A startup brasileira Sinatra AI, que usa inteligência artificial para reduzir perdas no e-commerce, movimentou R$ 10 milhões em uma rodada seed. O aporte foi liderado pela BluStone e teve participação de Caravela Capital, GR8 Ventures e Plug and Play.
Além da injeção de capital, parte dos recursos da rodada foi destinada à compra da fatia do Grupo Quality Digital, que vendeu toda sua participação no negócio. A gestora havia entrado na Sinatra no ano passado, quando liderou a rodada pré-seed, de R$ 4,2 milhões.
A rodada seed ocorre após a empresa, com pouco mais de 12 meses de operação comercial, firmar contratos com grandes empresas, como Americanas, Pague Menos, Electrolux e Decathlon. Ao todo, a lista de clientes da Sinatra passa de 40 nomes.
Desde janeiro do ano passado, a Sinatra afirma ter gerado cerca de R$ 100 milhões em economia. A meta é chegar a R$ 1 bilhão ainda neste ano.
Parte significativa dessa economia vem da detecção de erros de precificação. “É muito comum aquele tipo de promo com um preço de R$ 7.000 por R$ 700, porque alguém errou uma casa na planilha. A gente consegue detectar isso logo quando o preço sobe”, afirma Rafael Guerra, fundador e CEO da Sinatra, ao NeoFeed.
Esse tipo de falha, diz Guerra, costumava ser identificado de forma reativa, depois de chegar ao SAC ou gerar impacto na operação. A proposta da Sinatra é antecipar esse processo.
Em 2025, a Sinatra faturou pouco mais de R$ 1 milhão. Para este ano, a companhia espera multiplicar a receita por dez. A expectativa é que a companhia atinja o break even entre 12 e 18 meses.
Antes de iniciar o projeto que daria vida à Sinatra, há cerca de três anos, Guerra passou mais de uma década e meia trabalhando com e-commerce, onde conheceu por dentro as dores das áreas de operações e tecnologia.
Na prática, a análise de preços parte da identificação de padrões de venda de cada cliente, combinando dados da operação com uma inteligência artificial desenvolvida pela própria Sinatra.
“Estamos há três anos desenvolvendo a nossa IA interna. A gente usa 100% de tecnologia proprietária, a gente não usa nada de fora, não tem nenhuma tecnologia de OpenAI, Anthropic etc.”, afirma.
Essa mesma tecnologia é aplicada pela Sinatra em outras frentes da operação, como prevenção de fraudes externas e internas, monitoramento de meios de pagamento, identificação de falhas no checkout, gestão de estoque e acompanhamento logístico.
Embora não se apresente como uma ferramenta antifraude, Guerra afirma conseguir identificar esse tipo de problema como consequência da leitura integrada dos dados da operação.

Um dos casos de fraude identificados pela tecnologia, por exemplo, envolveu um funcionário que usava descontos internos para comprar produtos em volume incompatível com sua renda e depois revendê-los. Segundo Guerra, o funcionário recebia cerca de R$ 5 mil por mês, mas chegou a comprar R$ 300 mil em produtos com desconto.
“Em poucos dias, esse problema custou quase R$ 20 milhões para a companhia. Sem a Sinatra, eles demorariam pelo menos um mês para identificar, o que poderia custar umas centenas de milhões de reais”, afirma Guerra.
A percepção de valor sobre os serviços da Sinatra foi um dos pontos-chave para a BluStone assumir a liderança da rodada seed. “Alguns clientes da Sinatra com quem conversamos falavam de economias de dezenas de milhões de reais por terem a ferramenta da Sinatra. É um problema que existe, mesmo nos maiores operadores”, diz Carlos Lopes, sócio da BluStone.
Outro fator que chamou a atenção do investidor, comenta, foi o fato de nenhum cliente, em todo o período de operação, ter cancelado os serviços da Sinatra. “Zero, ninguém nunca saiu. Então, estão vendo valor nessa solução.”
Os planos da Sinatra
Os recursos da rodada serão destinados principalmente a pesquisa e desenvolvimento. A Sinatra quer ampliar as tecnologias usadas para identificar anomalias em tempo real e automatizar decisões em diferentes frentes da operação de e-commerce, de preço e estoque a pagamento, fraude e logística.
A equipe da Sinatra é formada por 14 pessoas, incluindo engenheiros com mestrado e doutorado, além de profissionais de analytics. “De fato, somos uma empresa de pesquisa e desenvolvimento.”
“O time técnico que é muito bom em desenvolver um produto tem muito mais valor que um time comercial de vendas. Esse produto diferenciado, eventualmente, vai ser absorvido pelo mercado, porque eles vão entender quanto valor o produto agrega“, disse Lopes.
Durante a análise do negócio, Lopes diz não ter encontrado nenhuma empresa que oferecesse os mesmos serviços da Sinatra, mesmo em países mais desenvolvidos. “Então, esse é um negócio que a gente tem essa intenção de levar para o mundo inteiro.”
Além do Brasil, a companhia já tem clientes em outros cinco países da América Latina, incluindo Argentina, Chile e Colômbia. A ambição agora é chegar ao mercado americano, onde a Sinatra iniciou conversas com potenciais clientes de e-commerce.
“Se continuar nessa trajetória, em 12 a 18 meses a Sinatra já será uma empresa grande. Mas tem planos, como o de expansão internacional, que, provavelmente, exigiria novas captações.”