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Marco nacional pela voz da mulher, Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno celebra 90 anos

Marco nacional pela voz da mulher, Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno celebra 90 anos

Espaço cultural mantido pelo Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura, preserva a chama idealizada por Henriqueta Galeno (1887-1964) na luta pelo direito das mulheres contarem a própria história

Presidente da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno, Fátima Lemos

É manhã de quinta-feira e a Rua General Sampaio, no Centro de Fortaleza, espelha o entusiasmo popular com a Copa do Mundo. O verde amarelo predomina entre os ambulantes das calçadas e a Casa de Juvenal Galeno, de portas abertas aos visitantes, testemunha toda aquela movimentação.

Equipamento cultural dos cearenses, a edificação centenária mantida pelo Governo do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult Ceará), celebra uma referência à luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Em 2026, a Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno completa 90 anos em prol da voz e protagonismo de escritoras, pesquisadoras, jornalistas, professoras, poetisas e demais autoras, em escrever sobre a própria história.

De 1936 até hoje, as beletristas (como são denominadas as integrantes da Ala Feminina), se reúnem mensalmente, no segundo domingo, para compartilhar ideias, respirar a criatividade, lançar e promover obras literárias. Assim, a associação voltada à participação feminina na escrita preserva a semente plantada por Henriqueta Galeno (1887-1964).

Essa importante história da cultura cearense é contada pela presidente da Ala Feminina, Fátima Lemos, e pela beletrista Evan Bessa. O encontro acontece no Auditório Henriqueta Galeno, palco das reuniões protagonizadas pelo grupo. Cuidadosa e atenta, a equipe que trabalha no equipamento estadual de cultura nos recebe para mais um dia na histórica jornada da Casa Juvenal Galeno.

Beletrista da Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno, Evan Bessa

“Naquela época, uma grande mulher que escrevia bem, ou publicava com pseudônimo ou engavetava as poesias e diários. Isso inquietava Henriqueta e ela começou a trazer o pessoal da sociedade para falar não só de receitas culinárias, criar filhos, marido, mas para falar de literatura e assuntos da sociedade. Ela teve essa visão”, contextualiza a presidente da Ala Femina da Casa Juvenal Galeno, Fátima Lemos.

“A Ala iniciou porque as mulheres da sociedade da época não tinham chance de escrever. A mulher, naquela época, não tinha esse protagonismo. Elas frequentavam a Casa Juvenal Galeno e a Ala, pois queriam escrever e assim ter uma forma de sair de casa e também produzir alguma coisa”, completa a beletrista Evan Bessa.

Ala Feminina em plena atividade

A edificação que preserva o legado do grande poeta cearense foi construída em 1886. Anos mais tarde, em 1919, as filhas Júlia e Henriqueta transformam a residência em centro de cultura. Neste território efervescente às artes, exatamente no dia 27 de setembro de 1936, é criada a Ala Feminina.

Outro destaque nessa linha do tempo aconteceu em 1949, quando Cândida Galeno (1918-1989), neta de Juvenal Galeno, cria a “Revista Jangada” para divulgar e promover a literatura feminina. Em 1971, a Ala Feminina publica o livro “Mulheres do Brasil”. Durante a conversa, a professora e escritora Fátima Lemos nos apresenta as obras originais e nos conta com orgulho que o legado destas publicações segue firme.

Primeira edição da Revista Jangada

Assim, a Ala Feminina completa nove décadas de atuação em bom momento. Hoje, a associação conta com 36 beletristas atuantes. Após 21 anos estagnada, a Revista Jangada retomou o prumo de sua valiosa história com o lançamento das edições 37 e 38. Outra vitória será a chegada do sétimo volume de “Mulheres do Brasil”.

“A Revista Jangada é uma das partes importantes que eu considero da Ala, por ser a voz das beletristas. Nossas produções estão aqui. Acredito que ela não sairá mais de cena. Seja anual, semestral, precisamos manter essa história”, assinala a presidente.

Nesse momento, a Ala Feminina produz a Revista Jangada número 39 e o ponto alto da próxima edição é iluminar os 90 anos da Ala e o fato da associação ser a entidade mãe dessa Casa. A poesia de Juvenal Galeno prossegue: ‘Minha jangada de vela, que vento queres levar? tu queres vento da terra, ou queres vento do mar?’.

Lugar de encontro e transformação social

“A Casa é constantemente visitada. Alunos de universidades e escolas querem saber como nasceu a Casa, porque ela existe. Essa frequência é constante, sabe, de universitários e professores, de jornalistas que vêm aqui, de pessoas interessadas do Sul e do Norte. Em Portugal, temos uma entidade, a Rede Sem Fronteiras, que veio conhecer e ficou abismada com o trabalho que a Ala Feminina faz”, situa a beletrista Evan Bessa.

