O documento enviado por Flávio Bolsonaro ao governo americano para contestar as tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil é considerado inócuo do ponto de vista comercial e, politicamente, pode fazer com que o pré-candidato do PL à Presidência da República se afaste do eleitorado independente, na avaliação de especialistas ouvidos pelo Valor.
Flávio encaminhou na quinta-feira (2) uma carta ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) para comentar a proposta de Washington de impor a produtos brasileiros tarifas de 25%, resultado preliminar da investigação contra o país com base na Seção 301.
Na mensagem, o senador propõe, entre outros pontos, que a decisão sobre aplicar a sobretaxa seja adiada para depois das eleições no Brasil. A sugestão foi criticada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato à reeleição, que falou em “traidores da pátria” ao comentar o assunto.
O texto assinado por Flávio sustenta que as tarifas ao Brasil beneficiariam politicamente o governo Lula. O petista tem reforçado o discurso da defesa da soberania, diante da ofensiva americana, que chegou a ser incentivada no ano passado pela família Bolsonaro como forma de pressionar contra o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da trama golpista.
A carta propõe medidas para os pontos criticados pela Casa Branca. No caso de tarifas impostas ao etanol americano, sugere uma negociação com o objetivo de zerar tarifas entre ambos os países. O senador também comenta a crítica do governo americano ao Pix, defendendo que o meio de pagamento não representa uma competição desleal em relação a empresas americanas. Ele sugere reduzir impostos a companhias de cartão de crédito, além de um compromisso de que o sistema não se conecte a sistemas fora do Ocidente.
Para Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e sócio da BMJ e do escritório Barral Parente Pinheiro, a carta não tem efeito do ponto de vista técnico.
“A carta descreve um cenário político no Brasil e fala até sobre posição do governo Lula em relação à China, mas não é essa a discussão técnica que está em jogo”, diz o especialista, em referência ao processo da seção 301 dos EUA. “O que está em discussão, agora na manifestação e depois na audiência, são questões técnicas e jurídicas sobre o relatório já apresentado no USTR”.
Barral acrescenta que as sinalizações dadas ao USTR por Flávio Bolsonaro sobre o Pix e isenção tarifária para o etanol americano, por exemplo, são vagas e dependeriam de processos internos dentro do Brasil.
“Com relação às propostas que fez sobre impedir que o Pix saia da esfera ocidental ou zerar as tarifas sobre o etanol americano, isso dependeria de negociações que estão em curso e são complexas. Envolve a cota de açúcar, compromissos estabelecidos na OMC. Não é tão simples assim” observa.
Na visão de Barral, as reações no setor privado à carta de Flávio Bolsonaro foram contidas, até o momento, justamente por ela ser vaga e não entrar nos aspectos técnicos que estão em discussão na seção 301.
“Além da carta ser vaga demais, não é uma proposta de governo e ainda há uma eleição adiante que ele precisaria ganhar efetivamente para pensar em colocar algo em ação”, conclui.
Do ponto de vista político, a movimentação do senador, que inclui o envio da carta e a participação em audiência pública em Washington, marcada para a próxima semana, faz parte de uma estratégia para reduzir prejuízos políticos de sua pré-campanha, segundo cientistas políticos.
Para o cientista político e professor na Florida International University Guilherme Casarões, a principal finalidade da estratégia é eleitoral. Segundo ele, ao participar da audiência e encaminhar o documento ao governo americano, Flávio busca demonstrar aos eleitores que está atuando em defesa dos interesses do país em contraposição ao governo Lula. No entanto, Casarões avalia que o conteúdo do texto revela outra prioridade.
“Os argumentos têm pouco a ver com a defesa de interesses econômicos nacionais e mais a ver com o rumo da campanha de Flávio à Presidência”, afirma.
Na avaliação do professor, ao condicionar o calendário das tarifas a um cálculo eleitoral, a iniciativa acaba reforçando justamente a percepção de interferência externa que o senador tenta evitar.
Na mesma linha, o cientista político e sócio da Tendências Consultoria Rafael Cortez avalia que o episódio dificilmente provocará mudanças relevantes na disputa presidencial. Para ele, o cenário eleitoral continua sendo determinado, sobretudo, pela avaliação do governo Lula, que mantém a eleição competitiva diante dos índices elevados de desaprovação ao presidente.
Ainda assim, Cortez considera que tanto o documento quanto a participação de Flávio na audiência têm claro objetivo eleitoral, mas tendem a dificultar sua aproximação com o eleitorado independente — aquele que não está fortemente identificado nem com o lulismo nem com o bolsonarismo.
Segundo o cientista político, a associação com Donald Trump e com as tensões entre Brasil e Estados Unidos tende a afastar justamente esse segmento.
Essa estratégia, segundo Casarões, não é inédita. O professor afirma que o bolsonarismo vem tentando mobilizar autoridades americanas há anos e lembra que audiências semelhantes no Congresso dos Estados Unidos, das quais participou Paulo Figueiredo, serviram de base para iniciativas posteriores contra o Brasil.
Nesse contexto, diz, a ida de Flávio à audiência busca reforçar perante seus eleitores a narrativa de que está atuando para proteger os interesses nacionais, embora, em sua avaliação, o conteúdo do documento esteja muito mais voltado à disputa eleitoral do que às relações comerciais entre os dois países.
Efeito sobre decisão dos EUA
Sobre a possibilidade de as iniciativas de Flávio influenciarem a decisão do governo de Donald Trump, os especialistas também demonstram ceticismo. Casarões afirma que dificilmente uma manifestação na audiência pública alterará o rumo das decisões já em curso em Washington, embora possa influenciar o momento em que elas sejam anunciadas.
Para ele, a capacidade de intervenção do senador sobre a política comercial americana é bastante reduzida. Cortez também considera improvável que a estratégia produza ganhos expressivos para Flávio, mesmo na hipótese de Trump atender ao pedido.
Segundo ele, o principal obstáculo não é econômico, mas político: a elevada rejeição do presidente americano entre parcelas importantes do eleitorado brasileiro.
Na sua avaliação, ainda que Trump suspenda as tarifas e deixe claro que a decisão ocorreu após os apelos do senador, o benefício eleitoral seria limitado justamente porque a aproximação com o líder americano dificulta a conquista do eleitorado independente.
O cientista político pondera que esse seria o único cenário em que Flávio poderia obter algum ganho político — ainda assim, modesto e concentrado no campo simbólico. Nos demais cenários, o presidente Lula tende a sair fortalecido.
Se as tarifas forem suspensas sem que Trump atribua a decisão à atuação de Flávio, o governo poderá apresentar o resultado como fruto da negociação diplomática conduzida pelo Palácio do Planalto.
Se forem mantidas, Lula terá espaço para associar a medida à proximidade histórica do bolsonarismo com Trump e às iniciativas da família Bolsonaro junto ao governo americano.
“O Lula ganha nos dois pontos”, resume Cortez, ressalvando apenas a hipótese de Trump afirmar explicitamente que recuou por influência de Flávio.