Ao longo da minha atuação como psicóloga corporativa, tenho acompanhado de perto os impactos que a organização do trabalho exerce sobre a saúde mental dos trabalhadores. A atualização da NR-1 representa um avanço importante ao reforçar a necessidade do gerenciamento integrado dos riscos ocupacionais, incluindo de forma clara e necessária os riscos psicossociais. Essa mudança dialoga diretamente com a realidade que vivencio diariamente nas empresas: o adoecimento mental relacionado ao trabalho tornou-se um dos principais desafios da gestão contemporânea.
Os riscos psicossociais estão ligados à forma como o trabalho é estruturado, às relações interpessoais, às demandas emocionais excessivas, à sobrecarga, à pressão constante por resultados, à falta de clareza de papéis, ao assédio e à ausência de reconhecimento. Quando esses fatores não são identificados e tratados, observo o impacto direto no bem-estar dos colaboradores e nos resultados organizacionais.
Por isso, a avaliação dos riscos psicossociais, conforme orienta a NR-1, é um passo essencial. Ela permite mapear fatores de risco, compreender a realidade da organização e identificar vulnerabilidades que muitas vezes não aparecem em indicadores tradicionais. A avaliação dá visibilidade ao que adoece silenciosamente o ambiente de trabalho e oferece dados concretos para decisões mais responsáveis e eficazes.
No entanto, faço questão de ressaltar que avaliar não basta. Na prática, nenhuma avaliação gera transformação real se não estiver acompanhada de um plano de ação estruturado. A própria NR-1 é clara ao afirmar que o gerenciamento de riscos envolve ação, acompanhamento e revisão contínua. Avaliações sem plano de ação se tornam apenas registros formais, sem impacto efetivo na saúde dos trabalhadores e na dinâmica da empresa.
O plano de ação é o elemento que transforma diagnóstico em cuidado. É por meio dele que dados se convertem em mudanças práticas, alinhadas à cultura organizacional e à realidade dos trabalhadores. Ao longo da minha experiência, observo que planos bem construídos envolvem intervenções em diferentes níveis, como revisão de processos, desenvolvimento de lideranças, fortalecimento da comunicação, prevenção do assédio, promoção do equilíbrio emocional e criação de espaços de escuta e segurança psicológica.
Falar e tratar saúde mental nas empresas é essencial para o andamento do negócio. Empresas que negligenciam esse tema enfrentam aumento do absenteísmo, presenteísmo, afastamentos, conflitos internos, queda de produtividade e dificuldades na retenção de talentos. Em contrapartida, organizações que investem em saúde mental constroem ambientes mais saudáveis, equipes mais engajadas e resultados mais sustentáveis.
É fundamental romper com a ideia de que cuidar da saúde mental é gasto. A partir da minha vivência profissional, afirmo que se trata de um investimento estratégico, com retorno humano, social e financeiro. Cuidar das pessoas reflete diretamente na qualidade do trabalho, na sustentabilidade do negócio e na longevidade das organizações.
A condução qualificada da avaliação dos riscos psicossociais e a elaboração de planos de ação consistentes fazem toda a diferença nesse processo. Mais do que atender a uma exigência normativa, vejo esse movimento como uma oportunidade de transformação da cultura organizacional, baseada na prevenção, no cuidado e no respeito à dignidade do trabalhador.
A NR-1 aponta o caminho, mas são as escolhas das empresas que determinam os resultados. Quando a avaliação dos riscos psicossociais é levada a sério e acompanhada de planos de ação efetivos, a saúde mental deixa de ser apenas discurso e passa a integrar a estratégia organizacional. Cuidar da saúde mental no trabalho é investir em pessoas, e investir em pessoas é investir no futuro da empresa.

Kelly Windmöller
Kelly Windmöller é psicóloga (CRP 04/77267), especialista em Saúde e Bem-Estar Corporativo, com ampla experiência na atuação junto a empresas na promoção da saúde mental, avaliação e gestão dos riscos psicossociais, conforme diretrizes da NR-1. Atua como Chief Happiness Officer (CHO) – Gestora de Felicidade, integrando estratégias de bem-estar, cultura organizacional positiva e desempenho sustentável.
É especialista na gestão e elaboração de planos de ação voltados à prevenção do adoecimento mental no trabalho, aliando conhecimento técnico, escuta qualificada e intervenções alinhadas à realidade organizacional. Criadora do Projeto Humanizar, desenvolve ações que conectam normas, cuidado e valorização das pessoas no ambiente laboral.
Também atua como escritora e palestrante, levando reflexões sobre saúde mental, riscos psicossociais e humanização das relações de trabalho.
Mobilizadora oficial Instituto Janeiro Branco.