No correr das décadas, a centenária Casa de Juvenal Galeno reuniu intelectuais, jornalistas, artistas, docentes, cientistas e demais defensores do saber e da Cultura. “Esse movimento literário não parou desde a sua fundação. São mais de 20 entidades presentes aqui e não vou enumerar para não correr o risco de errar. Por isso é uma casa tombada, que está sob a orientação e cuidados da Secretaria de Cultura, porque de fato eu diria que essa é a maior Casa de Cultura do Estado do Ceará”, afirma a presidente da Ala Feminina.

Auditório Henriqueta Galeno, palco das reuniões protagonizadas pela Ala Feminina

“A Ala nasceu para dar voz a mulher e ainda hoje, 90 anos depois, a mulher ainda precisa de voz. Isso é triste, podemos dizer. A mulher conquistou espaços, mas ainda vemos o feminicídio, a violência e questões mesmo enraizadas até na fala, na cultura. Assim, ainda hoje, manter uma entidade feminina para tratar as questões femininas ainda é importante”, alerta Fátima Lemos.

“A Casa de Juvenal Galeno tem uma característica peculiar que representa o povo do Ceará, é a hospitalidade, uma casa de portas abertas, com afetividade, histórias e muitas contribuições para a memória literária e artística do nosso povo”, compartilha Maura Isidório, Orientadora da Célula do Livro, Leitura e Literatura (Celiv) da Coordenadoria de Formação, Livro e Leitura (CCFOL), da Secult Ceará.

Quem foi Henriqueta Galeno?

Henriqueta Galeno (1887-1964) foi a primeira mulher a se formar na Faculdade de Direito do Ceará em 1919, destacando-se como professora e defensora da emancipação feminina. Fundou o Salão Juvenal Galeno (depois Casa de Juvenal Galeno), na qual leva o nome do pai.

“Henriqueta Galeno representa a força, luta e coragem em romper paradigmas, não se curvou ao papel imposto para as mulheres, ao contrário buscou formação, estudo contínuo, articulação política e resistência às adversidades. Lutou pela conquista do direito ao voto das mulheres e autonomia financeira, pois entendeu desde cedo que isso causava a sujeição das mulheres”, assevera Maura Isidório.

Henriqueta Galeno (1887-1964)

Em 1936, fundou uma associação voltada à participação feminina na escrita, a “Falange Feminina”, que mais tarde passou a se chamar “Ala Feminina”. Participou do Primeiro Congresso Feminista do Brasil em 1931 e contribuiu para a formação da Associação Cearense de Imprensa (ACI). Foi ensaísta, poetisa e membro da Academia Cearense de Letras, com estudos reunidos postumamente em “Mulheres admiráveis” (1965).

“Usou a escrita e a literatura como expressão do pensamento feminino e da tessitura consciente de sua existência. Uma grande mulher, com grandes lutas e um relevante legado que nos impulsiona. Sua memória é energia que nos anima para resistir e continuarmos fortalecidas para os desafios do nosso tempo”, finaliza Maura Isidório.

A Casa de Juvenal Galeno

A Casa de Juvenal Galeno tem como missão preservar e promover o legado do renomado escritor cearense, consolidando-se como um espaço de convivência, pesquisa e lazer à população. Construída por Juvenal Galeno em 1886, foi transformada em centro cultural em 1919 por suas filhas, Júlia e Henriqueta Galeno, sendo oficialmente fundada como instituição cultural em 27 de setembro de 1919.

Atualmente, congrega diversas entidades culturais:

Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno (AFCJG), Academia Feminina de Letras do Ceará (AFELCE), Associação Cearense de Escritores (ACE), Academia de Letras Juvenal Galeno (ALJUG), Academia de Letras e Artes do Estado do Ceará (ALACE), Academia de Letras dos Municípios Cearenses (ALMECE), Centro Cultural do Ceará (CCC), Comissão Cearense de Folclore (CCF), Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL), Associação de Ouvintes de Rádio do Estado do Ceará (AOUVIR-CE), Associação dos Artistas e Proprietários de Circo do Estado do Ceará (APAE-CE), Núcleo dos Amigos dos Mágicos do Ceará (NUAMAC), Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Ceará (SATED), Oficina de Violão (OV), Grupo de Estudos Literários – Além do Verso, Grupo Chocalho (GC) e Associação Maria Mãe da Vida (AMMV).

Foram presidentes da Ala Feminina, além de sua fundadora, Henriqueta Galeno, as escritoras, a citar: Cândida Maria Santiago Galeno (Nenzinha Galeno); Jandira Carvalho; Eurídice de Sales Pereira; Naír Fontenele Sampaío Xavier; Lígia Bulcão de Vasconcelos; Olga de Lacerda Pinheiro; Maria de Lourdes Vasconcelos Pinto; Maria de Lourdes Araújo; Risette Cabral Fernandes; Gisela Paschen Schimmelpfeng; Raímunda Neide Moreira Freire, Maria Hilma Correia Montenegro, Matusahila de Sousa Santiago, e atualmente, Fátima Lemos.

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