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O Crime Saiu da Favela e foi para a Faria Lima

Prezados, há momentos em que a realidade de Pindorama exige não apenas estômago forte, mas uma dose cavalar de cinismo para não sucumbirmos ao desespero. Hoje e ontem, qual foi a manchete que sequestrou as atenções em todos os tabloides destas terras? A notícia de que a nossa sempre eficiente Polícia Federal decidiu “ir pra cima”, desdobrando novelos que começaram a ser puxados lá na operação Compliance Zero.
O protagonista da vez é o Master — e falo do banco, não de uma patente militar. A instituição vê-se envolta em investigações com nomes dignos de filmes de espionagem: Carbono Oculto, Compliance Zero. Mas, entre siglas e códigos, uma outra abreviação insiste em aparecer com uma constância perturbadora: PCC. Para mantermos a elegância e evitarmos problemas maiores, vamos chamá-la aqui de Parceria para Crescimento Clandestino.
Pois bem. Ontem, num movimento brusco, o Banco Central anunciou a liquidação da REAG. Não estamos falando de uma bodega de esquina, meus caros, mas da oitava maior administradora de fundos de Pindorama. O motivo? Fortíssimas evidências de que valores vultosos eram “lavados” com a delicadeza de quem enxágua roupa de seda, em favor da dita organização de fins lucrativos e modus operandi notoriamente violento.
Se analisarmos o filme que vem passando diante de nossos olhos há alguns anos, veremos que a tal “Parceria” já vinha diversificando seu portfólio. Adquiriram e legitimaram valores milionários em imóveis no nobre bairro de Perdizes, em São Paulo. Onde antes residiam apenas cidadãos abastados em suas coberturas e mega-apartamentos, agora o crime é vizinho de porta, pedindo xícara de açúcar.
A dedução lógica da organização foi de um empreendedorismo invejável: “Se já dominamos o varejo das esquinas e o mercado imobiliário, por que não entrar no high society do mercado de capitais, fundos de investimento e criptomoedas?”. Dito e feito.
Essa ambição levou a um encontro cinematográfico entre o Banco Master e a REAG. E, durante as investigações — com a apreensão de documentos, smartphones e laptops que certamente contêm mais segredos que o Vaticano —, descobriu-se que, neste imenso “saco de gatos”, muitos dos cobres que ali tilintam têm origem nos cofres da Parceria para Crescimento Clandestino.
Agora, mais do que nunca, sou obrigado a repetir a máxima que já virou bordão nestas crônicas: Pindorama, realmente, não é para amadores.
O crime evoluiu. Deixou de usar chinelos de dedo e vestiu o colete da Faria Lima. Estendeu seus braços tatuados para associar seu “capital” a outros “santos”, a essas “criaturas ilibadas” que atendem pela alcunha de banqueiros e personalidades do mercado financeiro. Gente fina, elegante e sincera, que faz os cobres de Pindorama se multiplicarem e viajarem para além-mar com a facilidade de quem despacha uma carta.
A “perguntinha” indigesta — aquela que desce quadrado, como pastel de carne frio de rodoviária — é a seguinte: até quando assistiremos, passivos, o crime se misturar em simbiose perfeita com segmentos estratégicos, importantes e cruciais para estas plagas?
Quem vê, lê e entende o que está acontecendo, fica com a nítida sensação de que as organizações criminosas já estão em todos os lugares. Elas permeiam as ruas, os bancos e, principalmente, os corredores acarpetados de Wonderland.
Sinceramente, começo a desconfiar que o único segmento onde eles ainda não fixaram residência é o de venda de borracha para panela de pressão e desentupidores de fogão a gás.
Mas, pensando bem… será que já não estão lá também? Em Pindorama, a dúvida é a única certeza.



Estado do Ceará

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