Os juros futuros reverteram a forte alta observada em praticamente todo o pregão e fecharam em queda moderada nesta terça-feira (7), após uma reviravolta dos mercados apoiada pela proposta de cessar-fogo de duas semanas do Paquistão, para a guerra no Oriente Médio, que será avaliada por Estados Unidos e Irã.
Desta forma, as taxas encontraram espaço para retirar o prêmio de risco acrescido após o presidente americano, Donald Trump, ameaçar “desaparecer” com a civilização persa.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento de janeiro de 2027 teve leve queda de 14,17%, do ajuste anterior, para 14,145%; a do DI de janeiro de 2028 cedeu de 13,83% a 13,79%; a do DI de janeiro de 2029 recuou de 13,71% para 13,68% e a do DI de janeiro de 2031 anotou baixa de 13,785% a 13,745%.
Após um pregão de estresse no mercado local de juros diante das ameaças de Trump em postagem na Truth Social, os investidores respiraram aliviados e as taxas cederam diante da notícia de que o Paquistão propôs um cessar-fogo de duas semanas, acompanhado de planos para que o Irã reabra o Estreito de Ormuz e os Estados Unidos estendam o prazo para a reabertura do canal além do limite original de 21h (de Brasília) desta terça-feira.
O comportamento dos juros futuros e dos demais mercados globais e domésticos nesta terça-feira evidencia a volatilidade dos ativos em relação ao noticiário da guerra no Oriente Médio. “Estamos em um mercado movido por manchetes”, define Norberto Alves, gestor de renda fixa ativa da Reach Capital.
“Qualquer ‘headline’ fez e ainda faz muito preço”, comenta, ressaltando que a volatilidade dos juros no Brasil e no mundo tem sido maior, uma vez que os investidores estavam bastante posicionados nestes mercados à espera de ciclos de flexibilização monetária.
Nesse contexto de elevada instabilidade, a Reach Capital tem aproveitado momentos de devolução de prêmios, como ocorreu na semana passada, para reduzir a exposição à renda fixa local. Além disso, a casa alongou posições que se concentravam na parte curta da curva a termo para trechos mais intermediários, conta Alves.
“Alongamos parte das nossas posições aplicadas (que apostam na queda das taxas) com expectativa de que, por mais que o ciclo de cortes [da Selic] tenha começado em um ritmo bem menor do que o mercado projetava, caso a guerra caminhe para algum acordo, o BC possa cortar em um ritmo de 0,50 ponto percentual”, diz o gestor.
Mas, sem clareza sobre o que vai acontecer no Oriente Médio, o ideal é o Comitê de Política Monetária (Copom) adotar uma comunicação conservadora e se manter nos cortes de 0,25 ponto da Selic, avalia Alves. O cenário-base da Reach Capital inclui uma Selic de 13% no fim do ano, mas o profissional comenta que a probabilidade de isso não acontecer é alta, dada a incerteza do contexto atual.
Esse grau elevado de incerteza se refletiu, inclusive, nas reuniões entre economistas e a direção do BC realizadas hoje. Pessoas que participaram dos encontros relataram, sob condição de anonimato, que muitos dos presentes ainda revisam seus cenários e preferiram não se comprometer com projeções sobre a Selic, inflação e atividade.
Em geral, a percepção é de que o BC está “tateando” o cenário e continuará a cortar os juros em 0,25 ponto percentual, a menos que haja uma deterioração das expectativas de inflação de 2027 e 2028 que o obrigue a paralisar o ciclo de flexibilização monetária, pondera um participante de uma das reuniões.
“O comentário foi na linha de ajustar esse ciclo de calibragem. Ninguém falou em retomada de aumento da Selic, é muito mais sobre ajustar o ritmo dos cortes ao cenário atual, tendo em vista os impactos da guerra”, comentou outra fonte. Segundo ele, ainda há muita incerteza sobre até que momento o BC poderá reduzir os juros e qual será o tamanho total do ciclo.