Search
Close this search box.
Search
Close this search box.

Crônica do Ferreiro e o Martelo Elétrico

Tenho escutado, com uma frequência que beira a litania, o coro dos aflitos contra o avanço das Inteligências Artificiais. Que elas tomarão os empregos. Que pulverizarão profissões. Que o apocalipse, desta vez, virá na forma de um algoritmo.
Ora, vejamos. Uma IA, até onde meus estudos e as notícias do mundo me permitem compreender, é uma ferramenta. Um martelo elétrico de proporções inimagináveis, criado para auxiliar a mão humana a realizar tarefas numa velocidade que nossos cérebros — que, convenhamos, abrigam tanto a genialidade quanto a lista de compras do supermercado — jamais alcançariam. Dados que levaríamos um ano para garimpar, ela nos entrega em segundos. Onde está a tragédia em ganhar tempo?
É quando exponho essa lógica que ouço de alguns colegas a frase que, confesso, é a que mais me diverte: “Ah, Themotheo! Assim fica fácil! Usando IA? Até eu!”.
É neste ponto que reside toda a graça da situação. Permitam-me uma breve digressão. Aos dezesseis anos, minha mãe, uma senhora que combinava a flexibilidade estratégica de um general prussiano com a doçura de um sargento de infantaria que dormiu mal, submeteu-me ao famoso teste de Q.I., dado a minha mania de ficar questionando professores, sobre detalhes quase não perceptíveis, em matérias acadêmicas e suas complexidades, além de não ter paciência em esperar a explicação ou termino do diálogo de algum tema complexo, por já ter encontrado o resultado mentalmente, e cujo resultado do citado teste foi um número cabalístico: 142. Aos dez, presenteou-me não com uma bola, o que seria de se esperar, mas sim, com um tabuleiro de xadrez e um manual de instruções, um presente que, para meu espanto, adorei, pois me ensinou a enxergar as múltiplas estradas que se abrem a cada movimento no tabuleiro. Seja do jogo ou da vida.
Some-se a isso um vício que cultivo desde os doze anos: a tara por livros e principalmente, informação. Essa mania, claro, hoje é combustível para a chacota afetuosa de meus filhos e daquela figura folclórica que manda na casa e em mim (mas conhecida como esposa!). Há 29 anos ela repete a narrativa habitual: “Para que ver telejornais em sei lá quantos idiomas e ler tantos jornais (da terra do “espantalho de milharal”, do Reino Unido, da Itália, Rússia, Alemanha, França, Japão, Espanha e até dos ‘Hermanos’ argentinos), se a notícia é a mesma? Não seria melhor, largar disso e ver uma série, um filme? Ou você, vai terminar passando mal, com tanta notícia pesada!”.
E é aqui, caríssimos leitores, que o martelo encontra o ferreiro.
Uma IA, por ser um algoritmo, é um espelho daquele que a comanda. Se você lhe fizer uma pergunta rasa, simples e sem profundidade, ela lhe devolverá exatamente isso: uma bobagem bem formatada. A máquina não tem repertório; ela tem acesso. O repertório, o conhecimento acumulado, a capacidade de cruzar um pensamento de Confúcio com um dado do mercado financeiro, ainda é, felizmente, uma atribuição nossa.
Por isso, quando utilizo múltiplas IAs em paralelo, não estou terceirizando o pensamento. Estou otimizando o trabalho braçal. Delega-se a uma a pesquisa, a outra a curadoria, a uma terceira a organização. Poupa-se um tempo absurdo para que a mente humana possa fazer o que lhe é insubstituível: alinhar, questionar, criar e, se preciso, formatar um Cálculo de Ponderação de Variáveis Convergentes para dar sentido à montanha de dados brutos que a máquina me entregou. (Eu sabia que as cadeiras de probabilidade, estatística e matemática 1 e 2 seriam de alguma utilidade!)
Minha alegria se completou neste fim de semana, quando um amigo me enviou uma entrevista com ninguém menos que Garry Kasparov, a propósito de sua passagem por São Paulo. O mestre, que já foi derrotado pela máquina, resumiu a ópera com a genialidade que lhe é peculiar: a questão não é competir, mas colaborar.
Portanto, aos que roem as unhas com medo do futuro, meu conselho é de uma simplicidade franciscana: o martelo elétrico não tornará o amador um mestre ferreiro. Apenas dará ao mestre ferreiro a capacidade de construir catedrais.
Aprimorem-se. O futuro não pede permissão para chegar. Ele apenas bate à porta. É prudente saber quem está do outro lado antes de abrir.



Estado do Ceará

Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *