma economia que não dá trégua, esmagado por uma inflação galopante e pela desvalorização humilhante de sua moeda, partiu para o tudo ou nada. O confronto com a guarda é direto. Veículos incendiados, lojas depredadas, o cheiro de fumaça e medo no ar.
O sintoma mais grave desse adoecimento social? O Grande Bazar de Teerã fechou as portas. Aquele labirinto de cheiros, cores e negócios seculares, o coração pulsante da economia popular, parou. Quando o Bazar fecha, meus caros, é porque a cidade parou de respirar. E, para coroar o drama, o governo parece não cogitar ceder nem um milímetro. A rigidez é a ante-sala da quebra.
No vácuo desse desespero, surge a figura de Reza Pahlavi, filho do último Xá, carregando o sobrenome que se confunde com a história recente do país. Ele já soltou aos quatro ventos que está pronto para retornar e assumir a gestão. Se é a solução ou apenas mais um capítulo do drama, só o tempo dirá.
Mas é preciso fazer uma distinção crucial, que escapa aos olhares menos atentos. O povo iraniano não é massa de manobra simples. Eles não são como os sírios ou os iraquianos, com todo o respeito a essas nações. Eles não são árabes; são persas. Carregam uma herança de impérios, uma identidade cultural sólida e milenar. Por conta dessa tecitura histórica, entende-se que o regime há de cair em algum momento, mas não será uma queda simples. Não será fácil. A resistência persa é feita de outro material.
O que mais entristece o observador distante é a certeza matemática de que, nesse processo, muitas vidas ainda serão perdidas. É o mundo mudando em alta velocidade, desenhando uma nova ordem de forças econômicas, militares e sociais diante de nossos olhos cansados.
Ao fim, resta a pergunta que paira, incômoda e dolorosa, sobre as ruínas da história humana: será que para o mundo seguir em frente, o pedágio precisará ser sempre pago com a moeda caríssima do sangue de tantos inocentes?
Ao que parece, a modernidade avança, mas a barbárie humana continua sendo a nossa tradição mais persistente.



Estado do Ceará

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