A China não disputa uma Copa do Mundo há mais de duas décadas, mas a ausência da seleção nacional não impediu que os torcedores chineses acompanhassem em massa os jogos e nem que as marcas aproveitassem a oportunidade comercial gerada pelo torneio.
A seleção chinesa só conseguiu se classificar uma vez para a Copa, em 2022, quando perdeu as três partidas da fase de grupos. Ainda assim, a maior torcida de futebol do mundo – estimada em 289 milhões de pessoas, segundo o evento Social Football Summit – encontrou muitos motivos para acompanhar o torneio, que termina hoje com a final entre Espanha e Argentina, em Nova Jersey, nos EUA.
Apesar dos horários pouco favoráveis para a Ásia, a Copa do Mundo deste ano caminha para ser a mais assistida pelos chineses. Entre 12 de junho e 8 de julho – durante a fase de grupos e o mata-mata, a audiência do canal esportivo da estatal CCTV entre 2h e 6h, horário em que ocorreu a maior parte das partidas, aumentou 1.701% em relação ao ano anterior.
O aplicativo chinês RedNote também transmitiu gratuitamente todas as partidas, além de reprises e melhores momentos, com autorização da CCTV. A imprensa chinesa informou que a plataforma investiu 1,7 bilhão de yuans (US$ 250 milhões) pelos direitos de transmissão.
Mesmo sem jogadores em campo, a China foi protagonista no torneio de outras formas. O árbitro Ma Ning ganhou destaque ao liderar uma equipe de três chineses que apitou uma partida da fase de grupos entre Equador e Curaçao. Foi o primeiro jogo de Copa do Mundo comandado por um árbitro chinês em 24 anos.
O polo atacadista de Yiwu esteve a todo vapor produzindo bichos de pelúcia de jogadores e outros produtos licenciados. A imprensa estatal chinesa também informou que as bolas tecnológicas Trionda, da Adidas, foram fabricadas na província de Guangdong, embora outras reportagens apontem um fornecedor no Paquistão.
O anúncio original da Adidas não informou o local de fabricação. Em 2022, a Reuters informou que uma empresa paquistanesa produziu bolas para treinamentos e vendas comerciais, enquanto as bolas oficiais com sensores foram fabricadas na China.
Alguns torcedores — e também marcas — passaram a apostar em jogadores de outras seleções.
O atacante norueguês Erling Haaland tornou-se um fenômeno nas redes sociais chinesas e conquistou milhões de seguidores após estrelar uma campanha da marca de bebidas fitoterápicas Wanglaoji. No vídeo, que viralizou, Haaland fala mandarim para promover o rótulo internacional da empresa, Walovi.
O jogador do Manchester City, conhecido por seus 1,95 metro de altura e força física, também protagoniza uma campanha da fabricante chinesa de eletrodomésticos Midea. Em um dos vídeos, ele treina carregando uma máquina de lavar nas costas e faz agachamentos com uma geladeira.
A Midea, que busca expandir seus negócios na Europa, informou nesta semana que entregou às pressas 200 mil aparelhos de ar-condicionado à França em apenas sete dias, em meio à intensa onda de calor.
A Puma, marca de artigos esportivos que recentemente passou a ter participação minoritária da chinesa Anta, forneceu uniformes e chuteiras para quase tantas seleções quanto as rivais Nike e Adidas. Outra grande marca chinesa, a Li Ning, também apareceu no torneio por meio do jogador cabo-verdiano Willy Semedo, visto usando seus calçados durante as partidas.
O estádio nacional de Cabo Verde foi construído com ajuda da China há mais de uma década — uma contribuição para a ascensão da seleção africana à condição de “azarão simpático”, fato amplamente destacado pela imprensa estatal chinesa.
A gigante chinesa de tecnologia Lenovo, controlada pelo Estado, forneceu a tecnologia que cria avatares em 3D dos jogadores utilizados na marcação de impedimentos, além de um sistema de estabilização baseado em inteligência artificial para melhorar as imagens captadas pelas câmeras usadas pelos árbitros.
Tudo isso sinaliza uma mudança sutil na estratégia das empresas chinesas para lucrar com a Copa do Mundo: menos foco em grandes contratos de patrocínio e maior ênfase em atuar como fornecedoras.
Dos 16 patrocinadores oficiais da Fifa, apenas três são chineses: Lenovo, China Mengniu Dairy e a fabricante de televisores Hisense. Juntas, investiram cerca de US$ 500 milhões no torneio, segundo relatório da Hua Chuang Securities divulgado em junho.
O número contrasta com a Copa de 2022, no Catar, quando seis empresas chinesas investiram quase US$ 1,4 bilhão e fizeram da China a principal origem dos recursos de patrocínio. Hoje, as empresas chinesas gastam menos em publicidade do que as americanas.
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Alguns patrocinadores do passado enfrentam dificuldades financeiras. Segundo a imprensa, a Fifa cancelou os direitos de patrocínio do conglomerado chinês Dalian Wanda Group, altamente endividado, após a empresa deixar de cumprir pagamentos previstos em 2024. O grupo já foi presença constante em grandes eventos esportivos internacionais, incluindo a Copa do Mundo.
Quem não enfrenta falta de recursos é a Fifa. A Copa do Mundo de 2026 deverá gerar a maior receita da história da entidade. A própria Fifa estima arrecadar um recorde de US$ 11 bilhões com o torneio, quase o dobro do obtido na Copa do Catar.
Organizada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México, a Copa de 2026 também é a maior da história em número de participantes, com 48 seleções. O presidente da Fifa, Gianni Infantino, afirmou que a entidade estudará ampliar esse número para 64 equipes na Copa de 2030.
Isso poderá facilitar o caminho da China rumo à classificação, já que o país enfrenta dificuldades há anos para montar uma seleção masculina competitiva, apesar da ambição do governo de transformar o país em uma “superpotência do futebol” e dos sinais de progresso nas categorias de base.
Alguns especialistas, porém, demonstram preocupação com o desempenho da China mesmo em uma Copa ampliada. Questionado recentemente sobre essa possibilidade, o conhecido comentarista chinês Dong Lu foi direto.
“Acreditem em mim: no estado atual da seleção chinesa, o melhor para os torcedores é assistir à Copa de fora”, afirmou. “Não participar é a opção menos estressante. Ir ao torneio só traria mais sofrimento e constrangimento.”