Andei revendo o mundo. Não o mundo dos salões, das gravatas de seda ou das discussões fúteis que morrem antes do café da manhã, mas o mundo-rocha, essa esfera paciente que nos atura há quatro bilhões de anos. Aproveitei o ócio dos feriados para mergulhar em documentários sobre o nosso ecossistema e, confesso ao leitor, saí da experiência com uma ponta de inveja dos dinossauros. Eles, ao menos, tiveram a decência de esperar por um meteoro; nós, mais proativos, decidimos ser o próprio impacto.
A história da Terra, vista em perspectiva, é um exercício de paciência divina. Quatro bilhões de anos para moldar oceanos, resfriar pedras, inventar o oxigênio e, num capricho de última hora — há meros 500 mil anos — permitir que o Homo erectus se pusesse de pé. Mal sabiam as amebas primordiais que aquele bípede, dotado de uma adaptabilidade irritante, viria a se tornar o mestre-de-obras do próprio apocalipse.
A natureza, essa senhora de hábitos cíclicos, já operou cinco grandes “re-starts”. Varreu a vida, limpou a casa e recomeçou em média a cada 94 milhões de anos. Mas nós, os civilizados, somos impacientes. Para que esperar milhões de anos se podemos aniquilar 70% da vida selvagem em meras cinco décadas? É um recorde de produtividade que faria qualquer CEO de multinacional chorar de emoção. Apenas nos últimos cinquenta anos, limpamos o planeta com uma eficiência que os grandes cataclismos geológicos levariam éons para atingir. Somos, sem dúvida, a espécie mais apressada da criação.
O que me encanta — se é que o sarcasmo permite o encanto — é a nossa capacidade de usar a inteligência para a insensatez. Ocupamos metade das terras habitáveis com agricultura, mas não para saciar a fome alheia; a fome continua lá, ruidosa e inconveniente, batendo à porta de milhões. Poluímos os mares com o vigor de quem odeia o azul e pescamos com o frenesi de quem deseja um deserto subaquático. Trabalhamos, dia e noite, com uma competência nunca vista, para garantir que o futuro seja apenas uma nota de rodapé num livro de história que ninguém restará para ler.
Mas o leitor, possivelmente um otimista incurável, dirá: “Ora, Themotheo, você exagera! Somos o ápice da evolução!”. Será? Somos a única espécie que mata o semelhante não pela sobrevivência, mas pelo abstrato: pelo poder, pela ganância, pela cor de um trapo pendurado num mastro ou pela simples vaidade de possuir o que não levará para a cova.
E aqui reside a suprema ironia, digna de um Brás Cubas em seu delírio. Vejo os poderosos, os magnatas de conglomerados que vendem a alma e o futuro da prole em troca de alguns zeros à direita na conta bancária. Eles parecem acreditar, sinceramente, que a morte se impressionará com o seu Curriculum Vitae. Pobre ilusão. O presidente de uma potência atômica e o gari que varre a calçada de uma vila esquecida deixarão o palco sob o mesmo figurino: uma indumentária final que não possui bolsos. Nenhum dos dois levará a prataria, o ouro ou o título de propriedade.
Para que, pergunto eu, tanta fúria destrutiva? Para que assassinar o planeta em nome de uma riqueza que tem a validade de um suspiro? Quando o último rio secar e a última árvore tombar sob o peso do progresso, quem restará para aplaudir tamanha “vitória”?
Restarão os insetos. Ah, os insetos! Esses sim, os verdadeiros herdeiros e únicos sobreviventes de todas as 5 outras extinções em massa. A barata, a libélula e o pulgão serão as únicas testemunhas do nosso glorioso fracasso. O magnata, em sua última morada de mogno, poderá finalmente repousar em paz, sabendo que seu legado de destruição será devidamente comentado e celebrado — talvez por um exército de formigas, que, ao contrário de nós, sabem exatamente para que serve o trabalho em equipe.
Que os poderosos morram felizes. Eles conseguirão a proeza de serem lembrados por um pulgão. Não deixa de ser uma posteridade charmosa. Pífia, é verdade, mas adequadamente proporcional à nossa humanidade perdida.
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