O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, intensificou alertas sobre os perigos do comunismo nas duas últimas semanas, como parte de estratégia política para testar se a mensagem encontra eco para além da base de apoiadores, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.
O uso do termo por Trump aumentou após 23 de junho, quando uma série de candidatos da ala mais à esquerda do Partido Democrata venceu as eleições primárias em Nova York,
segundo análise da Reuters a partir de declarações públicas e postagens nas redes sociais. Desde então, o presidente americano mencionou o comunismo 81 vezes, chamando alguns dos democratas vitoriosos de “comunistas radicais e sem Deus”.
Resultados preliminares de grupos focais conduzidos pela equipe de Trump indicam que a mensagem mobiliza fortemente a base do presidente e que ele pode conseguir aumentar o comparecimento às urnas entre eleitores republicanos que não costumam votar, segundo duas fontes familiarizadas com o assunto.
No entanto, a mensagem parece ser menos eficaz entre eleitores independentes — que frequentemente decidem disputas apertadas — e entre eleitores mais jovens que não viveram nos tempos da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética.
O sucesso dos chamados “socialistas democratas” e de outros candidatos progressistas nas primárias em diferentes Estados, como Colorado, Kentucky, Nova York, Ohio e Texas, deu a Trump e demais republicanos um novo flanco para atacar, retratando os adversários como extremistas.
Trata-se de uma estratégia para evitar que os republicanos tenham que defender o histórico de Trump no combate ao alto custo de vida dos americanos. Muitos candidatos progressistas argumentam que, para combater o alto custo de vida, é preciso aumentar impostos, reduzir gastos militares, se opor ao financiamento americano a Israel, ampliar programas financiados pelo governo e extinguir o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), que ganhou novo status sob Trump.
Conhecido pela retórica política direta, Trump tem sido rápido em rotular os defensores dessas propostas como comunistas. Muitos dos candidatos, porém, se definem como socialistas democratas que defendem a implementação de políticas progressistas por meio de eleições, enquanto o comunismo busca abolir a propriedade privada e criar uma sociedade sem classes.
Olivia Wales, porta-voz da Casa Branca, afirmou que a “adesão dos democratas ao socialismo e ao comunismo” representa “ameaça existencial ao nosso país” e que Trump “continuará denunciando o radicalismo e estabelecendo um forte contraste com sua agenda de bom senso e ‘América em Primeiro Lugar’”.
Em discurso no último 4 de julho, que marcou o 250º aniversário da Declaração de Independência dos EUA, Trump alertou para a ascensão do comunismo, comparando-o a um câncer que precisava ser removido. “É preciso extirpá-lo, e é preciso fazer isso rapidamente”, disse em comício no National Mall, em Washington.
Ao retratar os democratas como socialistas e comunistas, Trump revive uma das armas mais antigas da política americana. Os ex-presidentes republicanos Richard Nixon e Ronald Reagan recorreram à mesma linha de ataque durante a Guerra Fria.
No entanto, a decisão de Trump de usar uma celebração tradicionalmente apartidária do Dia da Independência para atacar adversários políticos inaugurou um contexto incomum para esse tipo de mensagem.
Nos bastidores, assessores de Trump estão testando a nova mensagem em grupos focais, enquanto os republicanos se preparam para a fase mais disputada da campanha até as eleições de novembro, que definirão o controle do Congresso dos EUA.
As conclusões preliminares indicam que a palavra “comunismo” pode ser mais eficaz do que “socialismo” em algumas das disputas, enquanto “socialismo” pode ter apelo mais amplo em anúncios pagos e mensagens a distritos específicos, segundo uma das pessoas familiarizadas com os testes.
Os republicanos acreditam que a mensagem repercute especialmente entre os eleitores hispânicos da Flórida — onde o discurso antissocialista há muito tempo encontra respaldo entre aqueles cujas famílias fugiram de governos de esquerda na América Latina — e do Texas.
“É uma mensagem atraente para os eleitores e ajudará a estabelecer o contraste em novembro”, disse Alex Pfeiffer, porta-voz do super PAC de Trump, MAGA Inc.
Pesquisa de opinião do Gallup realizada em 2025 mostrou que os americanos ainda veem o socialismo de forma mais negativa do que positiva: 57% têm visão desfavorável e 39%, favorável. Entre os democratas, porém, o socialismo é mais bem avaliado do que o capitalismo.
Amy Koch, estrategista republicana, disse duvidar que o rótulo de comunista amplie o apelo entre eleitores mais jovens ou independentes. “Acho simplesmente que comunismo não significa a mesma coisa para quem tem menos de 55 anos”, afirmou.
A deputada democrata Suzan DelBene, presidente do comitê de campanha do partido para a Câmara dos Deputados, afirmou em nota que os republicanos estão “recorrendo a ataques desesperados que, na verdade, não tratam das questões que afetam o bolso dos eleitores”.
Na última semana, Trump mencionou o comunismo em conversa com jornalistas no Salão Oval, e também na cerimônia de inauguração da Biblioteca Presidencial Theodore Roosevelt, na Dakota do Norte, bem como nas celebrações dos 250 anos dos EUA em Mount Rushmore e no National Mall.
E classificou o comunismo como “a ameaça mais séria ao nosso país em sua existência”, acrescentando que representa perigo potencialmente maior do que a Primeira Guerra Mundial, a Segunda Guerra Mundial ou os ataques de 11 de setembro de 2001. “Uma ameaça mortal à liberdade americana”, enfatizou.
A estratégia oferece aos republicanos uma forma de partir para o ataque após meses defendendo o desempenho econômico de Trump, enquanto assessores enfrentavam dificuldades para mantê-lo focado no custo de vida, principal preocupação do eleitorado.
O próprio Trump, porém, enfraqueceu essa estratégia ao dizer que “adora a inflação” e ao minimizar como “trocados” a alta de preços da gasolina provocada pelo conflito com o Irã. E também se referiu ao projeto de lei bipartidário voltado à redução dos preços de moradias como “um grande bocejo”.
Líderes republicanos, incluindo o presidente da Câmara, Mike Johnson, e o presidente do Comitê Nacional Republicano, Joe Gruters, estão agindo para amplificar a mensagem de Trump, apresentando as eleições de meio de mandato como uma escolha entre “bom senso e extremismo”.