A busca por eficiência energética e melhores condições para a criação de animais tem ampliado a procura por soluções de isolamento térmico no agronegócio brasileiro. A Saint-Gobain, grupo francês de materiais para construção, registra crescimento superior a 30% ao ano na demanda por essas tecnologias, segundo Vinícius Araújo, diretor sênior de estratégia e marketing da Saint-Gobain Brasil.
A companhia vê a avicultura como uma das principais frentes de expansão no mercado agropecuário e pretende manter o ritmo de crescimento de dois dígitos nos segmentos em que atua.
O avanço ocorre em um momento em que o controle da temperatura dos galpões se torna uma questão econômica para os produtores. O calor excessivo pode elevar a necessidade de ventilação e climatização artificial, aumentando o consumo de energia e os custos operacionais, além de comprometer o bem-estar das aves e os resultados produtivos.
Nesse cenário, a empresa aposta na combinação de soluções de isolamento térmico para reduzir a entrada de calor nos aviários e diminuir a necessidade de equipamentos de climatização. De acordo com Araújo, a aplicação conjunta de produtos das marcas Isover, Brasilit e Placo pode reduzir em até 35% a carga térmica que entra nas instalações, dependendo da configuração adotada em cada projeto.
“Quando tem calor, eu deixo entrar menos calor. E, quando está frio, eu trabalho para que haja uma perda menor de temperatura dentro do ambiente”, explicou o executivo, ao detalhar o funcionamento do isolamento térmico.
A tecnologia também busca reduzir o estresse térmico dos animais, fator que pode afetar a mortalidade e o desempenho dos lotes. Segundo a companhia, a menor necessidade de climatização artificial pode gerar economia de até duas toneladas de CO₂ por aviário ao ano.
Um dos exemplos citados pela Saint-Gobain é a Fazenda Alta Conquista, no interior de São Paulo, que produz aproximadamente 3 milhões de aves por ano. A propriedade substituiu o forro simples por uma solução com isolamento térmico e registrou redução de 24% no consumo de energia, conforme os dados apresentados pela empresa. O projeto também apresentou melhora nos indicadores zootécnicos, com menor mortalidade e redução do estresse térmico das aves.
O caso ilustra a estratégia da companhia de demonstrar os resultados econômicos das soluções antes da decisão de compra. Para isso, a empresa utiliza uma ferramenta de simulação de desempenho energético, que permite comparar diferentes configurações construtivas com estruturas convencionais e estimar os ganhos de eficiência.
“Quando a gente tem essa possibilidade, de mostrar o benefício técnico e comprovar o ganho energético, a conversão da venda acontece”, afirmou Araújo.
Demanda cresce
A Saint-Gobain trabalha com o mercado agropecuário há cerca de cinco a seis anos, período em que ampliou a participação em feiras e eventos do setor e desenvolveu ferramentas para apresentar os benefícios do isolamento térmico a produtores, integradores e projetistas.
Segundo o executivo, o crescimento anual da procura pelas soluções está acima de 30%, embora a companhia não divulgue números específicos de expansão por segmento. Araújo também afirmou que os mercados não residenciais, categoria que inclui parte das aplicações no agronegócio, cresceram cerca de 20% de um ano para o outro. A empresa pretende manter taxas de expansão de dois dígitos elevados, com o agronegócio entre as áreas prioritárias.
A estratégia está alinhada ao plano global de liderança e crescimento da Saint-Gobain, que busca ampliar a atuação do grupo a partir das necessidades de diferentes mercados, como os setores residencial, não residencial e de infraestrutura. Dentro dessa abordagem, a companhia afirma ter potencial para oferecer mais de 70 soluções ao agronegócio, abrangendo diferentes etapas e estruturas das operações rurais.
A diversificação é importante porque a demanda não se limita à avicultura. A Saint-Gobain já desenvolve projetos relacionados à suinocultura, especialmente nas regiões Nordeste e Norte, e também identifica oportunidades na pecuária de corte e em instalações destinadas ao processamento de proteína animal.
Nos frigoríficos e em outras estruturas de processamento, por exemplo, o grupo oferece soluções para pisos com resistência química e mecânica. A proposta é reduzir a deterioração provocada pelo contato com resíduos do processamento e diminuir a necessidade de manutenção frequente. O portfólio também inclui soluções para paredes, coberturas e isolamento térmico.
Tecnologia atende armazéns de grãos
Outra frente de atuação está nos galpões utilizados para armazenagem de grãos e em instalações que precisam de maior controle de temperatura. Segundo Araújo, as soluções de isolamento já aplicadas em aviários também podem ser utilizadas nesses espaços, com combinações de produtos definidas conforme as características do projeto.
A escolha da tecnologia depende de fatores como a localização da instalação, a zona bioclimática, a espessura e o tipo de material e a quantidade necessária para alcançar o desempenho esperado. Por isso, a empresa busca participar das etapas iniciais de planejamento, trabalhando em conjunto com arquitetos, projetistas e responsáveis pelas estruturas.
A abordagem permite dimensionar a solução de acordo com as condições climáticas e as necessidades de cada operação, em vez de adotar uma configuração única para todas as regiões do país.
A companhia também mantém projetos em andamento com as equipes de Pesquisa e Desenvolvimento para quantificar os ganhos de eficiência energética em outras aplicações do agronegócio. Até o momento, não foram divulgados resultados consolidados nem projeções financeiras específicas para essas frentes.
Pesquisa e capacitação
Parte do desenvolvimento tecnológico ocorre no centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Saint-Gobain em Capivari, no interior de São Paulo. Inaugurado em 2016, o centro integra uma rede de cinco hubs de inovação da companhia no mundo e participa da criação e validação de soluções e ferramentas de simulação destinadas ao mercado brasileiro.
De acordo com Araújo, a estrutura também está aberta aos clientes, que podem utilizar o suporte técnico para avaliar combinações de produtos e entender os resultados esperados antes da execução dos projetos.
A capacitação de profissionais é outro eixo da estratégia. A empresa mantém 17 academias de treinamento no país e promove iniciativas com instituições de ensino, como o Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), além de oferecer treinamentos a clientes e profissionais envolvidos no desenvolvimento e na execução das obras.
Para o executivo, a adoção das tecnologias depende não apenas da disponibilidade dos materiais, mas também da qualificação da mão de obra responsável pela instalação. A estratégia inclui ampliar o conhecimento de produtores, projetistas e demais agentes da cadeia sobre os benefícios técnicos e econômicos das soluções.
Com o avanço da procura por eficiência energética, a Saint-Gobain pretende ampliar sua presença no agronegócio para além do isolamento de aviários. A companhia aposta na combinação de pesquisa, simulação de desempenho e atendimento técnico para expandir a participação em instalações pecuárias, unidades de processamento e estruturas de armazenagem.
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