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Da punição à compreensão, como entender o cérebro transforma a forma de lidar com a regulação emocional das crianças e adolescentes

Psi Veronica Lima

Psicanalista, orientadora em educação parental e pesquisadora da formação do psiquismo infantil, Verônica Lima defende que o desenvolvimento emocional das crianças começa muito antes da escola e exige uma nova compreensão sobre o papel da família.

Vivemos a geração mais conectada da história. Ao mesmo tempo, cresce o número de crianças com dificuldades de atenção, impulsividade, ansiedade, intolerância à frustração e problemas relacionados à regulação emocional. Embora não exista uma causa única para esse cenário, especialistas defendem que a combinação entre excesso de estímulos, mudanças nas relações familiares e transformações no ambiente social tem produzido impactos importantes no desenvolvimento infantil.

Nesse contexto, a educação parental tem ganhado espaço como uma das principais estratégias para fortalecer vínculos familiares e promover um desenvolvimento emocional mais saudável desde os primeiros anos de vida. Mais do que ensinar técnicas educativas, essa abordagem busca compreender como as experiências precoces influenciam a organização do cérebro, das emoções e da personalidade ao longo da vida.

Para a psicanalista e orientadora em educação parental Verônica Lima, o cérebro infantil não amadurece apenas pelo passar do tempo, mas principalmente pela qualidade das relações estabelecidas com os adultos responsáveis pelos cuidados da criança.

“A infância é o período em que o cérebro apresenta maior capacidade de adaptação. Cada experiência repetida, cada resposta emocional e cada vínculo estabelecido participa da construção dos circuitos neurais responsáveis pela segurança emocional, pelo autocontrole e pela capacidade futura de se relacionar.”

Segundo Verônica, a neurociência tem confirmado aquilo que diferentes correntes da psicologia já observavam há décadas: o ambiente exerce influência direta sobre a arquitetura cerebral durante a infância.

Estudos mostram que experiências de acolhimento, previsibilidade, segurança e afeto favorecem o desenvolvimento das funções executivas — conjunto de habilidades relacionadas ao planejamento, controle emocional, memória de trabalho e tomada de decisões. Em contrapartida, ambientes marcados por estresse tóxico, negligência ou exposição contínua a conflitos podem comprometer esse processo.

Na prática clínica e no trabalho desenvolvido com famílias, Verônica observa que muitos pais enfrentam o desafio de educar em uma realidade completamente diferente daquela em que foram criados.

“As famílias convivem hoje com excesso de informações, pressão social, sobrecarga emocional e uso intenso das tecnologias. Educar nunca foi tão complexo. Por isso, orientar os pais também significa ajudá-los a compreender o funcionamento do cérebro infantil e o impacto que suas próprias emoções exercem sobre os filhos.”

Outro aspecto frequentemente discutido pela especialista é que educação parental não significa buscar pais perfeitos, mas adultos emocionalmente disponíveis para construir relações consistentes.

Segundo ela, estabelecer limites continua sendo fundamental, mas esses limites precisam ser acompanhados de vínculo, escuta, previsibilidade e segurança emocional.

“O cérebro infantil aprende primeiro através da relação e só depois através das palavras. A forma como a criança é acolhida diante dos erros influencia diretamente sua capacidade futura de desenvolver autonomia, autoestima e equilíbrio emocional.”

A especialista também chama atenção para a importância do desenvolvimento emocional ainda durante a gestação. Estudos nas áreas de neurociência, psicologia do desenvolvimento e saúde materno-infantil indicam que fatores como estresse crônico, bem-estar emocional e qualidade do vínculo materno podem influenciar o ambiente biológico em que o bebê se desenvolve.

Para Verônica Lima, compreender o desenvolvimento infantil sob a perspectiva da neurociência não representa uma mudança de moda na educação, mas uma oportunidade de transformar a forma como a sociedade enxerga a infância.

“Quando entendemos que o cérebro é moldado pelas experiências, percebemos que educar vai muito além de ensinar comportamentos. Educar é participar da construção emocional de um ser humano.”

À medida que aumentam as discussões sobre saúde mental, desenvolvimento infantil e relações familiares, especialistas defendem que investir em educação parental baseada em evidências pode representar um dos caminhos mais consistentes para formar crianças emocionalmente mais seguras e adultos mais preparados para enfrentar os desafios da vida.

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