Um a cada quatro jogos da Copa do Mundo de 2026, na América do Norte, poderão ser disputados em condições de forte calor. Em 32 anos, desde a última vez em que os Estados Unidos sediaram uma Copa do Mundo, em 1994, o risco de calor extremo dobrou.
Pesquisadores da World Weather Attibution, iniciativa criada em 2014 e que tem pesquisadores do Imperial College London da Red Cross Red Crescente Climate Centre, lançaram um estudo hoje alertando que a mudança climática será um fator importante na COPA do Mundo da FIFA de 2026 – a big player, como diz o relatório.
Estudos da WWA observam a vulnerabilidade e a exposição em comunidades e países para compreender quais ações podem aumentar a resiliência a futuros eventos climáticos extremos.
Os jogos acontecerão entre 11 de junho e 19 de julho em três países: nos EUA, no Canadá e no México. Serão sediados em 16 cidades e a final, em 19 de julho, acontecerá em Nova York.
Como os jogos acontecem em uma ampla distribuição geográfica, o esperado é que as condições ambientais variem muito entre as cidades-sede. Partidas em cidades no Canadá e ao longo da costa do Pacífico dos EUA provavelmente terão temperaturas mais amenas.
Mas jogos realizados mais ao sul e no interior dos EUA e do México podem estar sujeitos a temperaturas bem mais altas, perto dos 30° ou mais. Os níveis de umidade podem ser altos ao longo da costa e no Centro-Oeste, tornando o calor mais perigoso.
A combinação de temperaturas altas com altos níveis de umidade são perigosas para o corpo humano, especialmente durante a prática de atividades físicas fortes, afetando não só o desempenho, mas com risco de insolação. Torcedores também podem ser afetados.
Os pesquisadores usaram métricas que combinam umidade, calor (luz solar direta) e movimento do ar (HBGT, na sigla em inglês). Este mix pode afetar a capacidade do corpo de regular sua temperatura interna via transpiração e troca de calor.
O estudo dia que as regras do sindicato global dos jogadores (FIFPRO) recomendam que, quando a temperatura WBGT atingir 26° ou mais, o estresse se torna um risco real e os jogos devem ter pausas para resfriamento. Com 28°C WBGT ou mais, as condições são consideradas inseguras para o jogo e a recomendação é o adiamento. A FIFA, contudo, considera adiamento apenas em níveis de WBGT acima de 32°C.
O estudo considerou as tendências nos valores máximos de WBGT ente 11 de junho e 19 de julho de cada ano e combinou com modelos climáticos para estimar o papel da mudança do clima causadas pelo homem no aumento do índice entre 1994 e 2026.
O modelo estatístico mostrou que na Copa do Mundo deste ano espera-se que 26 jogos aconteçam em condições de pelo menos 26°C WBGT, sendo que destes, nove jogos serão em estádios sem refrigeração. Em 1994 a estimativa seria que 21 jogos estivessem nessas condições, e só seis sem refrigeração.
A estimativa indica que para o limite de 28°C, o impacto das mudanças climáticas provocadas pelo homem é mais forte. A previsão é que cinco jogos ocorram nessa condição, em comparação a três em 1994.
“Os jogos deste verão serão disputados em condições ainda mais quentes devido às mudanças climáticas, colocando jogadores e torcedores em risco”, reagiu Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção do Clima, a UNFCCC.
“Precisamos agir mais rapidamente para proteger o esporte que amamos e todos que o assistem”, seguiu. “Isso significa intensificar a transição decisiva para a energia limpa, o que pode ser um divisor de águas para as pessoas em todo o mundo”, seguiu.
O estudo diz que o jogo entre Holanda e Tunísia, com início às 18h, no horário local de Kansas City tem 7% de chance de ultrapassar o limite de 28°C.
Há alto risco, segundo o estudo, nos jogos nos estádios abertos de Miami, Kansas City e também Nova Iorque, onde será disputada a final, em 19 de julho.
A probabilidade de eventos de calor atingirem ou ultrapassarem os limites de temperatura de WBGT de 26°C, 28°C e 32°C é substancialmente maior durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026 do que na última vez em que o torneio foi sediado nos Estados Unidos, em 1994”, diz o texto.
Há um alerta que, embora os estádios com ar condicionado possam reduzir a exposição ao calor dentro dos locais dos jogos, “condições perigosas persistirão para o público que assiste os jogos”.
Friederike Otto, professora de ciência do clima no Imperial College de Londres e cofundadora da World Weather Attibution diz que a pesquisa “demonstra que as mudanças climáticas têm efeito real e mensurável sobre a viabilidade de organizar Copas do Mundo durante o verão no hemisfério Norte”, segundo a AFP.
“Ultrapassar os limites de 26°C e 28°C é extremamente provável agora nos estádios com ar-condicionado, mas também há um aumento significativo na probabilidade de atingir esses limites em alguns estádios a céu aberto, como Miami, Kansas ou Filadélfia”, continua.
“Embora as Copas do Mundo sejam frequentemente disputadas no verão do hemisfério norte, a grande variação nas condições climáticas é exclusiva deste evento e pode tornar a experiência especialmente difícil para os jogadores”, diz a nota do WWA.
O texto do estudo recomenda: “Garantir que o futebol possa continuar a ser apreciado com segurança durante os verões do hemisfério Norte depende, portanto, não apenas de medidas de adaptação, mas também de esforços rápidos de mitigação para a transição para longe da queima de combustíveis fósseis”.