James Talarico. Guarde este nome. Ele é o personagem das eleições para Congresso dos EUA, daqui a um mês, que podem alterar os rumos da maior potência mundial. Candidato ao Senado no Texas, ele é uma espécie de anti-Trump. É jovem, centrista, profundamente religioso, vem de uma família pobre e prega a união e o diálogo entre os americanos, num momento de polarização política. Se for eleito, fará história e se cacifará para integrar uma chapa presidencial nos próximos anos, podendo emular a carreira meteórica de Barack Obama.
De imediato, Talarico é uma das principais esperanças do Partido Democrata de tomar o controle do Senado americano nas eleições legislativas de 3 de novembro.
Segundo a média das pesquisas do site RealClearPolling, os democratas lideram com 50,6% das intenções de voto no país, contra 42,3% do Partido Republicano, do presidente Donald Trump. Nunca um partido que ganhou com essa margem ficou sem a maioria na Câmara dos Deputados dos EUA.
No Senado, porém, a conta é mais apertada. Estarão em jogo 35 das 100 cadeiras. Segundo as projeções do Center for Politics, os democratas tendem a ficar com 48 cadeiras no total, contra 47 dos republicanos. Sobram 5 disputas em situação de empate técnico nas pesquisas. Para obter a maioria, os democratas precisam vencer 3 delas. E uma é no Texas (as demais são Maine, Ohio, Indiana e Alasca).
O Texas, que não elege um senador democrata desde 1988, costumava ser um Estado fortemente conservador. Mas uma explosão demográfica recente está alterando esse perfil político. A economia local deslanchou com o recente boom do petróleo. Além disso, muitas empresas se mudaram para lá, para aproveitar os impostos menores. Isso trouxe ao Estado gente de todo o país. Em 2000, a população texana não chegava a 21 milhões; neste ano, atingiu 31,7 milhões.
Uma derrota no Texas seria desastrosa para os republicanos, por vários motivos. Simbolicamente significaria perder uma fortaleza histórica e indicaria uma rejeição forte do eleitorado a Trump. Na prática, ajudaria os democratas a tomarem o Senado e poderia dificultar muito a vitória nas próximas eleições presidenciais.
Mas Talarico é importante não só pelo que pode representar daqui a um mês. Ele sugere um perfil e uma estratégia política alternativos (ou ao menos complementares) para os democratas nos próximos anos.
Os excessos de Trump vêm sendo usados como desculpa para uma guinada à esquerda por uma parte dos democratas, uma ala personificada hoje pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que se diz socialista. Trump reage acusando os democratas de serem uma esquerda radical. Isso acaba alimentando a guerra de cultura entre os dois lados e polarizando o país.
Talarico, que hoje é deputado estadual, propõe uma abordagem oposta. Centrista, ele foca mais na agenda social (como a defesa do ensino público e dos direitos dos trabalhadores) do que na questão de costumes. E, em contraste com Trump, prioriza o discurso de que o que une os americanos é maior do que o que os separa.
“Estou cansado de ser colocado contra o meu vizinho. Estou cansado de ser instruído a odiar o meu vizinho. Pessoas de todo o espectro político estão famintas por um novo tipo de política”, afirmou numa aula magna, no ano passado. “A democracia vai além da votação, das instituições e das leis. Ela é fundamentalmente uma prática espiritual. Essa prática envolve ouvir uns aos outros, servir uns aos outros, colaborar e resolver conflitos sem violência. […] Alcançar a vitória em uma democracia não é dominar os outros, mas sim persuadi-los e estabelecer uma coexistência pacífica.”
Essa abordagem paz e amor pode parecer até ingênua, Mas, como ele mesmo diz, “numa época caracterizada pela divisão, a ação mais radical é unir as pessoas”. E recorda o bordão “yes, we can” (sim, nós podemos), de Obama.
Como centrista, transita dos dois lados. Mesmo sendo muito religioso (é seminarista da Igreja Presbiteriana), Talarico se opôs ao projeto aprovado no Texas de obrigar escolas a exibir os Dez Mandamentos nas salas de aula. Segundo ele, a medida é “profundamente anticristã”, pois força a religião goela abaixo dos alunos, e inconstitucional, por violar a separação entre igreja e Estado.
Ele também é um crítico ferrenho do poder acumulado pelos bilionários na política americana. “Um pequeno grupo de bilionários redesenhou a política para o seu próprio lucro”, afirmou neste ano. “O problema central do país não é o conflito entre esquerda e direita, mas sim entre a elite rica e o resto de nós.”
Talarico vem de uma família de muitas gerações no Texas. Assim como Obama, foi criado sem o pai (a mãe se separou por sofrer violência doméstica). Fala espanhol, ainda que não fluentemente. Obteve educação de alto nível, formando-se em ciências políticas na Universidade do Texas (Austin), com mestrado em políticas educacionais em Harvard (onde Obama também estudou).
A liderança de Talarico nas pesquisas no Texas é favorecida pela impopularidade de Trump e do candidato republicano ao Senado escolhido pelo presidente, Ken Paxton. Procurador-geral do Texas, Paxton é alinhado à ala mais conservadora do partido, o movimento Maga. Ele já sofreu um processo de impeachment por suborno, abuso de poder e obstrução de Justiça (foi salvo no último instante pelo Senado do Texas). Também foi acusado por funcionários de seu gabinete de proteger doadores políticos e processado (fez acordo) por fraude financeira.
Ainda assim, se for eleito, Talarico causará um terremoto político, cujo alcance certamente vai superar as fronteiras do Texas.
Valor Econômico