A incerteza geopolítica – impulsionada em grande parte pela política econômica do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, – tomou conta dos mercados nas últimas semanas, com o dólar caindo para mínimas de quatro anos. Enquanto isso, os investidores estão buscando ativos de refúgio, elevando os preços do ouro a recordes históricos de mais de US$ 5.500 a onça.
Isso deu à China a oportunidade de promover a própria moeda como uma alternativa viável.
No fim de semana, a principal revista do Partido Comunista Chinês publicou declarações do presidente Xi Jinping que delinearam planos para transformar o renmimbi em uma moeda de reserva global. Esse é o papel que o dólar americano desempenha atualmente.
Segundo a revista Qiushi, Xi Jinping disse a autoridades governamentais que a China deveria aspirar a estabelecer “uma moeda forte, amplamente utilizada no comércio internacional e no câmbio”, com um “banco central poderoso” e a capacidade de atrair investimentos e influenciar os preços globais.
Os comentários do líder chinês foram feitos em privado em 2024.
A China passou mais de uma década tentando integrar o renmimbi aos mercados internacionais e garantir a estabilidade dele como moeda global. E as crescentes preocupações com a política econômica dos EUA abriram espaço para isso.
A decisão de Trump de impor tarifas sobre os principais parceiros comerciais diminuiu a confiança no crescimento econômico dos EUA e no valor do dólar. Uma mudança na liderança do Federal Reserve – para a qual Trump indicou Kevin Warsh para suceder Jerome Powell, com quem teve repetidos desentendimentos – aumentou a incerteza em torno da política monetária e das taxas de juros dos EUA.
Os investidores vêm reduzindo a exposição ao dólar desde o ano passado, e a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, defendeu que o euro assuma um papel mais importante nas finanças globais. A ameaça de tarifas e sanções impostas pelos EUA também levou algumas nações a buscarem formas de reduzir a dependência do dólar.
“Para que as pessoas usem o renmimbi, é preciso criar um nicho de mercado, e isso tem sido muito difícil”, apontou Dinny McMahon, chefe de pesquisa de mercado da empresa de pesquisa Trivium China.
Por que controlar uma moeda de reserva global?
O dólar tem sido fundamental para a economia global por mais de 80 anos, desde a Segunda Guerra Mundial e o Acordo de Bretton Woods, que estabeleceu o dólar como padrão-ouro e atrelou outras 44 moedas a ele. A forte demanda por dólares dá aos EUA mais influência na obtenção de empréstimos no exterior a taxas baixas e na imposição de sanções a outras nações.
O Fundo Monetário Internacional reconhece outras sete moedas de reserva importantes, incluindo o euro, o renmimbi, o iene japonês, o dólar canadense, o dólar australiano, a libra esterlina e o franco suíço. A China tem buscado fortalecer a posição da sua moeda como forma de se proteger da hegemonia e das pressões financeiras dos EUA, bem como de aumentar a influência política e econômica no comércio e nas finanças globais.
O que a China fez para fortalecer o renmimbi?
A China adotou medidas para tornar o renmimbi mais atraente para investidores estrangeiros, como aumentar o acesso a títulos chineses, como ações, títulos de renda fixa e commodities, e simplificar os pagamentos internacionais.
O fortalecimento dos laços comerciais com as economias em desenvolvimento também reforçou os argumentos a favor do aumento do uso do renmimbi em transações internacionais. O uso do renmimbi em liquidações comerciais atingiu níveis recordes após as nações ocidentais imporem sanções à Rússia devido à invasão da Ucrânia, visto que a China permaneceu um dos principais parceiros comerciais da Rússia.
O governador do banco central da China, Pan Gongsheng, já afirmou que o renmimbi era a maior moeda de financiamento comercial do mundo e a terceira maior moeda de pagamento, em comentários que defendiam o desenvolvimento de um sistema monetário “multipolar”.
Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – o bloco conhecido como BRICS – também já cogitaram a ideia de criar uma nova moeda de reserva, algo que Trump disse que responderia com tarifas de 100% caso a ideia fosse adiante.
O renmimbi poderia realmente substituir o dólar?
Um sistema financeiro global que dependa principalmente do renmimbi ainda está longe de ser realidade. De acordo com dados do FMI, o dólar americano representou cerca de 57% das reservas cambiais no ano passado, o euro cerca de 20% e o renmimbi cerca de 2%. A China não declarou explicitamente planos para superar o dólar, mas sim para expandir o papel da própria moeda em comparação.
Embora a China tenha apresentado o renmimbi como uma moeda conveniente e segura para o comércio global, especialistas afirmam que os rígidos controles sobre a movimentação de dinheiro para dentro e para fora do país afastarão investidores e instituições financeiras de dependerem excessivamente das reservas em renmimbi. A China também pode preferir manter um valor do renmimbi mais baixo em comparação com outras moedas, a fim de sustentar a economia dependente das exportações.
“Dadas as mudanças no sistema financeiro global e na geopolítica, Pequim certamente vê aqui uma oportunidade para ganhar terreno”, analisou McMahon.