
Neste último sábado, fui ao Cocó, entrar num desses templos de consumo onde o ar refrigerado nos convida a esquecer do calor e das dores do mundo lá fora. Mas a realidade não pede licença para entrar. Já lá dentro, próximo à zona dos caixas, onde as compras passam e a vida segue seu fluxo comercial, a fratura social se expôs sem pudor: duas mulheres com crianças de colo — bebês de não mais que cinco meses — acompanhadas de uma terceira figura, cujos olhos já denunciavam o naufrágio no vício.
Fui abordado ali mesmo, entre carrinhos e prateleiras. O pedido era o de sempre: aquele pacote de 800gr de leite famoso, o ninho. Aos ingênuos, parece fome. Aos que conhecem as esquinas da cidade, sabe-se que aquele pó branco muitas vezes não alimenta a criança, mas serve para batizar outro pó, aquele que destrói. Ao negar e sugerir o caminho do trabalho, recebi o silêncio balbuciado de quem já perdeu a esperança e o rumo.
Mas a crônica da vida real teve seu capítulo mais triste na saída. No hall de entrada, tão climatizado e seguro quanto o interior da loja, presenciei a verdadeira tragédia — aquela que não se vê, mas se sente na alma. A gerente, correta em sua função, já havia acionado a abordagem social. Três agentes municipais estavam lá. Coitados. Estavam com a boa vontade estampada no rosto, mas com as mãos atadas por fios invisíveis.
Relataram-me, com o olhar baixo da decepção, que haviam buscado a proteção maior para aqueles bebês junto ao Conselho Tutelar. Mas a resposta do sistema foi o protocolo. Antes da ação imediata, a burocracia exigia o trâmite: acionar outro setor, agendar visita, fazer a vistoria no lar, produzir relatório… um ritual processual longo e demorado, que ignora o relógio da urgência.
Ali, naquele hall confortável, a poucos metros de nós, dois bebês estavam sendo instrumentalizados agora. Não no dia da visita, não após a análise do laudo. Estavam sendo usados como ferramentas de troca por quem, naquele momento, tinha como prioridade o vício e não o berço. Mas a “letra fria da lei” pedia paciência onde a vulnerabilidade gritava por socorro.
Fui embora com um gosto amargo e uma memória terrível a me assaltar. Lembrei-me do pequeno Bernardo, lá no sul, que pediu ao juiz para viver com o vizinho, pois o pai e a madrasta lhe negavam o afeto. O magistrado, homem da lei, seguiu a cartilha, o protocolo, a regra. Devolveu o menino ao “lar”. O desfecho, todos sabemos: o protocolo foi cumprido, mas o menino foi morto.
Fico a divagar sobre essa nossa Pindorama, onde a proteção à infância, por vezes, se perde em carimbos e etapas. A burocracia não pode ser um ritual religioso; ela deve ser ferramenta de vida. Nossos órgãos precisam entender que, para uma criança em risco, o tempo do papel não é o mesmo tempo da vida. Estamos falhando. E o silêncio diante disso é uma sentença que, como sociedade, não podemos assinar.